O projeto Rosie

“Creio que encontrei uma solução para o Problema Esposa…”

“O Projeto Rosie” é um romance classificado como “chick-lit”, o que seria algo como uma literatura para mulheres. Só que eu encontrei esse livro na “estante” do Bill Gates. Que, por sua vez, teve a indicação da sua esposa, Melinda Gates, que não conseguia parar de ler trechos para ele. Imagino que ela tenha lido sobre as características de Don Tillman, um portador da síndrome de Asperger, que é uma condição psicológica próxima ao autismo. Ou seja, um “aspie”, como o próprio personagem define. E é essa a abordagem que não te deixa mais fechar o livro. Talvez Gates tenha se identificado com Don.

“A sequência começou quando Gene insistiu para que eu ministrasse uma palestra sobre a síndrome de Asperger… O timing fora extremamente irritante, eu poderia dividir o tempo de preparação da palestra com o da ingestão do meu almoço, mas já havia previamente reservado para aquela noite específica 94 minutos para limpar meu banheiro.”

Explicando melhor, um “chick-lit” é uma classificação para os romances ditos “femininos”, escritos por e para mulheres, em que a narrativa é leve e divertida e a heroína busca ser bem sucedida pessoal e profissionalmente. “O Projeto Rosie” é divertido e é daqueles livros que você lê de um só fôlego. Só que o protagonista da vez é um homem assim como o autor do livro, Graeme Simsion. E o romance fica por conta da busca não convencional da parceira ideal. Através de uma planilha e um projeto: o Projeto Esposa.

Don é o personagem principal e a narrativa se passa em primeira pessoa. Então, ele nos conta como chegou a esse “projeto” de encontrar uma companheira. Ele tem 39 anos, é professor de genética altamente graduado de uma universidade na Austrália. Como cientista que é, normal que ele tenha uma personalidade marcada pela lógica. Então, ele cria um formulário e o distribui nos eventos e na internet para tabular, meticulosamente, dados para encontrar a parceira ideal.

“Questão 35: você come rins? A resposta correta é (c) de vez em quando. É um teste sobre problemas alimentares. Se você perguntar a uma pessoa diretamente quais são suas preferências alimentares, ela vai dizer que “come de tudo”. Depois, mais tarde, você descobre que ela é vegetariana. Sei que há diversos argumentos a favor do vegetarianismo. Entretanto, uma vez que eu como carne, achei seria mais conveniente se minha parceira também comesse.”

A lógica de Don tem relação com a síndrome de Asperger. Os estudos sobre esta síndrome ainda não determinaram as causas que a explicam mas já se adotou o entendimento de que estaria classificada como uma condição psicológica do espectro autista. Existem pesquisas que apontam relação com a genética e tentam estabelecer um  mapeamento cerebral de seus portadores. Mas o fato é que as características, até o momento, são mais conhecidas que as causas.

Os desafios para um “aspie” (o termo aqui é só para ajudar a explicar e não para formar um grupo distinto) são a interação social, a comunicação não-verbal, a coordenação motora. O portador da síndrome também apresenta comportamento repetitivo e práticas que se tornam rituais. E ao invés de se interessar por várias coisas ao mesmo tempo, se interessa obsessivamente por uma, o que faz dele um especialista. O ponto forte é que pessoas assim desenvolvem uma inteligência acima da média e talentos para áreas específicas.

“Culpa! A síndrome de Asperger não é culpa nenhuma. É uma variante. Potencialmente uma grande vantagem. A síndrome de Asperger está relacionada com organização, foco, pensamento inovador e desapego racional.”

Don trata a vida como se um experimento fosse. Os eventos em sua vida viram algo como “O Desastre do Sorvete de Damasco” ou “O Desastre o Pé de Porco” ou “Incidente do Esporte Fino”. Os dilemas viram projetos: “Projeto Pai”, “Projeto Ensinar Genética para Daphne” ou “Projeto Esposa”. As pessoas são identificadas pela sua idade e índice de massa corporal ou por uma designação tipo “A Bela Helena” ou “A Mulher Atrasada”. Suas atividades rotineiras são sincronizadas e ele também adota um sistema de refeições padronizadas . Tudo pela lógica e eficiência!

