Queda de gigantes

“No mesmo dia em que Jorge V foi coroado rei na Abadia de Westminster, em Londres, Billy Williams desceu até as profundezas da mina de Aberowen, na região de Gales do Sul…”

O Século XX ainda está bem ali na esquina. Minhas avós ainda estão aqui para contar sobre seu começo. Uma geração antes delas o percorreu quase que inteiro. E você que está lendo deve ter nascido nele.
Quanta coisa aconteceu. Como o mundo mudou (ou não) neste sopro de tempo. E como é interessante olhar pra trás e ter esse panorama de tantos acontecimentos aparentemente isolados mas que, na verdade, estão interligados.

A trilogia “O Século” do galês Ken Follet é composta por 3 livros, com cerca de 900 páginas cada um, para contar os principais fatos históricos deste período que marcaram a história do planeta sob uma determinada perspectiva. Digo determinada porque faltou a gente nessa história. Mas está valendo. São 3 gerações de 5 famílias principais e inúmeros personagens periféricos, fictícios ou reais, de distintas classes sociais, inseridos nos contextos político e econômico de cada um dos seus países (Gales, Inglaterra, Alemanha, Rússia e EUA). Mas não isoladamente. Todas as histórias se integram para formar um todo. E se afastamos o olhar, percebemos que se integram para contar uma história só.

Nesta série, Follet deixa para trás a Idade Média que o consagrou em “Os Pilares da Terra” para transitar pelos grandes conflitos mundiais do Século XX. A Primeira Guerra Mundial norteia “Queda de Gigantes”. A Segunda Grande Guerra é a temática principal para “Inverno do Mundo”. E “Etenidade por um Fio” nos relembra a Guerra Fria. Estes são os motes principais mas, em paralelo, outras questões são como satélites circundando a Terra e influenciando nossa órbita de forma não menos importante.

“Queda de Gigantes” apresenta os núcleos por país e a primeira geração de cada família, usando a técnica de intercalar cada história através dos capítulos. Dessa forma, o leitor transita entre os diferentes mundos e se envolve de maneira diferente com cada família e personagens de acordo com suas preferências. Ou seja, a leitura flui de forma que torcemos para voltar ao fio da meada do capítulo que mais prendeu a atenção. E eu vou optar por distinguir esses núcleos para ajudar no entendimento. Então, vamos lá.


Núcleo Galês – Família Williams

A viagem no tempo começa em 22 de junho 1911 na região de Gales do Sul, Reino Unido, quando Billy Williams, aos 13 anos, acorda para seu primeiro dia de trabalho na mina de carvão de Aberowen. Já demonstraria aí toda sua coragem. Essa é a primeira circunstância exposta pelo autor, um aspecto característico do conflito entre os donos do capital e os detentores da força de trabalho, lembrando que o carvão foi uma fonte de energia primordial para o desenvolvimento industrial na Inglaterra, vizinha de Gales, no Século XIX. Enquanto isso, de fato, Jorge V coroou-se como Rei do Reino Unido, e assim Follet começa suas “indiretas”, contrastando a pompa e circunstância dessa cerimônia com a mesa simples e crua de uma família plebeia. Para dividir o protagonismo com Billy, temos sua irmã Ethel Williams, 18 anos, um certo ar de quem sabe o que quer, que trabalha como criada em Ty Gwyn, propriedade de campo do Conde Fitzherbert, um nobre inglês. De família muito religiosa e pai ativista pelos direitos dos trabalhadores através do mais influente sindicato de mineração da Grã-Betanha, os Williams serão o toque sutil da contraposição entre a base e o topo da pirâmide social.


Núcleo Inglês – Família Fitzherbert

O Conde Earl Fitzherbert é membro conservador da Câmara dos Lordes do Parlamento Britânico e Capitão do Exército, digamos assim, já reformado aos 28 anos, o que automaticamente o promoveu a Coronel do Exército de Reserva de Gales do Sul. E também é dono da mina de carvão de Aberowen cujos direitos de exploração cedeu para a Celtic Minerals. Casado, como manda a conveniência real, com uma princesa russa, Bea, que achava que bater na criadagem era o que evitava a insolência. Obviamente o Conde também tinha receio que os trabalhadores de “cara preta” fizessem com ele o que os revolucionários franceses tinham feito com a Nobreza francesa há pouco mais de um século. Logo, não entendia sua irmã Lady Maud Fitzherbert, uma liberal e sufragista que, embora solteira ao 23 anos (não muito jovem para os valores da época), era uma adorável sedutora, no sentido mais encantador da palavra. Sabiamente, tinha o dom de usar as relações de sua família para entender a realidade e formar opiniões.


Núcleo Alemão & Austríaco – Família Von Ulrich

Estrategicamente, Follet coloca a figura central do núcleo alemão em Londres para envolvê-lo com o núcleo inglês… Digo isso porque, nos antecedentes da Primeira Guerra Mundial estão caracterizados 2 blocos de países rivais. Pelo lado dos Aliados ou Tríplice Entente, estavam Inglaterra, Rússia e França. Já pelo lado da Tríplice Aliança, Alemanha, o Império Austro-Húngaro e a Itália. Walter Von Ulrich é diplomata, adido militar junto à Embaixada Alemã em Londres com uma rara característica entre os homens da época: tinha o “estranho” hábito de perguntar a opinião das mulheres.

