Inverno do mundo

“Carla sabia que os pais estavam prestes a brigar. Assim que entrou na cozinha, pôde sentir a hostilidade no ar…”

A citação de que uma imagem vale mais que mil palavras parece ser de origem desconhecida mas se mantém atual. Peço licença para acrescentar que uma analogia também vale muitas palavras. Ou muitas explicações.

Muitos mestres na religião, na educação, na arte, no direito se utilizaram da analogia. Ken Follet também a usou quando escolheu a palavra inverno para caracterizar uma fase da história. Qual a imagem que formamos na nossa mente? Frio, escuridão, hibernação, tristeza, uma árvore seca e que não dá frutos. Não é à toa que o mundo inteiro chamou de “Primavera Árabe” a um acontecimento mais recente, iniciado no inverno de 2010, que se caracterizou por movimentos populares contra a ditadura nos países árabes. Justamente para dar a ideia de florescimento. Mas essa já é outra história…

“Inverno do Mundo” é o segundo livro da Trilogia “O Século” e continuação de “Queda de Gigantes”. Embora “Queda…” termine em 1924, “Inverno…” só começa em 1933. Temos um pequeno lapso de tempo mas que não passa despercebido porque, em outubro de 1929, ocorre nos Estados Unidos a Quinta-feira Negra (olha aí mais um jogo de palavras). Até então, se disseminava a expressão bastante conhecida hoje como “american way of life” que representava a qualidade de vida dos americanos.

Lembra na primeira resenha quando eu mencionei que depois da guerra, ocorre a então profecia do título, a queda dos gigantes? Pois bem, a Europa estava arrasada no pós-guerra e os Estados Unidos pegaram carona pra vender muitas e muitas mercadorias para os países europeus. Produziram tanto, alavancados pelas ondas das novas técnicas e formas de produzir que, quando os europeus se ergueram, a bolha estourou. A Bolsa de Ações de Nova York quebra. E daí veio a Grande Depressão. Não tinha pra quem vender tudo que os americanos produziam. A fonte secou. E essa crise durou a década toda, impactou não somente os Estados Unidos com altas perdas por parte de investidores, falência de bancos, de empresas, altas taxas de desemprego, deflação (tão danosa quanto a inflação) assim como afetou vários outros países.

O ano que este livro começa é o auge da crise nos Estados Unidos. Ele se divide em três partes. A primeira se chama “A Outra face” que vai de 1933, ou seja, pós Crash da Bolsa de NY marcando o ano exato em que Adolf Hitler é nomeado chanceler na Alemanha e vai até 1939 quando termina a Guerra Civil Espanhola e começa a Segunda Grande Guerra Mundial. A segunda parte, “Temporada de Sangue”, o nome já diz: é o período da Segunda Guerra e termina com o suicídio de Hitler. E a terceira parte, “A Paz Fria” é o começo da Guerra Fria em 1945 fechando o livro em 1949.

Aqui cabe um pequeno parênteses porque eu vou começar a citar os novos personagens que vão dividir o protagonismo de cada núcleo com a primeira geração apresentada na primeira resenha. Sim, eles são a segunda geração das famílias mas eu não vou dizer quem casou com quem ou quem é filho de quem. Obviamente que vocês vão fazer algumas deduções pelos sobrenomes e pelos países mas nada que revele demais. Fecha parênteses.

Em 1933, na Alemanha, a família de Carla Von Ulrich presenciava Adolf Hitler se tornar chanceler na Câmara do Heichtag, o Parlamento Alemão pelo Partido Nazista. Não com bons olhos, à exceção de seu irmão Erik. Ambos ainda eram muito jovens mas já se percebe que cada um seguiria uma trilha diferente. Ao convívio deles se soma também Frieda e Werner Franck, tão na flor da idade quanto os Von Ulrich. Obviamente, por ser alemão, esse é o núcleo que mais fortemente sofrerá os efeitos diretos do Regime Nazista, da sua origem ao seu fortalecimento no poder. Independente de ser ou não judeu, também se condenavam os comunistas ou mesmo os sociais-democratas ou qualquer coisa contrária ao projeto de poder de Hitler assim como, por exemplo, simplesmente ter uma orientação sexual diferente ou ser portador de alguma enfermidade ou necessidade especial. Muita dureza. E um pouco mais adiante, Carla acolhe a orfã Rebecca Rosen cujos pais foram vítimas de um bombardeio na cidade.

Lloyd Williams é um personagem fictício do lado inglês com o mesmo nome do chanceler do Tesouro, David Lloyd George, encarregado das finanças do Reino Unido antes dele nascer e mencionado em uma conversa despretensiosa no primeiro livro. Faço essa relação porque o autor pode ter feito essa referência dado que o personagem vai estar no berço da esquerda social-democrata de seu país. O político em questão foi partidário do que se chamava “welfare state” que é uma maneira de se pensar o Estado como centralizador e provedor de necessidades essenciais ao cidadão, mais para o lado do intervencionismo do economista britânico John Maynard Keynes do que para o lado liberal do “laissez faire” do economista austríaco Frederich Von Hayek, contemporâneos dessa geração. É mais ou menos assim: o primeiro puxa a sardinha para que o Estado seja o provedor ou regulamentador daquilo que o segundo acredita que haverá sempre uma “mão invisível” tratando de equilibrar o mercado. Alguma coincindência com discussões que ainda vemos hoje? Continuemos.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, Daisy Peshkov, tentava emplacar um casamento que lhe conferisse o status que somente sua fortuna não lhe dava. Era sua única preocupação: ser aceita. No mais, tocava sua vida alheia aos acontecimentos e se entendiava com a política. Mas tinha uma certo atrevimento que poderia lhe render bons frutos. Greg Peshkov estudava na mesma universidade que os irmãos Woody e Chuck Dewar. Tudo ironia do destino porque a mãe de Daisy era para ter se casado com o pai dos Dewar e Greg então nem deveria estar ali se as convenções fossem respeitadas. Mas teoria é uma coisa e prática, outra. E, além do mais, toda essa nova geração ainda estava vivendo a euforia de uma boa vida o que não lhes dava metade da experiência de seus pais.

