Memórias de uma gueixa

“Imagine que você e eu estejamos em um cômodo sossegado que dá para um jardim, conversando e bebericando nosso chá verde enquanto falamos de algo passado há muito tempo, e eu lhe diga: aquela tarde, quando encontrei Fulano de Tal, foi a melhor tarde de minha vida e também a pior…”

“Memórias de uma Gueixa” é um livro para conhecer uma cultura diferente e mudar o ponto de vista sobre algumas ideias pré-concebidas. Por exemplo, a primeira impressão que se tem do que seria uma gueixa é a de que seria um equivalente à prostituta ocidental. Fiz essa pergunta para algumas pessoas (incluindo a mim mesma) e a resposta foi praticamente a mesma nesse sentido. É um pouco difícil desconstruir esse mito se tomamos as referências que temos mas existe um contexto cultural que torna essa comparação superficial.

Antes de tudo, é preciso explicar algumas coisas sobre os bastidores dessa história. O autor Arthur Golden ouviu várias gueixas para compor seu romance e, dentre elas, Mineko Iwasaki que foi considerada uma das maiores gueixas da década de 70 no Japão. Ela revelou a ele um universo secreto e ele prometeu confidencialidade. Mas essa condição não teria sido respeitada e, após a publicação do livro, Arthur e Mineko se desentenderam e ela o processou.

Então, é preciso entender que o autor, ao criar um historiador fictício (Jakob Haarhuis) e optar por uma narração em primeira pessoa como se o livro fosse uma autobiografia, tenta dar um ar ficcional à história. Mas, ao final, já nos créditos, ele cita Mineko e revela sua identidade. Em consequência, Mineko foi acusada de quebrar um código de honra o que, para uma cultura como a japonesa, é algo extremamente grave.

O romance de Arthur Golden foi lançado em 1997 (relançado em 2015 pela Editora Arqueiro) mas Mineko lançou sua própria versão biográfica “Minha Vida como Gueixa – A Verdadeira História de Mineko Iwasaki” em 2002.

A grande controvérsia em torno das duas versões é se Golden retrata a gueixa como uma versão oriental da prostituta que conhecemos ou se “ocidentaliza” a história para ter mais apelo comercial e criado situações que, segundo Mineko, nunca existiram.

“Gueixas simplesmente não falam sobre suas experiências. Como as prostitutas – suas contrapartes de classe inferior -, as gueixas estão na inusitada condição de conhecer comportamentos íntimos de figuras públicas. Provavelmente é mérito dessas borboletas noturnas encarar o papel de depositárias dessa confiança, mas, de qualquer maneira, a gueixa que trai essa confiança fica numa posição insustentável.” – Trecho do depoimento de Jakob Haarhuis 

Partindo desse ponto, dá pra começar.

Estamos em uma aldeia remota chamada Yoroido no mar do Japão, na década de 30, entressafra entre as duas grandes guerras, vivendo os efeitos de recessão da grande depressão de 1929. Chiyo é uma menina de 9 anos que vive com seus pais e uma irmã mais velha, Satsu, em uma “casa bêbada” aonde levava uma “espécie de vida entortada”. Sua mãe adoece gravemente e o pai, seja lá por qual razão, vende as filhas como escravas para um destino que as tira definitivamente da infância.

As meninas são levadas para Gion, um distrito de Kioto e lá são separadas: Satsu vai para uma casa de prostituição e Chiyo, para uma okiya, uma casa de gueixas. Que fique claro que são casas diferentes. E por que cada uma vai para uma delas? A escolha não parece ser somente uma questão estética como se imaginaria com a nossa cabeça do lado de cá do mundo mas fato é que Satsu tinha madeira demais em sua personalidade e Chiyo, água demais, além de ser do ano do macaco. São elementos e signos do horóscopo chinês influenciando as decisões no universo oriental. O elemento estava presente na cor dos olhos de Chiyo, cinza-translúcidos, fazendo acreditar que, como a água não pode ser detida e se infiltra em fendas, assim também seria seu destino.