O pai de Walter, Otto, participa da história real sendo um personagem criado como oficial na guerra franco-prussiana e amigo do Kaiser Guilherme que verdadeiramente rompeu com Otto Von Bismark, o chanceler de ferro que tentava manter as relações de paz pela Alemanha.

Robert Von Ulrich, é primo em terceiro grau de Walter mas do lado austríaco da família. Leva para a história uma polêmica muito atual e discutida hoje em dia.


Núcleo Norte-americano – Família Dewar & Família Vyalov

Gus Dewar é um jovem americano, filho do senador conselheiro particular do presidente norte-americano Woodrow Wilson, democrata que realmente governou os EUA de 1913 à 1921. A importância desse núcleo vem da relação com Wilson que foi o nome por trás da criação da Liga das Nações, organismo que reuniu as nações para a negociação de paz no pós-guerra e que, em um futuro ainda mais distante, deu origem à Organização das Nações Unidas (ONU). Do alto de sua juventude, Gus tem uma visão liberal.

Porém, nem tudo são flores na América e o poder daqueles que prosperam com negócios lícitos para encobrir os ilícitos, aparece pela Família Vyalov e sua personagem que perpetuará este grupo será Olga, a jovem filha de Josef Vyalov, o “gângster-mór” que, inclusive, trará o assunto da lei seca que vigorou nos EUA nos anos 20 e o lucrativo negócio de contrabando de bebidas alcoólicas.


Núcleo Russo – Família Peshkov

Os irmãos Grigori e Lev Peshkov são jovens trabalhadores da Metalúrgica Putilov que empregava 30 mil homens, mulheres e crianças em São Petersburgo, na Rússia. Nicolau II era de fato o czar russo que centralizava em suas mãos o então governo monárquico absolutista que incitava a revolta de uma sociedade díspare. De uma forma muito geral, esse era o contexto prévio à Revolução Russa de 1917 que derrubou a autocracia russa e levou o Partido Bolchevique ao poder sob a liderança de Vladimir Lênin. Dentro deste cenário, um pouco antes destes fatos, a vida dos irmãos teria sido marcada pelos arroubos da nobreza representada pela família da Princesa Bea, esposa do conde inglês. Mais um entrelace feito pelo autor, além do que surgirá entre este núcleo e o americano com a Família Vyalov, por conta do sonho do eldorado nutrido pelos irmão russos.

Grigori é o mais velho dos dois irmãos que assume a “criação”do mais novo. Na encruzilhada da adversidade, ele escolhe o caminho da renúncia e o mais novo, o do risco. E para compôr a história deles, o autor também cria Katerina.


Bom, o pano de fundo está dado e à medida que os anos vão se passando (este livro vai até 1924), o rumo dos personagens se delineia. Se ao começo eles são jovens entre 20 e 30 anos, dá pra entender que essa geração vai entrar no próximo livro no auge da idade adulta, com suas profissões e famílias, arcando com as consequências dos acontecimentos e, principalmente da Primeira Guerra que ocorreu no período entre os anos de 1914 e 1918.

Não é fácil explicar as causas da Grande Guerra mas fato é que havia na Europa uma tensa conjuntura política em função da disputa pela hegemonia política entre os “gigantes”, ou seja, as grandes potências, principalmente, a Inglaterra que despontou no Século XIX com a Revolução Industrial mas que já dava mostras de esgotamento de um modelo e da Alemanha, que vinha em paralelo na corrida pelo desenvolvimento econômico. Havia uma proliferação exaltada de um sentimento de nacionalismo e superioridade em vários grupos dominantes, em vários países. No fim do Século XIX, houve uma tentativa de apaziguar os ânimos pela diplomacia alemã na figura do chanceler Otto von Bismark mas a força do imperialiasmo dava as cartas. Os russos buscavam a unificação dos povos eslavos. Os franceses ainda não se conformavam com a perda de território resultado da sua derrota na guerra franco-prussiana.

O sistema de Bismark não deu certo e, após a renúncia do chanceller, a Alemanha também deu um passo à frente na política de expansão territorial rompendo o frágil equilíbrio que ainda poderia exisitir na Europa. E também, ainda antes da guerra, a Europa vivia o que se chamava de paz armada, tamanho era o fomento da indústria bélica. Logo a guerra eminente envolveria um largo número de nações. Identificados os gigantes, pode-se interpretar que, da guerra, veio a queda.

E se Ken Follet incluísse uma família brasileira nesta série? Estaríamos no período chamado de Primeira República que didaticamente vigorou entre 1889 e 1930, época marcada por uma economia agrícola voltada para a exportação. Nossos trabalhadores ainda se formavam como força em um mercado cujo fim da escravidão era recente. Poderia o autor ter trazido para cá uma família de imigrantes, como muitos vieram impulsionando o mercado de trabalho no campo, nas lavouras de café, ou reforçavam a classe operária nascente. Inicialmente, o Brasil se manteve neutro no conflito mas foi afetado economicamente pelo impacto da queda em suas exportações. Após vários incidentes com navios brasileiros e represálias, declaramos guerra à Aliança Germânica e nos juntamos aos Aliados.

