La casa de los espíritos

“Barrabás llegó a la familia por vía marítima, anotó la niña Clara con su delicada caligrafía…”

A ficção diz que a história da casa dos espíritos surge da menina Clara que cultivou o hábito de usar cadernos de anotar a vida. De alguma forma, ainda cedo, ela percebeu que a memória poderia falhar um dia. Mais do que isso, talvez ela tivesse a percepção de que o entendimento dos acontecimentos faria mais sentido em conjunto, como um quebra-cabeças já montado.

“Barrabás llegó a la família por vía marítima, anotó la niña Clara con su delicada calígrafia. Ya entonces tenía el hábito de escribir las cosas importantes y más tarde, cuando se quedó muda, escribía también las trivialidades, sin sospechar que cincuenta años después, sus cuadernos me servirían para rescatar la memoria del pasado y para sobrevivir a mi proprio espanto.”

Já a realidade revela que o processo criativo da escritora Isabel Allende surge quando ela estava na Venezuela e seu avô no Chile. Como ele estava muito idoso, ela resolveu lhe escrever uma carta que se transformou em um livro. O avô poderia ser a inspiração para o patriarca Esteban Trueba e Alba, sua neta, o alter-ego da autora.

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Registro do Álbum de Família na página oficial de Isabel Allende

“A Casa dos Espíritos”, lançado em 1982 pela Editorial Sudamericana, é o primeiro romance de Allende, de nacionalidade chilena e americana mas nascida no Peru. Com 21 livros traduzidos para mais de 35 idiomas e com mais de 65 milhões de cópias vendidas, ela é tida como umas das escritoras latino-americanas vivas mais lidas no mundo.

Isabel Allende

O livro se passa no Chile, do início do Século XX até o período da Ditadura Militar. Na realidade, meu primeiro contato com a história foi através do filme, lançado em 1993. Nessa época, jamais imaginaria que o encantamento daquela trama e daquele país poderia transpor a barreira da minha realidade.

Há algum tempo, o Chile começou a entrar na minha vida e faz um ano que o destino me levou para viver nessa terra. Daí que não poderia mais ficar só na lembrança do filme porque, mesmo respeitando o trabalho de produção do diretor Billie August, há que se reconhecer que filmes jamais serão livros.

Começo o ano, então, com essa resenha especial (peço licença para citar trechos em espanhol), de um livro que reafirma todo o turbilhão de conhecer a cultura e a história através do intercâmbio que é viver em um país diferente do meu, mas com um sentimento de que é só o começo e que muitos autores latino-americanos farão parte das minhas leituras em 2016.

A obra de Isabel Allende, sobrinha do presidente socialista deposto pelo golpe militar em 1973, aborda várias temáticas. Seja a família, o ser humano, o amor, o ódio, a vingança, os conflitos familiares, os aspectos sociais e culturais, a política, a história, o universo paralelo.

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Registro do Álbum de Família na página oficial de Isabel Allende

São duas as famílias que formam os pilares da história. O primeiro pilar é a abastada e importante Família Del Valle de Severo e Nívea. Ele, aspirante a político e ela, a sufragista. Dos filhos, destaque para Rosa, a linda moça de cabelos verdes que não era desse mundo, e Clara, a caçula que se comunicava com o outro mundo. No outro pilar, a Família Trueba, a viúva Ester e os filhos Esteban e Férula. Desses dois núcleos, se unem Esteban e Clara para formar uma nova família que habitará a grande casa da esquina no chamado Bairro Alto onde vivem os afortunados da sociedade e a Fazenda Três Marias, no Pueblo San Lucas, onde a família tira seu sustento.

“…Se estremeció al ver cómo se había deteriorado el barrio en esos años, desde que los ricos quisieron vivir más arriba que los demás y la ciudad creció hacia los faldeos de la cordillera…”

Esteban é o lado obscuro da trama. Um personagem altamente conturbado emocionalmente, forte mas egoísta, de difícil temperamento e caráter duvidoso. Alimenta a raiva, o ressentimento. Simboliza a vida material, a falsa moral e a tirania. Trabalhador, reconstrói do zero a Três Marias que pertencia à sua família. Mas exerce seu poder opressor de várias formas: em relação aos empregados através da exploração e do poder econômico, em relação às mulheres através da força e da violação e, mais na frente, em relação à família, através da submissão e do paternalismo. Acreditava que as pessoas não tinham direitos iguais.

“…Su rasgo predominante era el mal genio y la tendencia a ponerse violento y perder la cabeza, característica que tenía desde la niñez…”

Clara, como o próprio nome simboliza, é o lado da luz. Desde pequena era diferente e, por isso, não a compreendiam – “…Clara era muy precoz y tenía la desbordante imaginación que heredaron todas las mujeres de su familia por via materna…”. Sabia de antemão quando a terra ia tremer, adivinhava o futuro, movia os objetos sem tocá-los. Sua família acostumou-se e a cercou de amor mas, mesmo assim, Clara, em alguns momentos da vida, principalmente quando as consequências de seus dons eram dolorosos, optou pelo silêncio.

