Anarquistas, graças a Deus

“Num casarão antigo, situado na alameda Santos número 8, nasci, cresci e passei parte de minha adolescência…”

Toda família deveria ter uma menina como Zélia. É esse o pensamento que deixa a leitura de “Anarquistas, Graças a Deus” que leva a uma viagem no tempo para conhecer a dela, de origem italiana, que fincou pés em São Paulo para formar parte da nossa gente.

Em 1976, aos 60 anos, Zélia Gattai Amado, casada com o já então consagrado autor Jorge Amado com quem viveu por 56 anos, se refugiou na casa do Rio Vermelho na Bahia para que ele se dedicasse à escritura de “Tieta do Agreste”. Enquanto isso, ela escreveu um conto sobre uma lembrança da infância. O marido leu o original e a aconselhou a escrever suas memórias até a adolescência. Foi assim que uma nova escritora surgiu.

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Foto: Cláudia Guimarães – 1º.dez.1994/Folhapress

Durante três anos, Zélia se dedicou ao projeto desse livro e reviveu a menina atrevida que foi, caçula de uma família de 5 filhos (Remo, Wanda, Vera, Tito e ela própria), para contar suas lembranças com absoluta sutileza. Em 1979, aos 63 anos, a militante política e fotógrafa Zélia lançou sua obra de estréia na literatura justificando seu reconhecimento também como memorialista, como preferia ser chamada.

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Foto: Epitácio Pessoa/Agência Estado

“Anarquistas, Graças a Deus” poderia ser a história de muitos brasileiros. A imigração italiana no Brasil foi bastante intensa entre o final do Século XIX e o começo do Século XX e estima-se que entre 10% e 20% dos brasileiros tenham alguma descendência italiana. Naqueles tempos, tanto os italianos buscavam oportunidades na América quanto o Brasil buscava mão-de-obra e incentivava a imigração. Daí que muitos deles vieram pra cá em busca de oportunidades.

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Foto: Guilherme Gaensly (Memorial do Imigrante)

Além da razão econômica, também havia a questão política. O anarquismo, cujo termo vem do grego anarkia e significa “ausência de poder”, foi um movimento que começou com o francês Pierre-Joseph Proudhon, autor da célebre frase “A propriedade é um furto”, usada pela autora para dar nome a um dos 139 pequenos capítulos do livro e explica o porquê de seu pai não querer comprar a casa alugada e que foi onde a família viveu sua história.

Os pais da autora caracterizam cada um desses aspectos. A família de Ernesto Gattai veio para o Brasil no navio Città di Roma, em 1890, fundar a Colônia Cecília, uma comunidade anarquista no Brasil. Angelina Da Col e sua família vieram também de navio desde Gênova, em 1894, trabalhar nas lavouras de café em São Paulo. A história dos dois toma forma na mente da criança por volta de 1910 quando eles, já casados e com a família crescendo, alugam o casarão na Alameda Santos número 8, a “vizinha pobre” da Avenida Paulista.

Ali, Zélia vê o pai buscar o sustento da família através da atitude empreendedora no ramo da mecânica conciliando com sua paixão pelos automóveis. Vê sua mãe dedicar-se à família com incrível força interior, a alma dividida entre a casa e as tarefas intelectuais, compaixão e amor pelas pessoas, pelos animais e pelas plantas. Vê também uma família de sangue italiano correndo nas veias mas que, através dos filhos, dos amigos, começa lentamente a passar por uma “transfusão” de sangue brasileiro…

Por todo o tempo, questões relacionadas ao ambiente cultural e social aparecem nas entrelinhas e compõem uma deliciosa maneira de se entender os costumes. Muitas passagens ilustram isso, como por exemplo quando Angelina escolhe um nome para o filho e Ernesto volta do cartório com o filho registrado com outro nome por causa do amigo que lhe diz que o inicialmente escolhido não era forte, nome de maschio… Já o nome de Zélia foi dado por Maria Negra, a pajem da casa. Seu Ernesto não mudou seu nome mas mudou sua data de nascimento para não pagar multa no cartório já que havia demorado para fazer o registro. E assim as histórias iam se criando para serem contadas.

Para os mais nostálgicos, Zélia vai lembrar da ida ao cinema, mudo, é claro, para a “soirée das moças”, ao circo armado no terreno baldio e que tinha uma banda que carregava a criançada pela rua, ao Parque Antártica com roda gigante, carrossel e algodão-doce. Vai lembrar do anúncio do Biotônico Fontoura no bonde e dos sonhos que Dona Angelina teimava em decifrar e que serviam de inspiração para as jogatinas.

Lembra também as histórias dos animais de estimação da família. Flox, o cão de Zélia, o cabritinho Bito que nunca virou almoço e sim passou a viver dentro de casa, o gatinho Ministro, o único ser que ela considerava livre na casa.

