Eu sou Malala

“No dia em que nasci, as pessoas da nossa aldeia tiveram pena de minha mãe, e ninguém deu parabéns a meu pai…”

Em 2013, Malala Yousafzai foi considerada pela revista americana Time uma das 100 pessoas mais influentes do mundo e também recebeu do Parlamento Europeu o Prêmio Sakharov para a liberdade do pensamento. Em 2014, foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz. Ok, pessoas extraordinárias recebem este tipo de reconhecimento pelas suas realizações ao longo da vida. Mas Malala foi reconhecida aos 16 anos…

Existe um momento no qual você tem que escolher se fica em silêncio ou se enfrenta.” – Malala Yousafzai

Quem é essa menina? Malala nasceu em um remoto vale no Paquistão, filha mais velha de Ziuaddin e Tor Pekai Yousafzai, em uma família humilde e muçulmana, como a maior parte da população nesse país. Mas definitivamente a religião, o Islamismo, em sua essência, não é o mote para Malala se tornar quem ela se tornou. O mote é a cultura. Quando nasceu, não houve uma linda reunião de família e amigos para dar as boas vindas à recém-nascida. Isso porque era uma menina. Mas seu pai, Ziuaddin, um educador e poeta, não se importou e deu a ela um nome inspirado em uma heroína do país, uma Joana d’Arc do povo Pachtum. Ele desejava, em uma sociedade que restringe os direitos das mulheres, que a filha estudasse e tivesse oportunidades em sua vida.

Malala será livre como um pássaro.” – Ziuaddin Yousafzai

O pai de Malala já dirigia sua própria escola e ela já estudava quando ocorreu o atentado às torres gêmeas nos EUA, em 2001. Desde então, o Talibã, movimento fundamentalista islâmico que dominava o Afeganistão, começou a difundir-se no Paquistão, a exercer sua força e seu domínio, em contraposição ao governo nacional, impondo rígidas regras à população. Bom, essa é uma parte da história que se entende um pouco como Malala cresceu no meio do olho do furacão entre os Estados Unidos e o Talibã.

O Islã é uma religião tão fraca que não pode tolerar um livro escrito contra ele? Não o meu Islã!” – Malala Yousafzai

O ativismo de Ziuaddin e de Malala para manter a escola aberta e para garantir o direito das meninas à educação encontrou inúmeras resistências mas não se deteve. Em 2010, Malala começou a escrever anonimamente um blog para a BBC de Londres relatando sua vida sob o regime e restrições do Talibã, dentre elas a de proibir a educação de meninas. Também foi apresentada em um documentário pelo The New York Times e sua exposição internacional deslanchou. Era normal que seu pai recebesse ameaças de mortes mas a situação ficou assustadora quando essas ameaças passaram a ser direcionadas a Malala.

Em 2012, aos 15 anos, Malala foi atingida, com um único tiro, na cabeça, pescoço e ombro, dentro do ônibus escolar, deixando-a entre a vida e a morte. O Talibã assumiu a responsabilidade do ataque alegando que Malala era um símbolo de infidelidade ao Islã embora outros líderes islâmicos não achassem isso.

Eu não quero ser reconhecida como a menina que foi baleada pelos talibãs mas pela menina que lutou pela educação. Essa é a causa pela qual eu dedico minha vida.” – Malala Yousafzai.

Malala foi transferida em estado crítico para um hospital em Birmingham, na Inglaterra, onde felizmente se recuperou para continuar sua história. Ela continua vivendo nesta cidade, longe de seu país, mas atuando ativamente pelo direitos humanos e pela educação através de sua organização chamada Malala Fund. Ela já viveu e fez isso tudo e continua fazendo… Menina com agenda de gente grande. Desde que não atrapalhe seus estudos. Uma líder.

Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.” – Malala Yousafzai.

Esse é um livro de superficialidade aparente porque foi escrito por uma menina que na ocasião tinha 16 anos. Mas a verdade é que o direito à educação e à igualdade ainda são questões muito discutidas, ainda que no mundo ocidental. O ingrediente que complica, além da violência, é entender a história de um país que nos parece distante demais e que, quando inserido no nosso noticiário, é um tanto confuso por causa dos inúmeros conflitos religiosos e políticos que estão relacionados ao próprio Paquistão e à região do Oriente Médio, que é vizinha a este país.

Embora tenha sido escrito à quatro mãos (Malala junto com Christina Lamb, uma jornalista britânica), o discurso em primeiro pessoa, relatando fatos históricos ocorridos desde a juventude do pai, narra uma sequência didática desde a criação do Paquistão em 1947, passando pelo atentado ao World Trade Center e ao Pentágono em 2001, o terremoto no Paquistão que matou 70 mil pessoas em 2005 e chegando no discurso emblemático de Malala na ONU em 2013, um ano após seu atentado. Todo esse contexto ajuda a entender os problemas deste povo de uma outra perspectiva.

A história está dividida em 5 partes: “Antes do Talibã”, “O Vale da Mortes”,  “Três Meninas, Três Balas”, “Entre a Vida e a Morte” e “Uma Segunda Vida”. Tem também um glossário e uma linha do tempo dos acontecimentos mais importantes no Paquistão e no Vale do Swat. Sem contar as singelas fotos do álbum de família que ajudam a fazer nossa imaginação aterrisar um pouquinho na realidade.