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Registro do Álbum de Família na página oficial de Isabel Allende

Seu magnetismo atrai Esteban e eles têm 3 filhos: Blanca e os gêmeos Jaime e Nicolás. No decorrer dos acontecimentos, os três demonstram a influência da mãe e se contrapõem ao pai. Blanca dá continuidade à linhagem de luz e nasce Alba, não por acaso herdeira genética dos cabelos verdes, antagonista direta do avô.

“… Nadie me va a quitar de la cabeza la idea de que he sido un buen patrón. Cualquiera que hubiera visto Las Tres Marías en los tiempos del abandono y la viera ahora, que es un fondo modelo, tendría que estar de acuerdo conmigo. Por eso no puedo aceptar que mi nieta me venga con el cuento de la lucha de clases… Yo era como un padre para ellos. Con la reforma agraria nos jodimos todos…”

O antagonismo velado, mas mais ameaçador e surpreendente, vem da descendência ilegítima, resultado do período em que Esteban descontava nas campesinas o seu instinto incontrolável.

Férula, a irmã de Esteban, é o seu tormento. Odiada pelo irmão, encontra o afeto no espírito piedoso de Clara, o que o deixa ainda mais neurótico. Uma mulher cheia de culpas e que, por isso, via nos dogmas da Igreja de uma sociedade muito católica sua salvação.

“…Tenía uma alma atormentada. Sentía gusto en la humillación y en las labores abyectas, creía que iba a obtener el cielo por el medio terrible de sufrir iniquidades…”

Se na primeira parte, a autora organiza o cenário e dá vida aos personagens, ao mesmo tempo, ela delineia mais fortemente a cultura mostrando o conservadorismo da sociedade, a relação patriarcal (“…Nunca se ha visto que un hombre no pueda golpear a sua propia mujer, si no le pega es que no la quiere o que no es bien hombre; dónde se ha visto que lo que gana un hombre o lo que produce la tierra o ponen las gallinas, sea de los dos, si el que manda es él…”), o lugar dos serviçais através da Nana (“…Eran servidos por la empleada que los había atendido toda la vida, en la tradición de esclavos a sueldo de entonces…”), empregada da família, o status do fajuto conde europeu Jean de Satigny e a submissão e dedicação do administrador Pedro Segundo García. Seu filho, Pedro Tercero, se converte no símbolo do levante dos trabalhadores campesinos e, logo depois, o pequeno Miguel será o revolucionário que só acredita na tomada do poder através da luta armada.

Em seguida, a vida da família é afetada pelos acontecimentos que marcaram a história do Chile como, por exemplo, a polarização entre o Partido Conservador, que representava a ideologia de direita e partido pelo qual Esteban se elege senador, e o Partido Socialista, que representava a esquerda. Nesse momento, a autora passa a destacar a questão política. O socialismo e o ideal revolucionário surgem como surgiram no mundo todo e, ainda que o Chile seja considerado um país geograficamente isolado, as influências não puderam ser evitadas. Vários personagens fictícios simbolizam essa luta mas Isabel Allende também traz à tona os personagens reais que representaram essas ideias. Ela opta por não mencionar seus nomes e Salvador Allende é designado como Candidato e, depois de eleito, como Presidente. Pablo Neruda é o Poeta. Augusto Pinochet, o Ditador.

“…Pan, circo y algo que venerar, es todo lo que necesitan…”

A eleição do Presidente Socialista Salvador Allende é bem caracterizada através da revolta do senador Esteban e da confiança de que seu governo cairia através da sabotagem, da desestabilização econômica e da desconstrução de sua imagem e associação com o comunismo.

O Golpe Militar em 1973, o bombardeio ao Palácio de La Moneda, a morte de Salvador Allende que se recusou a renunciar ou a se exilar e o terror da ditadura com seus milhares de mortos, exilados, desaparecidos, a repressão, a violação dos direitos humanos, a censura, marcam a segunda parte da narrativa de maneira muito forte.

“… Me dirijo a aquellos que serán perseguidos, para decirles que yo no voy a renunciar: pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Siempre estará junto a ustedes. Tengo fe en la patria y su destino. Otros hombres superarán este momento y mucho más temprano que tarde se abrirán las grandes alamedas por donde pasará el hombre libre, para construir una sociedad mejor. ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores! Éstas serán mis últimas palabras. Tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano…”

A morte de Neruda, dias depois do golpe, seu velório e cortejo fúnebre e a repercussão internacional do que estava acontecendo no país são narrados através da participação in loco do próprio Esteban e de sua neta Alba, exatamente como se vê nos registros jornalísticos da época. É meu destaque como um dos trechos mais emocionantes.