Um livro de Follet pode parecer longo ou denso mas a veia jornalística do autor, que também tem formação em filosofia, confere ao texto uma linguagem direta e objetiva, o que torna a vida do leitor mais fácil. A grande vantagem da opção por leitura como essas, de ficção contextualizados na história real, é que verdadeiramente elas são uma maneira de aprender ou relembrar a história. Somos expectadores do nosso próprio tempo e podemos aprofundar nossas opiniões com relação ao reflexo do passado no presente.

“Quando comecei a trilogia, não conseguia ver um tema. Agora que terminei consigo perceber com clareza que a definição Século XX é liberdade. A maioria dos dramas ao longo desse período é sobre pessoas lutando para se libertar da opressão, da desigualdade e da exclusão. Mineradores, mulheres em busca de igualdade, afro-americanos, os russos, que talvez ainda não tenham conquistado sua liberdade, mas continuam lutando por ela.” – Ken Follett

Sim, eu concordo com Follet quando ele nos diz que a temática do Século XX é a liberdade. E também acho que ainda não viramos totalmente essa página.


Se você gostou e quer mais…

Ken Follet tem mais de 30 livros na bagagem e 150 milhões de exemplares vendidos, traduzidos para 33 idiomas e distribuídos em mais de 80 países. Se inspira em Ian Fleming, o criador de James Bond, mas também leu toda a obra de Jorge Amado. Na sua página oficial, traduzida para o português, você pode conhecer toda a sua obra. A Trilogia do Século tem a árvore dos personagens, linha do tempo e trailers oficiais. Clique aqui para acessar.

ken_folletFoto Tom Stoddart – Divulgação Jornal O Globo

Nas próximas resenhas, segue a saga com “Inverno do Mundo” e “Eternidade por um Fio”. O bom da trilogia é que você não se despede dos personagens no final do primeiro livro…

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Eternidade por um Fio - Capa

Pra quem chegou até o fim, um deleite… Em 1950, a ONU pediu aos países membros que doassem uma obra de arte para representá-los na sede, em Nova York. O Brasil designou Candido Portinari para a tarefa e ele escolheu o tema “guerra e paz” para desenvolver. Após 4 anos de estudo e 9 meses de trabalho, Portinari finalizou os painéis Guerra e Paz que foram instalados no hall de entrada da Assembleia Geral em 1957. Em 2010, esses painéis começaram a circular em um projeto de itinerância nacional e internacional. Em setembro/2015, eles regressaram ao seu lugar de origem, na ONU. Não deixe de conhecer esse lindo projeto neste link que permite explorar as obras em todos os seus detalhes. História e Cultura caminham de mãos dadas e sempre valem a pena…

guerra e paz


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: QUEDA DE GIGANTES

Título Original: FALL OF GIANTS

Autor: Ken Follett

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 912

Ano: 2010

Editora: Arqueiro

ISBN: 9788599296851

Tradução: Fernanda Abreu / Fabiano Morais

Para ver o link do livro na página da Editora Arqueiro, clique aqui.

7 comentários em “Queda de gigantes

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  1. Parabens, Barbara! Muito legal sua resenha! Nunca tinha pensado na possibilidade de ter a “família Silva” como parte da trama!!!! Bem sacado! Fiquei imaginando! 😉
    O Follett é fenomenal, li todos os seus livros (inclusive alguns da década de 70 que ele escreveu com pseudônimos). Ele tem altos e baixos, mas muito mais altos que baixos. Comparto sua visão da vantagem de se ler novelas históricas. É uma forma lúdica de aprender sem ter que se debruçar em livros densos e analíticos (pelo menos para nós, simples mortais! 😉
    Valeu! Espero as outras duas da trilogia!!
    Saludos

    Curtido por 1 pessoa

    1. Que bom que gostou! Sim, seria a Família Silva rs… Se ele não nos colocou por lá é porque não tivemos tanta participação neste enredo mas pensando bem… melhor assim. Espero conseguir ter muitas capas do KF no blog! 😉

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  2. Parabéns Bárbara pela resenha. Excelente!
    Também acho que caberia uma familia Silva, principalmente para falar da interferência Americana (JFK, principalmente) na political Brasilia.
    Vi Guerra e Paz de Portinari enquanto os paineis viajavam pelo Mundo, em São Paulo e em Belo Horizonte. Quando estive na ONU, em maio do ano passado eles ainda nâo ha aim retornado. Na proxima semena pretendo vê-los lá.
    No aguardo das próximas, deixo meu abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muito obrigada pelo seu comentário, Izabela! Bom saber que você também pensou na possibilidade de nos “acoplarmos” nesta história… Adorei saber que você conhece os painéis. Eu não os conheço mas imagino que sejam belíssimos. Se você puder, me manda uma foto quando tiver essa nova oportunidade?? bj! 😉

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