“Estimei que o IMC de Olivia era dezenove: magra, mas sem sinais de anorexia. Estimei o de Sharon, a Contadora, em vinte e três e o de Maria, a Enfermeira, em vinte e oito. O máximo recomendado para a saúde é vinte e cinco.”

Sendo assim, nosso adorável protagonista nos conquista pouco a pouco por nos tirar da nossa zona de conforto, nos mostrar o mundo sob outra ótica e, por que não, racionalizar nossas escolhas. No momento em que a história é narrada, ele tem dois amigos (Só? Sim, antes eram quatro), Gene e Claudia, que são casados e ambos da área de psicologia. Ele, acadêmico. Ela, clínica. Não é á toa a construção desses personagens que, estrategicamente, provocam em Don uma forma de repensar suas atitudes. Eu diria que é a “terapia da amizade”. Com erros e acertos.

O tema da interação social aperta o calo de Don quando ele identifica o “Problema Esposa”. Na sua percepção, sendo jovem, atraente, inteligente e bem sucedido, ele deveria atrair as mulheres. Mas fato é que ele evita tudo que tem a ver com a convivência social. A empatia também não é seu forte e isso tem a ver com o fato dele não demonstrar emoções (o que não quer dizer que seja insensível). E com sua mente programada para pensar de forma lógica, nada mais normal para Don que aplicar métodos científicos para o que chama de “Projeto Esposa”.

“… – Don? Quando quer marcar nosso encontro?

As coisas haviam mudado. As prioridades se alterado.

– Não vai dar. Minha agenda está lotada.

Eu iria precisar de todo o meu tempo disponível para aquele novo projeto. O Projeto Esposa…”

Mas a vida não é assim tão cartesiana… E daí que surge Rosie, segundo Don, “inadequada” como candidata. Fumante, vegetariana, desorganizada, não pontual, baixa habilidade matemática. Claro, tinha que aparecer alguém do lado do avesso. E como diria o poeta “… e mesmo com tudo diferente, veio mesmo de repente uma vontade de se ver…”. Então, Don nota que ou Rosie serviria como “grupo de controle” ou serviria para interações eventuais ou ele, como geneticista, poderia ajudá-la a identificar seu pai biológico. Para ele foi fácil escolher a terceira opção e assim ele revela facetas surpreendentes para ajudar Rosie.

Este livro é leve dependendo de como você o interpreta. É um livro que aborda o relacionamento sim e tem clichê, mas desenvolve isso sem drama. Tanto Don quanto Rosie possuem questões emocionais claras para quem está lendo mas veladas entre os dois e a forma como um começa a interagir com o outro em seus dilemas é muito natural. Mas é, principalmente, um livro que põe na mesa a condição da diferença humana e faz pensar o que rotulamos como “certo” ou “errado”, “normal” ou “anormal” nas pessoas. E daí se conclui que a percepção depende do nosso ângulo de visão. E, talvez, o que nos defina vá bem mais além do nosso código genético.

Definitivamente, o que mais me interessou foi observar o comportamento do Don, foi tentar entender sua “programação”, imaginar quantas crianças estão “programadas” assim e como, não o comportamento delas, mas o nosso, pode bloquear seu potencial. Como todos temos nossas manias, não é tão difícil imaginar. Acho que conviver com as inúmeras diferenças só nos traz uma consequência, a possibilidade de nos tornarmos pessoas melhores.

“… Comecei a segunda metade da minha vida preparando um café. Depois analisei a lógica, que era bastante simples… Incapacidade (ou capacidade reduzida)de sentir empatia não é a mesma coisa que incapacidade de amar. Amar é ter um sentimento profundo por outra pessoa, um sentimento que muitas vezes desafia a lógica…”


Se gostou e quer mais…

O autor Graeme Simsion é neo-zeolandês mas vive com sua família na Austrália. Antes de tornar-se escritor, era um especialista em Tecnologia da Informação. Clique aqui para visitar sua página oficial.