“… La gente iba en silencio. De pronto, alguién gritó roncamente el nombre del Poeta y una sola voz de todas las gargantas respondió ¡Presente! !Ahora y siempre! Fue como si hubieran abierto una válvula y todo el dolor, el miedo y la rabia de esos días saliera de los pechos y rodara por la calle y subiera en un clamor terrible hasta los negros nubarrones del cielo. Otro gritó !Compañero Presidente! Y contestaron todos en un solo lamento, llanto de hombre: ¡Presente! Poco a poco el funeral del Poeta se convirtió en el acto simbólico de enterrar la libertad…”

Um adjetivo para esse livro, certamente seria intenso. Além de toda carga emocional dos personagens, entendê-lo como uma mescla de ficção e não ficção, um resultado de uma catarse da autora que reúne elementos da própria família e da própria História é absolutamente genial e faz compreender a força do primeiro e mais conhecido livro da escritora, que se auto-exilou do país quando era jornalista e aconteceu o golpe. Em outra obra, Isabel menciona que esse livro lhe salvou a vida.

Entender que Clara começou os cadernos de anotar a vida e que Alba, no limite das suas forças, assumiu essa tarefa e ainda o próprio Esteban teria, na imaginação de Allende, sido capaz de exortar seus “fantasmas” escrevendo suas próprias confissões, é de uma enorme sutileza da autora. Quantas mãos teriam escrito esse livro?…

Chama atenção a comparação da narrativa de Isabel Allende com o realismo fantástico do colombiano Gabriel García Marquez, gênero que se caracteriza pela presença de elementos “mágicos” no cotidiano. Particularmente, não vejo como sobrenatural a clarividência de Clara, sua comunicação com o “outro mundo”, nem mesmo as aparições e a movimentações das mesas de três pés sem ser tocada… Por convicção, acredito que o título da obra realmente revele uma verdade natural da qual fazemos parte e que isso explique muito das nossas próprias histórias.

“…Igual que en el momento de venir al mundo, al morir tenemos miedo de lo desconocido. Pero el miedo es algo interior que no tiene nada que ver con la realidad. Morir es como nacer: sólo un cambio…”


Se gostou e quer mais…

Em 2010, Isabel Allende recebeu no Chile, de um governo de direita (Sebastian Piñera), o maior reconhecimento literário do país, o Prêmio Nacional de Literatura.

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Nessa ocasião, foi lançada a edição comemorativa de “La Casa de los Espíritus”, com a capa original de 1982, a da moça dos cabelos verdes. Por isso, a escolhi para ilustrar a resenha. Mas existem muitas outras pelo mundo…

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Ok, talvez você não resista e queira ver o filme. Vale a pena sim desde que leia o livro também. É uma superprodução alemã, americana, francesa, dinamarquesa e portuguesa.

The House of the Spirits

The House of the Spirits (1993)

Diretor: Billie August

Elenco: Meryl Streep como Clara Trueba, Jeremy Irons como Esteban Trueba, Glenn Close como Férula, Antonio Banderas como Pedro Segundo García, Winona Rider como Blanca.

Para os que um dia visitem o Chile, não deixem de conhecer o Museo de la Memoria y de los Derechos Humanos, erguido para que não se esqueça daqueles que perderam suas vidas e da violação dos direitos humanos na Ditadura Militar.

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É um museu moderno e que respira a história.

“…la gracia no era morirse, puesto que eso llegaba de todos modos, sino sobrevivir, que era un milagro…”

Aos admiradores de Pablo Neruda, também vale a visita à sua casa-museu La Chascona, onde o Poeta viveu com Matilde Urrutia. Na ocasião do golpe, a casa foi depredada mas Matilde fez questão que ali acontecesse seu velório.

“… Su casa azul del cerro estaba medio en ruinas, el piso quemado y los vidrios rotos, no se sabía si era obra de los militares, como decían los vecinos, o de los vecinos, como decían los militares. Allí lo velaron unos pocos que se atrevieron a llegar y periodistas de todas partes del mundo que acudieron a cubrir la noticia de su entierro…”

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Por último, deixo o link da entrevista dada por Isabel Allende à CNN Chile em 2015, por ocasião do lançamento do seu último livro, “O Amante Japonês”. É interessante vê-la na Biblioteca Nacional do Chile falando de política, sociedade, família e questões contemporâneas e polêmicas.


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: A CASA DOS ESPÍRITOS

Título Original: LA CASA DE LOS ESPÍRITUS

Autor: ISABEL ALLENDE

Gênero: Ficção – Romance

Nr. Páginas: 448

Ano: 1982

Editora: Bertrand Brasil

ISBN: 9788528601664

Tradução: Carlos Martins Pereira

Para ver o link do livro na página da Editora Bertrand Brasil, clique aqui.

2 comentários em “La casa de los espíritos

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