“Nossas vidas são como água correndo colina abaixo, mais ou menos num curso, até batermos em algo que nos force a encontrar um novo rumo.”

Na okiya, arrebatada pela tristeza de ter sido separada da família, Chiyo começa a trabalhar como criada. Assim era o costume de tratar a menina recém-chegada até que as mulheres mais velhas, devidamente identificadas na hierarquia do ambiente como Vovó, Mamãe e Titia, decidissem se ela seria educada para ser uma gueixa.

Falando em educação, começa-se a entender algumas coisas sobre as gueixas. A primeira sílaba da palavra “geisha” significa arte e a segunda, pessoa. A gueixa, então, é uma artista. Uma aprendiz, que vai viver em uma okiya, é matriculada em uma escola, com rigores à moda japonesa, para aprender canto, dança e a tocar o shamisen, um instrumento parecido com um violão. A matrícula na escola é acompanhada de um registro em cartório. Tudo formal.

A aprendiz também pode ser adotada por uma gueixa, a quem chamará de irmã mais velha, que a ensinará todas as superstições, a consulta ao almanaque (uma espécie de horóscopo), o ritual da maquiagem, do penteado, a importância do quimono, a postura, o comportamento, as mesuras, a cerimônia do chá. Vai levá-la aos eventos, nas casas de chá e apresentá-la à pessoas influentes para que a futura gueixa seja aceita e convidada a trabalhar.

“Porque, quando uma gueixa acorda de manhã, tem exatamente a mesma aparência de qualquer outra mulher… Só quando se senta diante do espelho para colocar a maquiagem com todo o cuidado ela se torna uma gueixa. E não quero dizer que nesse momento ela comece a parecer uma; é quando também começa a pensar como gueixa.”

Chiyo resiste de início mas depois percebe que tornar-se gueixa é um caminho sem volta para alcançar seus desejos mais íntimos. Aprende o ofício entre o que pode se chamar de um duelo entre o bem e o mal, simbolizados pelas gueixas Mameha e Hatsumomo. E assim Chiyo se torna Sayuri. Sua história passa pela Segunda Grande Guerra e pela ocupação norte-americana no Japão. Momentos de sufocamento de um contexto cultural que pode ter contribuído para a curva de mudança de maior influência ocidental. Mesmo assim a personagem preserva o olhar doce e curioso de criança ao narrar os acontecimentos.

“Quaisquer que sejam as nossas lutas e triunfos, qualquer que seja o modo como os experimentamos, em breve todos fundem-se numa coisa só, como a tinta aguada de uma aquarela de papel.”

O livro em si é uma bela história de uma senhora que viaja à sua infância humilde e inocente, percorre a adolescência dura e conturbada para finalmente descobrir sua essência na mulher que ela se tornou, pronta para fazer escolhas entre amizade ou sobrevivência, amor ou gratidão. Mas o grande mérito é trazer para o leitor uma visão de um mundo diferente. Ainda que com licenças poéticas.

Não poderia tentar definir o que é ser uma gueixa. Faltaria bagagem cultural para fazê-lo. Prefiro tentar me eximir dos rótulos e dos julgamentos para fazer observações.

Fato é que, no Japão, no Século XVIII, houve uma diferenciação entre as gueixas e as prostitutas em função da fonte de sua receita. O que significava que uma gueixa podia ter seus amantes ou seu danna (espécie de “patrocinador”) mas, se seu sustento principal vinha de suas apresentações artísticas, ela não era uma prostituta.

Além da artista e da mestre de cerimônia, ser gueixa é uma fortíssima tradição, uma decisão única para toda a vida, parte dos elementos de uma sociedade com valores como hierarquia, harmonia, impermanência, coletividade, disciplina, respeito aos mais velhos. Pelo lado artístico, é uma obra de arte viva. Pelo social, é alguém que começa a vida como uma subalterna para depois de muito estudar e se relacionar, alçar uma posição de grande influência nas altas rodas da sociedade mas de forma discreta, quase que pelos bastidores.

