Viva o Povo Brasileiro

“Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar…”

Para entender o pensamento do Mestre João Ubaldo Ribeiro, é preciso se distanciar da forma mais convencional de que nos utilizamos para aprender. A obra passeia por 330 anos, contados através de histórias tão absurdamente incríveis, que supera a explicação dos fatos nos livros didáticos. Eis a essência:

“O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias.”

“Viva o Povo Brasileiro” é um clássico lançado em 1984, último ano do período da ditadura militar no Brasil, depois que João Ubaldo retornou ao Brasil vindo de Portugal. Em 2014, na edição comemorativa dos 30 anos de lançamento do livro, o escritor Rodrigo Lacerda conta no prefácio entitulado “673 páginas, seis quilos e duzentas gramas”, especialmente escrito para esta edição, que Ubaldo simplesmente queria escrever um livro grande. Ainda que já fosse reconhecido, fazer essa escolha foi um ato de coragem considerando a grave crise econômica na época. Ele teria descartado seus rascunhos iniciados em Portugal e Rio de Janeiro e recomeçou do zero na Ilha de Itaparica, sua terra, sua inspiração e cenário deste romance.

Itaparica,_Brazil

Itaparica – Foto Wikipedia Commons: Bigode45 (2004)

A missão de lê-lo, definitivamente, não é das mais fáceis. Escrever sobre ele supera qualquer grau de dificuldade. Principalmente quando se confirma o peso desta obra, não somente para a literatura brasileira mas também para o conhecimento sobre a nossa existência como pessoa e como coletividade. Sem sombra de dúvida, é um livro absolutamente genial, emocionante e obrigatório para qualquer um que queira opinar a respeito do nosso país e do nosso povo.

Pelo imenso respeito que agora tenho pela obra e pelo autor, minha tentativa de resenhá-lo é do ponto de vista de uma leitora que se aventura. Não tenho a ambição de destrinchá-lo (embora tenha tentado com todas as minhas forças) mas quero encorajar aos que desejam como eu, entender melhor como chegamos até aqui. Para despertar a curiosidade, mais pra frente, vou usar da transcrição de alguns trechos.

João Ubaldo Ribeiro é um jornalista, escritor e professor baiano, Mestre em Ciências Políticas, que nos deixou, aos 73 anos de idade, em 2014. Uma alminha da Ilha de Itaparica para começar a usar os termos por ele mesmo usados. Membro da Academia Brasileira de Letras e ganhador do Prêmio Camões de 2008 por sua contribuição ao patrimônio literário e cultural da língua portuguesa, João Ubaldo faz parte de um rol de autores brasileiros que são reconhecidos por transmitir, através de seus livros, a história e a cultura do Brasil. Consta que seu pai o obrigava desde cedo a ler autores como Machado de Assis, José de Alencar, Shakespeare, Miguel de Cervantes e fazer resumos dos textos lidos. Com essa bagagem intelectual, compôs seu legado com essa e outras obras como “Sargento Getúlio”, “A Casa dos Budas Ditosos” e “O Albatroz Azul”.

Joao_Ubaldo_RibeiroFoto Wikipedia Commons: Diego Mascarenhas (Salvador/2009)

Esse livro é sobre a identidade do povo brasileiro, formada em função de muitas misturas, a miscigenação. Ou seja, o pano de fundo é a História mas o mote principal é a formação do povo que o livro trata de Irmandade do Povo Brasileiro. Há os que se reconhecem nela e há os que não se reconhecem como acontece até hoje. O negro Júlio Dandão é o primeiro guardião de seus segredos e da simbologia que é guardá-los em uma canastra.

“…Estes segredos – disse sem tirar a mão da tampa – são parte de um grande conhecimento, conhecimento este que ainda não está completo, mesmo porque nenhum conhecimento fica completo nunca, faz parte dele que sempre se queira que ele fique completo. E faz parte dele também, por ser segredo e somente para certas pessoas, que cada um que saiba dele trabalhe para que ele fique completo. Se todos trabalharem, geração por geração, este é o conhecimento que vai vencer…”

É também um livro em que, como diz o poeta, vemos “o futuro refletir o passado” e esse reflexo é tão claro e, ao mesmo tempo tão sutil, que chega a assustar.