Vladimir Peshkov, mais conhecido como Volodya, trabalhava no Serviço de Inteligência do Exército Vermelho. É um espião a serviço do regime comunista que vigorava na então União Soviética e que vai fazer, principalmente, conexão com o núcleo alemão não partidário do nazismo, além de exercer um papel interessante como um autêntico RI (relações internacionais) daquele tempo.

Sem dúvida, Lloyd é um dos personagens mais maduros da trilogia. Enquanto os outros aprendem da vivência, Lloyd já nasce “pronto”. O berço contribui mas, desde muito jovem, ele vai trazer a discussão contra o Fascismo duelando na ideologia com Boy Fitzherbert e também no campo sentimental por algumas outras razões. E, sendo assim, vai para o campo de batalha na Guerra Civil Espanhola pela causa que acredita. Batalha essa perdida para as forças do Regime Fascista na Espanha.

Como se nota, a primeira geração vai cedendo lugar à segunda geração que ainda vai ter grande importância na trama e isso é bom porque a continuidade não dá vazão àquele sentimento de perda quando um livro termina e você se envolve com os personagens. Mas essa relação pode até mudar. Confesso que tinha uma predileção pelo núcleo inglês mas o drama do Nazismo e da Segunda Guerra me deixou especialmente comovida pelo núcleo alemão.

A Segunda Guerra Mundial foi travada entre os Aliados (União Soviética, EUA e Reino Unido) e o Eixo (Alemanha, Japão e Itália). Como teve um contexto mais global, obviamente outros países se juntaram a cada grupo e o Brasil esteve com os Aliados. Mais uma vez em função de bombardeio de navios brasileiros em represália à nossa adesão a um acordo firmado que previa o alinhamento americano na guerra em função de ataques. E também por questões econômicas com os EUA. Nossa participação ainda foi considerada tímida mas mais efetiva do que na Primeira Guerra.

Vivíamos no Brasil a Era Vargas também conhecida como Estado Novo, um regime político centralizador e anti-comunista, resultado de um golpe. Na área de desenvolvimento econômico a produção de café começou a se desarticular para dar lugar à política de substituição de importações utilizando recursos externos para financiar nossa industrialização.

Enquanto a Primeira Guerra foi travada em trincheiras de campos de batalhas matando cerca de 19 milhões de pessoas, a Segunda Guerra exterminou 60 milhões, sendo a maioria de civis. Foi uma guerra de maior alcance em função das tecnologias desenvolvidas como o bombardeio a Pearl Harbor no Havaí (EUA) ou o uso da bomba nuclear em Hiroshima e Nagasaki no Japão para citar extremos. Mas as pessoas também morreram de fome, doenças, crimes de guerra, armas biológicas ou químicas e do maior genocídio praticado na história da humanidade que foi o Holocausto.

Pode-se dizer que foi o começo de uma guerra ideólogica que se acentua na guerra fria mas as forças identificadas já eram bem claras como o fascismo italiano, o nazismo alemão, o comunismo soviético e o liberalismo de países como EUA, França e Inglaterra.

O livro de Ken Follett nos mostra que, até agora, este foi o inverno mais tenebroso do planeta. Por mais doloroso que seja, precisamos nos dar conta dele.


Se gostou e quer mais…

Além da árvore de personagens disponibilizada na página oficial do Ken Follet, outro material bem interessante é a linha do tempo do período retratado no livro, feita especialmente para nossa edição brasileira pela Editora Arqueiro.

Inverno do Mundo - Linha do Tempo2

Como já falei do autor Ken Follet na resenha de “Queda de Gigantes”, vou aproveitar agora para lembrar de outro autor que gosto muito que é o historiador e professor Geoffrey Blainey. Os livros dele são do gênero de não ficção mas o motivo pelo qual indico é justamente porque, embora não tenha uma trama, Blainey escreve como um professor que fala aos seus alunos. O tom é didático e muito interessante. Com relação à trilogia, indico “Uma Breve História do Século XX” e “Uma Breve História das Guerras”.

breve_historiaFotor_Collage

Na sequência, a próxima resenha será do livro “Eternidade por um Fio”, a última da trilogia. É a parte final da visão do autor para o Século XX e se prolonga até o ano de 2008.

Eternidade por um Fio - Capa

A temática sobre as guerras não é das mais fáceis de se ler e estudar mas se recorremos aos livros de ficção e aos filmes fica, pelo menos, mais didático porque a verdade é que não tem como fugir dessa parte da história. Aproveito para citar alguns dos filmes que assisti dentre tantos outros sobre o assunto.

“A Lista de Schindler” – Steven Spielberg – EUA/1993

“A Vida é Bela” – Roberto Benigni – Itália/1997

“O Resgate do Soldado Ryan” – Steven Spielberg – EUA/1998

“O Pianista” – Roman Polanski – França, Alemanha Polônia e Reino Unido/2002

“O Menino do Pijama Listrado” – Mark Herman – Estados Unidos e Reino Unido/2008

“Operação Valquíria” – Bryan Singer – Estados Unidos e Alemanha/2008

filmes_Fotor_Collage


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: INVERNO DO MUNDO

Título Original: WINTER OF THE WORLD

Autor: Ken Follett

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 880

Ano: 2012

Editora: Arqueiro

ISBN: 9788580410891

Tradução: Fernanda Abreu

Para ver o link do livro na página da Editora Arqueiro, clique aqui.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: