Eternidade por um fio

“Rebecca Hoffmann foi convocada pela polícia secreta em uma segunda-feira chuvosa de 1961…”

Você lembra do WAR, o tradicional jogo de tabuleiro lançado no Brasil em 1972, em plena Guerra Fria? Imagine que esteja jogando com alguém.
Você tira uma hipotética carta para conquistar o sudeste asiático (Japão), a Europa (Alemanha) e a América Latina. Seu adversário tira outra carta para dominar esses mesmos países mas principalmente o Leste Europeu, a Alemanha e Cuba. Só que, além dos exércitos, dos ataques aéreos, da espionagem, você tem um arma adicional: a bomba atômica. Ela pode destruir seu oponente mas também pode destruir o planeta tal qual conhecemos hoje. Qual será sua estratégia?

“Eternidade Por Um Fio” é o terceiro e último livro da série de Ken Follett. O anterior, “Inverno do Mundo” termina em 1949, depois do fim da Segunda Guerra Mundial quando os EUA e a URSS começam a travar a que poderia ser a mais devastadora das guerras. Até então, essas duas superpotências estiveram do mesmo lado mas fato é que suas ideologias eram totalmente incompatíveis.

As bombas atômicas lançadas pelos EUA destruíram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki e detonaram a frágil aliança. Começava uma disputa pela hegemonia mundial e que poderia ser decidida não com poderio bélico mas com a bomba nuclear. Os americanos já tinham desenvolvido e testado a sua e os russos, ameaçados por esta arma de destruição em massa, também a desenvolve iniciando uma corrida armamentista. Definitivamente, este não era um simples jogo mas um conflito de estratégias absolutamente perigoso e real.

Entre tantos fatos que resultaram na panela de pressão em que o mundo estava, o território da Alemanha foi dividido em dois dando origem à República Federal da Alemanha, alinhada com os EUA e de economia capitalista (parte ocidental) e à República Democrática Alemã, ocupada pelo Exército Vermelho (russo) e de sistema comunista. Essa divisão resultou, em 1961, na construção do Muro de Berlim, para impedir que os alemães de Berlim Oriental fugissem para o lado ocidental.

A despedida da trilogia “O Século” tem seu começo em 1961. Quase 20 anos depois da Segunda Grande Guerra, o mundo ainda estava em fase de recuperação. E desse ponto, Follett retoma o fio da meada. Divide a história em 10 partes para tentar cobrir vários eventos e extrapola até 2008, quando Barack Obama assume a Casa Branca como o primeiro presidente negro dos EUA.

Parte Um – Muro – 1961

Parte Dois – Grampo – 1961 a 1962

Parte Três – Ilha – 1963

Parte Quatro – Arma – 1963

Parte Cinco – Canção – 1963 a 1967

Parte Seis – Flor – 1968

Parte Sete – Fita – 1972 a 1974

Parte Oito – Quintal – 1976 a 1983

Parte Nove – Bomba – 1984 a 1987

Parte Dez – Muro – 1988 a 1989

Epílogo – 4 de novembro de 2008

Cada núcleo apresenta agora a terceira geração das famílias e se você é do tipo que sofre de apego aos personagens, preciso avisar que, ainda que os netos sejam carismáticos o suficiente, começamos a nos despedir da primeira geração que cumpre seu papel na história.

Rebecca Hoffmann é casada com Hans Hoffmann e eles moram na Alemanha Oriental. É professora e trabalha com Bernd Held. Sua família tem todos os antecedentes para ser perseguida pela Stasi, a polícia secreta alemã. Pai capitalista com fábrica na Alemanha Ocidental, mãe social-democrata, avó inglesa, irmão influenciado pela música americana de protesto. Até seu exemplar de “A Revolução dos Bichos” de George Orwell poderia incriminá-la… Rebecca e seus irmãos, Walli e Lili, vão representar a luta contra o que o Muro de Berlim simbolizava.

Walli herda o amor e o dom artístico de sua avó. Influenciado por nomes da música como Chuck Berry e Elvis Presley, a história dele vai lembrar de um movimento chamado “Invasão Britânica” que foi a onda musical que começou no Reino Unido e invadiu o mundo com o surgimento de bandas como Beatles, Rolling Stones, The Who e Led Zepelin que fizeram parte da invasão original nos anos 60 mas que gerou novas ondas nos anos seguintes com Pink Floyd, Deep Purple, Queen, Tears for Fears, The Police. A história da banda de Walli, Dave, Lenny, Lew, Buzz e Geoffrey me lembra particularmente a do Rolling Stones.

Enquanto isso, do outro lado do oceano, na América, George Jakes está prestes a se formar pela Escola de Direito de Harvard. Um negro. Criado pela mãe solteira. Um bom combate era o destino que o esperava. Não fácil mas absolutamente justo. Aos 25 anos, participaria da Viagem da Liberdade ao sul dos EUA, região conhecida pela forte segregação racial. Tinha Gandhi como inspiração para resistência pacífica contra o preconceito radical e violento disseminado pelo movimento Ku Klux Klan. Sua companheira de viagem seria a jovem Maria Summers. Ambos, somado a personagem Verena Marquand, entrelaçarão suas histórias com Martin Luther King, John e Bobby Keneddy.