Talvez seja até possível entender a figura da gueixa no contexto cultural japonês. Difícil mesmo é entender a subserviência feminina… Mas acredito que faz-se necessários os anos para uma transformação da sociedade onde as tradições sejam respeitadas como parte da nossa história mas que também sejam respeitados direitos onde meninas não sejam vendidas ou tampouco a elas seja imposto um destino. Para que escolhas sejam livres.

“Mameha tivera razão ao me dizer um dia: não nos tornamos gueixas porque queremos uma vida feliz. Nós nos tornamos gueixas porque não temos escolhas.”

No início do Século XX, existiam cerca de 80 mil gueixas registradas no Japão. Atualmente esse número é muito reduzido…


Se gostou e quer mais…

Arthur Golden é americano, formado em História da Arte com especialização em arte japonesa em Harvard. Também fez mestrado em história japonesa na Universidade de Columbia. Clique aqui para conhecer a página do autor na Wikipedia.

Arthur Golden

O filme “Memórias de uma Gueixa” foi produzido pela empresa de Steven Spielberg e dirigido por Rob Marshall em 2005. Ganhou o Oscar de Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Veja o trailler neste link (acesso somente com login no youtube).

Memória de uma Gueixa filme

O livro da gueixa que inspirou Golden, “Minha Vida como Gueixa – A Verdadeira História de Mineko Iwasaki”, com certeza será uma das minha próximas leituras. Clique aqui pra ver a página dele na Editora JBC.

Geisha_of_Gioncapa_minha_vida_como_gueixa_a_verdadeira_historia_de_mineko_iwasaki_g

Quem já ouviu falar em “Madame Buterfly” e “Miss Saigon”? São duas montagens bem características desse universo com doses cavalares de drama. A primeira é uma ópera de 1904 que conta a história de um tenente da marinha americana que se apaixona por uma gueixa . E a segunda é um musical inspirado na primeira.

Hohenstein_Madama_Butterfly

MissSaigonPoster

Não posso deixar de mencionar uma página muito interessante em que pude aprender um pouco mais sobre a Cultura Japonesa e, especificamente, sobre as gueixas através de um artigo escrito por Cristina A. Sato. Você pode visitá-lo clicando aqui.


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA

Título Original: MEMOIRS OF A GEISHA

Autor: Arthur Golden (Norte-Americano)

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 448

Ano: 2015 (relançamento de 1997)

Editora: Arqueiro

ISBN: 9788580414257

Tradução: Lya Luft

Para ver o link do livro na página da Editora Arqueiro, clique aqui.

6 comentários em “Memórias de uma gueixa

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  1. Muito boa sus resenha, Barbara. Parabéns. Não havia lido o livro, somente o filme o qual já havia gostado muito. Agora já adicionei também o livro em minha lista de leituras futuras! Interessante saber da controvérsia entre o autor e sua musa inspiradora, cujo centro é a cultura japonesa. O curioso foi que essa mesma cultura fez com que a maioria das atrizes que interpretam as gueixas no filme sejam chinesas, muito criticado na época do filme, mas que segundo o diretor foi porque nenhuma atriz japonesa se apresentou para o “casting”. Aproveito e deixo aqui um link para o IMDB com fatos sobre o filme e o trailer. Valeu! 😉

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muito obrigada, Marcelo!! Eu achei essa pesquisa da confusão do A. Golden com a Mineko em um artigo do NY Times justamente porque eu não entendia quem era o tal do Jacob… Foi muito interessante. Quanto ao filme, eu vi ontem depois que postei a resenha porque não queria me influenciar pelo roteiro. Eu gostei muito mas, como sempre, tem divergência com o livro. Eu também li sobre essa questão das atrizes chinesas… É muito complicado retratar uma cultura com elementos de fora dele, aconteceu o mesmo com a crítica do “Los 33”, não é? Quanto ao IMDB, adorei a dica porque é uma fonte especializada e eu sempre me preocupo com isso para não passar informação sem checar ou desatualizada. Valeu!

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