João Ubaldo não segue uma ordem direta ainda que cada capítulo possua subdivisões localizadas no tempo e no espaço. O livro começa o primeiro capítulo em 1822 mas no segundo volta no tempo para 1647 que é na verdade onde tudo começa. No terceiro capítulo, retoma 1827 mas no quarto volta um pouquinho para 1809. E assim vai… É comum que uma narrativa comece pelo meio para de repente voltar ao início para explicar-se. Essa é a dinâmica. Com um pouco de paciência, é possível acostumar e, se no começo parece confuso, em um dado momento entende-se porque o autor usa e abusa desse recurso.

Mas vamos ao que nos conta Ubaldo e algumas ideias de seu texto que me surgiram ao longo da leitura…

Em 1822, o alferes José Francisco Brandão Galvão morre em um ataque dos portugueses na Ponta das Baleias, Ilha de Itaparica. É um simples e jovem pescador, filho bastardo de um português. O imaginário popular faz dele um herói da independência que discursa às gaivotas na hora da sua morte através de uma pintura chamada “O alfere Brandão Galvão Perora às Gaivotas”. Daí explicam-se as sucessivas encarnações das almas e por que essas almas, depois que morrem, se recusam à deixar Amoreiras, uma praia da Ilha.

Mas tudo começa um pouco antes, na mesma Ilha de Itaparica, com o caboclo Capiroba que comia gente. Era um selvagem aturdido pela doutrinação dos padres. Mas uma de suas muitas filhas, Vu, se apaixona pelo holandês Sinique. Se imaginamos a formação do povo como uma árvore, esse seria o primeiro ramo, que nasce de uma raiz muito forte que são os nativos e os negros africanos. Esse começo mostra bem o choque cultural e religioso da catequisação dos indígenas pelos jesuítas, estratégia importante para a colonização e cujo um dos focos de povoamento foi na Bahia. É a grande nação africana, transferida para a nossa terra, para ser escravizada.

O outro ramo imaginado pelo autor, se origina com Perilo Ambrósio, brasileiro, filho de portugueses donos de engenhos e escravos. Expulso de casa por ser de um gênio terrível, especialmente dominado pela gula e pela maldade, se aproveita das batalhas de independência travadas na Bahia para se converter em um herói que nunca foi, trair a família e se tornar o Barão de Pirapuama. Trata-se do poder da oligarquia que se estabeleceu através do ciclo econômico do açúcar, base da colonização com mão de obra escrava.

O terceiro ramo nasce com Amleto Ferreira, o “guarda-livros” do Barão, uma espécie de contador. Amleto é o legítimo mestiço que nega suas origens. Filho de uma negra com um europeu. Teve acesso à educação mas era marginalizado. Quando se dá conta disso, compra uma certidão que lhe confere nova origem passando a ser um Nobre dos Reis Ferreira-Dutton. Trata de usar todos os seus conhecimentos e influência econômica e política para lhe favorecer. Faz fortuna através de todos os ilícitos previstos na lei de hoje. Mas se credita o direito de agir dessa forma, confere a si próprio uma imunidade por seu prestígio e status. E Ubaldo quis mostrar, através da família de Amleto, como essa índole se perpetua quase como uma característica hereditária. Digo quase, porque de seus filhos, Bonifácio Odulfo, Carlota Borroméia, Clemente André e Patrício Macário, este último desperta para a consciência de entender melhor todo esse contexto.

Ainda tem mais uma família que é a de João Popó, o patriota orgulhoso, autoritário e conservador, que tem muitos filhos com muitas mulheres. Da oficial, Candinha, colhe a decepção: os filhos não se alistam para lutar na Guerra do Paraguai e ainda conspiram pela herança antes do pai morrer. De uma das extra-oficiais, Rufina, surge o único filho a corresponder ao sonho de ter um herói da guerra na família. Mas o sonho não sai como ele imaginava. Zé Popó se junta a Maria da Fé, a menina filha da escrava Vevé e fruto da covardia, neta de Nego Leléu, que se converte em uma das poucas heroínas de verdade dessa história toda. Uma menina que percebeu a importância das pessoas mais simples, descobriu os segredos, assumiu a Irmandade, foi reconhecida como líder por aqueles que lutavam pela justiça e quando não estava nas batalhas, dava aulas.

“…Tinha gente que pescava o peixe, gente que plantava a verdura, gente que fiava o pano, gente que trabalhava a madeira, gente de toda a espécie, e tudo isso requeria grande conhecimento – talvez fosse isso a vida, como ensinava vô Leléu, quanta coisa existia na vida!”