Graeme Simsion

O livro físico está esgotado nas livrarias aí do Brasil. Comprei e li o e-book. Aguardo informação da Record sobre a próxima edição e o lançamento da continuação, “O Efeito Rosie”, que foi lançado em inglês em 2014 (o Bill Gates já leu).

Falando no Bill Gates, veja aqui o blog dele “GatesNotes” e sua “Reading List”. Uma boa lista para ter referência de leitura.

GatesNotes

E esse link, te leva para a pequena entrevista que ele e a Melinda Gates fizeram com o autor Graeme Simsion.

Para conhecer um pouco mais sobre a tão falada síndrome de Asperger: eu gostei deste talk, no TED, com Alix Generous, entitulada “Como eu aprendi a comunicar minha vida interior com Asperger”, em uma tradução livre. Ela fundou a AutismSees para trazer uma solução tecnológica para apoiar jovens com autismo que receiam o contato olho-no-olho enquanto falam ou fazem apresentações. Isso os ajuda na busca de colocação no mercado de trabalho.

Aliz Generous

Como curiosidade, os “aspies” são em sua maioria meninos e é muito comum que a família não se dê conta dessa condição (o autor deixa bem claro isso quando o Don vai dar a palestra sobre a síndrome e ele não se reconhece nas características!). Na minha pesquisa, encontrei uma fonte (baseada em livros ou pesquisas) que relaciona vários famosos supostos portadores dessas características comportamentais como o próprio Bill Gates, Eisntein, Isaac Newton, Van Gogh… Claro que isso não facilita a vida daqueles que também as possui mas ao menos ajuda a desmistificar o tema e põe na mesa o quanto as famílias, escolas e ambientes sociais podem contribuir para a interação e a troca de experiências.


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: O PROJETO ROSIE

Título Original: THE ROSIE PROJECT

Autor: Graeme Simsion

Gênero: Ficção – Romance

Nr. Páginas: 320

Ano: 2013

Editora: Record

ISBN: 9788501402219

Tradução: Ana Carolina Mesquita

Para ver o link do livro na página da Editora Record, clique aqui.

7 comentários em “O projeto Rosie

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  1. Bárbara, mais um livro que traz uma temática que me interessa demais. O universo autista sempre me intrigou e ainda mais depois que tive a oportunidade de ler o livro “Autismo, uma visão espiritual “, do Herminio Miranda, e o filme ” Temple Grandin”, que super indico.
    A impressão que tive com a sua resenha é de um lindo romance com belas lições de vida, ou seja, ingredientes perfeitos para uma boa leitura.
    PS: acho um pouco sexista esse negócio de literatura para mulheres.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Ainda não li muito a respeito do gênero “chick-lit” mas pode ter um aspecto comercial. Mas o que eu quis passar foi justamente a ideia de que o romance é só um pano de fundo para mostrar uma relação que aprende a lidar com as diferenças. Cada passagem do livro te faz refletir. E acho que o livro ajudaria aos que precisam conhecer sobre o assunto. Vou buscar o livro do HM. bjsss e obrigada mais uma vez pelo feedback carinhoso.

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  2. Oi, Bárbara, eu convivo com um menino de 10 anos, uma vez por semana, que foi diagnosticado com Asperger, por isso tenho buscado informações sobre a síndrome. Gostei da sua resenha sobre esse romance, vou tentar comprar, mas espero que as livrarias renovem os seus estoques aqui no Brasil.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Patrícia, espero que a resenha seja útil no seu convívio. A Editora Record já me confirmou que é possível encontrar o livro nos seguintes links:

      http://bit.ly/ProRosieAmericanas

      http://bit.ly/ProjetoRosieSub

      http://bit.ly/ProjetoRosieAmazon

      Se não conseguir, me avise e tento contato com eles novamente. Eles também me informaram que a continuação, “O Efeito Rosie” será lançado até o final de 2015 no Brasil.

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