Na União Soviética, Tanya Dvorkin, jornalista, escrevia e distribuía com seu amigo Vasili um jornal clandestino com o sugestivo nome de Dissidência. Embora fossem experientes no ativismo político contra o comunismo, eles não tiveram muita sorte com sua iniciativa e a KGB exila um para Cuba e o outro para a Sibéria. Mas o isolamento não os impede de dar rumo às suas histórias. O irmão gêmeo de Tanya, Dimka Dvorkin, era assessor do primeiro ministro soviético Nikita Kruschev, sucessor de Stalin. Sua visão era de que o comunismo precisava de reforma. E nessa posição estratégica, é o personagem que vai estar acompanhando a transformação dessa federação até sua dissolução em 1991. Os irmãos terão ativa participação na Crise dos Mísseis de Cuba que foi um dos eventos mais tensos durante o período da Guerra Fria.

É muito claro que o núcleo inglês agora se desloca do ativismo convencional através da política para a expressão artística. Dave Williams se expressa através da música e Evie Williams, através das artes cênicas. Os outros personagens são os irmãos da Família Murray, Jasper e Anna e os irmãos da Família Dewar, Cam e Beep. Além da música, esse grupo acrescenta ingredientes como jornalismo, literatura, espionagem e a tão conhecida transformação da sociedade na busca da liberdade de expressão e de comportamento.

O Brasil, nesse contexto, assim como a América Latina, era um território a ser conquistado nesse jogo. Pagou-se um preço muito alto, o da ditadura estabelecida por meio de golpes militares que se apoiavam na Operação Condor para impedir que governos de esquerda assumissem o poder. Houve uma intersecção de períodos de ditadura em vários países com extrema violência aos opositores do regime e violação aos direitos humanos.

Em sua pesquisa de 7 anos, obviamente que Follett não conseguiria cobrir todos os eventos do planeta. Entrelaçar todos eles seria uma tarefa difícil ou extremamente meticulosa. O autor escolheu um ângulo. Pode não ter aprofundado mas desperta essa vontade.

Fato é que a eternidade realmente esteve por um fio. Enquanto uns escutavam Beatles, crianças eram treinadas nas escola para o caso de um ataque nuclear. Enquanto uns escutavam Bob Dylan, uma menina de 9 anos corria nua para fugir das bombas na vila de Trang Bang, no Vietnã. Enquanto Neil Armstrong pisava na lua, meio milhão de pessoas se aglomeravam no Festival de Woodstock. Só pra citar alguns exemplos. Mas quis a própria humanidade que terminássemos em relativa paz, ou que simplesmente sobrevivêssemos para continuar a história.

“O grande conflito da última metade do século passado era o comunismo contra o capitalismo. O comunismo acabou, mas é estranho que ainda existam regimes autoritários. Pensávamos que o problema na Rússia era o comunismo, e eles ainda têm os mesmos problemas. Não se trata então de esquerda contra direita. Toda a minha vida fui de esquerda, fui membro do Partido Trabalhista britânico, assim como minha mulher. Minhas convicções estão à esquerda. Mas hoje constato que talvez o conflito seja entre autoritarismo e liberdade. Será que a raça humana se divide entre os que gostam e os que odeiam autoridade? É o que me pergunto. Talvez tenha alguma relação com a natureza humana.”Ken Follett, sobre sua visão para o Século XXI, em entrevista para o Jornal O Globo.


Se gostou e quer mais…

Assim como no livro “Inverno do Mundo”, a Editora Arqueiro também preparou uma linha do tempo para “Eternidade por um Fio”. Você pode conferir essa imagem e outras informações na página oficial do autor em português.

Eternidade por um Fio - Linha do Tempo2

A Pan Macmillan, editora britânica dos livros do Ken Follet, também disponibilizou alguns vídeos especialmente preparados para este terceiro livro. Um deles se chama “On the trail of history for Ken Follett’s Edge of Eternity”. Nesse vídeo, Follett refaz a viagem dos viajantes da liberdade, visita o memorial de Martin Luther King e a igreja em que ele pregava sobre direitos civis dos negros e sobre a paz. Ele também visita o congressista americano John Lewis que, assim como o personagem fictício George Jakes, fez parte dessa viagem. Veja neste link.

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E pra tornar a vida mais leve, fica com música a última resenha da trilogia. Não é britânica, não é dos Beatles, mas é do americano Bob Dylan que influenciou os britânicos a começarem sua invasão. Foi regravada inúmeras vezes e completou 50 anos em 2015. “Like a Rolling Stone” em clip oficial criado pela startup israelense Interlude. É interativo, mude os canais para ver a força dessa canção. O canal que eu mais gosto é o History Channel e do Moviez… Clique aqui pra ver também.

Captura de Tela 2015-11-12 às 15.53.55


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: ETERNIDADE POR UM FIO

Título Original: THE EDGE OF ETERNITY

Autor: Ken Follett

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 940

Ano: 2014

Editora: Arqueiro

ISBN: 9788580410891

Tradução: Fernanda Abreu

Para ver o link do livro na página da Editora Arqueiro, clique aqui.

4 comentários em “Eternidade por um fio

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