Além de todos esses núcleos, muitos são os personagens “sem família”, por assim estarem de certa forma soltos na história. Todos, sem distinção, são importantes para compor cada elo dessa corrente.

“…Mas gostaria de dizer que não se podia esquecer que eram heróis todos os que suportaram o medo, a doença, a fome, o cansaço, a lama, os piolhos, as moscas, os percevejos, os carrapatos, as mutucas, o frio, a desesperança, a dor, a indiferença, a lama, a injustiça, a mutilação. Eram todos heróis e não nasceram heróis, eram gente do povo, gente como a gente da ilha e da Bahia, que também suportava muitas dessas coisas e mais outras, até piores, sem ir à guerra nem ser chamada de heróica…”

As batalhas são muitas, conhecidas ou anônimas, concretas ou veladas. O autor cita as Guerras da Independência na Bahia, a Revolução Farroupilha, a Batalha do Tuiuti, a Guerra do Paraguai, Canudos, a Revolta da Chibata, o período de Ditadura Militar Todas lutas que, de uma forma ou de outra, são incompreensíveis pois seriam do povo contra o próprio povo.

“…Há muitas coisas que estão escritas, há muitas mais que compete aos homens escrever por si mesmos, porque suas almas são livres e, se guerreiam, é porque escolheram a guerra…”

Destaque há de se dar para a belíssima narração da intervenção dos Orixás na Guerra do Paraguai, o desespero de Oxóssi para convocar Xangô, Omulu, Yansã e, principalmente, Ogum, apelando para Oxalá para salvar os seus filhos. Uma maneira de representar a crença vinda da África e os muitos negros que foram mandados para a guerra.

“…E por toda parte lutavam Xangô e Oxóssi, ao lado de seus filhos mais valorosos. Mas Oxóssi via que, mesmo com seu esforço e a extraordinária valentia de seu irmão, a posição na batalha não era boa e os perigos aumentavam. Então o grande caçador da madrugada, perito no arco e flecha, foi à morada de seu irmão Ogum, senhor do ferro e da ferramenta, cujo nome é a própria guerra…”

As mazelas tão duras de hoje, são claramente identificadas em suas origens. A começar pela exploração dos índios e a escravidão que resultaram no preconceito racial e na segregação.

“…O elemento servil é indispensável para que se mantenha o país e a sociedade. Nisto concordo, sem ele os custos tornar-se-iam proibitivos e não se poderia aspirar a transformar esta nação no celeiro do mundo civilizado e no fornecedor de algumas das principais riquezas de que depende a civilização. Mas há limites para o que se pode suportar da convivência com essas criaturas simiescas e obtusas, que estão nesse mundo para que louvemos a Deus pelo nosso destino de homens normais e para que ponhamos à prova nossa caridade…”

O recalque e a inferioridade resultando no complexo de vira-latas, na falta de orgulho e na desunião.

“…que será aquilo que chamamos de povo? Seguramente não é essa massa rude, de iletrados, enfermiços, encarquilhados, impaludados, mestiços e negros. A isso não se pode chamar um povo, não era isso o que mostraríamos a um estrangeiro como exemplo do nosso povo. O nosso povo é um de nós, ou seja, um como os próprios europeus. As classes trabalhadoras não podem passar disso, não serão jamais povo. Povo é raça, é cultura, é civilização, é afirmação, é nacionalidade, não é o rebotalho dessa mesma nacionalidade. Mesmo depuradas, como prevejo, as classes trabalhadoras não serão jamais o povo brasileiro, eis que esse povo será representadopela classe dirigente, única que verdadeiramente faz jus a foros de civilização e cultura nos moldes superiores europeus – pois quem somo nós senão europeus transplantados?”

Os interesses de um pequeno grupo em detrimento da maioria resultando na manipulação política, desigualdade social e na violência.

“…Pérolas aos porcos? Pergunto-vos: pérolas aos porcos? A verdadeira educação leva em conta a necessária distinção entre as diversas classes de homens…”

Os desvios, a falta de caráter e vergonha resulta na corrupção.