Com essa leitura, pude ter uma nova compreensão de uma cultura estigmatizada pela suas diferenças com o mundo ocidental. Ver a Malala, com sua simplicidade e sonhos como qualquer menina da sua idade, a coloca bem próxima de nós. Sua visão também ajuda a reafirmar as crenças de que as diferentes religiões podem se respeitar e de que a educação pode ser a chave para um mundo mais consciente e solidário. Com certeza, é um livro indispensável e inspirador.


Se gostou e quer mais…

O Malala Fund tem uma página oficial onde são divulgadas suas campanhas e seu blog.

Malala Fund

A divulgação especial fica por conta do documentário “He Named Me Malala, que estreará nos EUA em outubro/2015.

He Named me Malala

Pelo trailer, dá pra perceber que promete mas não veja o documentário antes ler o livro… Clique aqui para conhecer a página e ver o trailer.

Em julho/2013, Malala fez seu primeiro discurso após ter sido baleada. Foi na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, para uma plateia de jovens líderes. Esse discurso é muito emocionante. Veja aqui.

neste link, você pode ver seu discurso em Oslo, na Noruega, em dezembro/2014, ao receber o Prêmio Nobel da Paz. Malala foi agraciada junto com o indiano Kailash Satyarthi pela luta de ambos, uma muçulmana e um hindu, “contra a supressão das crianças e jovens e pelo direito de todos à educação”.

Malala Prêmio Nobel

Ziuaddin Yousafzai fez uma bela palestra para o TED em 2014, já assistida por mais de 1,5 milhões de pessoas no mundo, falando sobre sua vida e explicando, com sua visão de educador, porque todos merecem oportunidades iguais. Veja aqui. Esse talk tem legenda para o português.

TED Ziuaddin Yousafzai

Por que minha filha é tão forte? Porque eu não podei suas asas.” – Ziuaddin Yousafzai

E, por fim, mas não menos importante, para os pais que desejam inspirar suas filhas além do mundo das princesas. Eu ainda não li mas já existe a versão do livro para os pequenos que se chama “Malala, a menina que queria ir para a escola”. Afinal, os tempos são outros…

Malala Infantil

Eu conto a minha história não porque ela é única, mas porque não é. Essa é a história de muitas meninas.” – Malala Yousafzai


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: EU SOU MALALA – A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã

Título Original: I AM MALALA – The girl who stood up for education and was shot by the Taliban

Autora: Malala Yousafzai e Christina Lamb

Gênero: Não Ficção – Biografia

Nr. Páginas: 360

Ano: 2013

Editora: Companhia da Letras

ISBN: 9788535923438

Tradução: Caroline Chang, Denise Bottmann, George Schlesinger e Luciano Vieira Machado

Para ver a o link do livro na página da Companhia das Letras, clique aqui.

9 comentários em “Eu sou Malala

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  1. Bárbara, impossível não se emociona com sua resenha. Que menina! Que vida! Que história inspiradora!
    Como pode ser tão nova e ter tanta experiência e coragem? Nós sabemos como, né? Grande missionária da paz!
    São pessoas como a Malala que me fazem renovar a fé na humanidade. Minha filha irá conhecer sua história com certeza e o melhor de tudo é que, diferentemente dos contos de fadas, ela é real e contemporânea à Manuela. Que lindo exemplo ela terá para seguir e se inspirar.
    Obrigada pela linda resenha.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Angelita, não escolhi este livro ao acaso… Pra mim, ele é muito especial porque mescla temas como religião, educação, cultura, sociedade, história. Impossível não se inspirar. Como já te disse, pensei muito na Manuela e em meninas como ela ao escrever. Quando ela crescer um pouquinho, leia o livro infantil pra ela! bjss

      Curtido por 1 pessoa

  2. Parabéns pelo trabalho! Tenho muito orgulho de saber que a minha amiga da adolescência se dedica a uma tarefa tão educativa, diria até inspiradora! Sucesso para vc e sua família!
    Donetto

    Curtido por 2 pessoas

  3. Minha amiga.
    Me arrepiei com sua resenha. Parabéns pela iniciativa. Quero muito ler esse livro e preciso tomar a mesma decisão que você tomou: me impor o hábito da leitura. Amei seu blog e será meu incentivo e minha inspiração para a leitura.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Que bom que você gostou da resenha! Você já sabe que o meu objetivo é incentivar a leitura e, se você ler, vamos ter mais ideias para trocar do que já trocamos. bjss!

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  4. Encantei-me com o pai de Malala. Fiquei emocionada quando ele escreveu o nome dela na árvore genealógica da família. Que grande e corajoso educador, que “não cortou as asas de sua filha”, e com certeza, provocaram mudanças na sociedade em que vivem.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oi, Tia. A Malala realmente tem um grande incentivador. Eu acho particularmente bonito quando ele diz que é conhecido por causa de sua filha embora, em algumas sociedades, os pais sejam conhecidos pelos seus filhos. Um beijo e obrigada pelos feedbacks.

      Curtido por 1 pessoa

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