“…Não, não, tem calma, calma. Não vás com muita sede ao pote. Espera que ele fale, se ele quiser dinheiro podes estar certo de que tomará a iniciativa, dirá qualquer coisa como “podemos contornar a situação”, “talvez se possa dar um jeito nisto” e assim por diante. Mas mesmo assim não ofereças nada, manda que venha ter comigo, que sou teu cunhado mais velho e teu protetor, que cuido dos teus livros de contas e assim por diante. Isto não é tarefa para ti, eu me entendo com ele…”

A falta de consciência, na manipulação da História.

“…Desde esse dia que se sabe que toda a História é falsa ou meio falsa e cada geração que chega resolve o que aconteceu antes dela e assim a História dos livros é tão inventada quanto a dos jornais, onde se lê cada peta de arrepiar os cabelos. Poucos livros devem ser confiados, assim como poucas pessoas, é a mesma coisa…”

A centralização do poder, no autoritarismo e na censura.

“…Muito bem, aprova-se a lei (da censura prévia a livros) e só porque o Jorge amado, que – atenção! – nunca deixou de ser comunista e no entanto vive aí solto, recebido por todo mundo – e o Érico Veríssimo, que deve estar gagá e também devia ser preso por desafiar a lei e desacatar a autoridade, essas duas peças, que nunca fizeram nada a não ser escrever romances, uma coisa que não acrescenta nada, não informa nada e lê quem tem tempo para jogar fora…”

A sociedade patriarcal resultando na desigualdade de gêneros.

“…mas a oposição feminina há de se sempre encarada precisamente nestes termos: como oposição feminina. As mulheres, meus amigos, são coração e não cabeça e sabemos muito bem que há mais armadilhas nas blandícias do coração do que nos alvitres frios da cabeça. Dona Teolina haverá de compreender, pois, como às crianças, temos de fazer às mulheres aquilo que é para seu próprio bem e não aquilo que desejam…”

A falta de unidade resulta na polarização política.

“…Não se trata de monarquia ou república, trata-se de perceber que não vamos eternamente poder abafar a voz dos despossuídos, oprimidos e injustiçados, que são a grande maioria, através de ações militares. Trata-se de estabelecer um regime que, em lugar de procurar solidificar as vantagens de seus sequazes no poder, procure compreender que o país só poderá ser grande na medida em que não mantiver seu povo marginalizado, escravizado, ignorante e faminto…”

Pelo trechos, pode-se perceber Ubaldo coloca o dedo em todas as feridas. Ao mesmo tempo, tudo isso se mistura de uma forma que resulta em um caldeirão de previsões do futuro. Previsões que não trazem alento mas que alimentam sim uma esperança que cada um que se reconhece nessa identidade pode lutar para mudar o final da história.

“… E eu lhe digo que compete à Coroa ser leal aos súditos e não os súditos à Coroa, assim como compete à República ser leal aos cidadãos e não a ela mesma…”

São tantos elementos e tantas as conexões usadas que se encontram vários estudos sobre a obra na internet. A narrativa muitas vezes dura e sem leveza alternando com a poesia, a ironia, o sarcasmo, a sutileza, a linguagem dos negros, o vocabulário, a escolha dos nomes dos personagens, tudo, absolutamente tudo foi pensado para ter um sentido. Acredito que ninguém termine esse livro pensando do mesmo jeito que começou ou fazendo as mesmas escolhas.

“…acreditava também na grande responsabilidade do livre-arbítrio. Se não houvesse livre-arbítrio, o homem não seria nada, não poderia aspirar a nenhuma dignidade, pois que não teria responsabilidade. Mas, como há o livre-arbítrio, há a grande responsabilidade de que, se queremos que o mundo melhore, devemos fazer por onde ele melhore, já que o mundo é nosso, é do homem e a ele foi dado…”

Com certeza, “Viva o Povo o Brasileiro” vai render uma releitura no futuro. Porque, embora João Ubaldo nos confunda em alguns trechos comentando que talvez tudo faça parte do nosso imaginário, eu acredito que tudo foi real e que talvez eu seja uma dessas alminhas que não seja brasileira à toa.


 

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Título em Português: VIVA O POVO BRASILEIRO

Autor: JOÃO UBALDO RIBEIRO

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 672

Ano: 1984 (Relançamento 2014 – Edição Especial de 30 anos)

Editora: Objetiva (Selo Alfaguara)

ISBN: 9788579623004

Para ver o link do livro na página da Editora Objetiva (Selo Alfaguara), clique aqui.

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