As incursões pelo guarda-roupa da mãe quando ela saía, hábito das meninas, fez Zélia folhear os primeiros livros anarquistas, um exemplar italiano da “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, “Os Miseráveis” de Victor Hugo, que ela, sem saber ler ainda, admirava as gravuras.

Cada momento revelado tem seu encanto mas recomendo ao leitor se deter principalmente no trecho que vai de “Seu Ernesto conta uma história” até “Parecida mas diferente” pois é exatamente nele que o pai e o Nono Eugênio contam, respectivamente, a mudança das famílias Gattai e Da Col para o Brasil. Particularmente, uma das narrativas mais emocionantes e curiosas também. O músico brasileiro Carlos Gomes e o Imperador Pedro II entram nessa história.

Além da vida cotidiana, também é mencionada a participação política dos pais com direito a filharada muitas vezes presente e isso refletia na liberdade como eles eram criados ainda que as meninas fossem mais restringidas. Talvez uma força fosse maior que a outra… Ou talvez fosse preocupação mesmo.

“Inconformada com a coerência do pai – suas ideias tão liberais, a favor da emancipação da mulher -, Wanda resolveu interpelá-lo numa véspera de carnaval, quando as restrições já começavam a ser recitadas:

-Me diga uma coisa, pai. Como é que o senhor, um anarquista, fica prendendo as filhas, proibindo-as de participar do Carnaval?

Seu Ernesto não se apertou, disse que ele era anarquista mas que maioria – ou a totalidade – dos carnavalescos não era. No dia em que o anarquismo triunfasse no Brasil, aí então ele soltaria as rédeas. Soltaria mesmo? Tínhamos nossas dúvidas.”

Como toda família, altos e baixos acontecem e os negócios de Seu Ernesto são afetados pela Revolta Paulista de 1924 e depois pela crise econômica que altera o sistema de economia agroexportadora que tinha como base o café. Foi afetada também pelo momento vivido no Estado Novo e perseguições aos que não pensassem de acordo com o status quo da ocasião. Mesmo nos momentos mais tensos, faz-se presente um estado de espírito neutro da autora, sem influenciar o entendimento do contexto.

A leitura de “Anarquistas…” remete à nostalgia até para quem não viveu naqueles tempos. A forma encontrada de organizar seus fragmentos de lembranças, em pequenos capítulos, faz com que nos sintamos à vontade e nos desperte a curiosidade de ter vivido ali. São situações simples, cotidianas mas cheias de significados para entender a identidade da autora e de sua família.

Zélia Gattai deve ter pensado e repensado cada detalhe da obra mas para o leitor, fica a sensação que sentamos em uma sala para ouvir uma pessoa a contar histórias. Ela conseguiu tratar dos temas mais amenos aos mais profundos com suavidade. E a prova disso é que ela brinca até no nome escolhido para sua obra.

Se toda família tivesse uma Zélia, seria possível que futuras gerações soubessem não só quem veio de onde mas também conhecer fatos de suas próprias famílias que não teriam se perdido. E entender que o passado ainda não vai tão longe…

“Aqueles que estudam o passado acabam se deparando com duas conclusões contraditórias. A primeira é que o passado era muito diferente do presente. A segunda é que ele era muito parecido.”

Keith Thomas (historiador inglês) citado no pósfacio de Lilia Moritz Schwarcz (historiadora e antropóloga brasileira) na obra de Zélia Gattai.


Se gostou e quer mais…

A biografia de Zélia Gattai, sua bibliografia, prêmios e homenagens podem ser encontrados na página da Fundação Casa de Jorge Amado, espaço dedicado a preservação da memória e da cultura dos autores.

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Seu perfil também podem ser acessado na página da Academia Brasileira de Letras onde a escritora assumiu a cadeira 23, anteriormente ocupada pelo marido, em 2001.

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A Casa do Rio Vermelho, onde o casal viveu por muitos anos, foi aberto ao público em 2014 como um memorial, com espaços temáticos, vídeos e interatividade com o público. Era um desejo da autora e, com certeza, perpetua a herança cultural deixada por eles.

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Foto: Veja.com

Além da literatura, os livros de fotografia de Zélia Gattai, como “Reportagem Incompleta” e “Catálogo Fotográfico Zélia Gattai Volume I – A Casa do Rio Vermelho: A Família”, são um imenso acervo da vida e da obra de Jorge Amado e da família. Era sua outra maneira de ver e contar o mundo à sua volta.

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Para os mais nostálgicos e para os descendentes de italianos de plantão deixo ainda uma dica, do livro “Città di Roma” em que a autora revela a história anterior a de “Anarquistas…” destacando a imigração da família materna e paterna.

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Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título: ANARQUISTAS, GRAÇAS A DEUS

Autor: ZÉLIA GATTAI

Gênero: Não Ficção – Memórias

Nr. Páginas: 344

Ano: 1979

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 9788535913910

Para ver o link do livro na página da Editora Companhia das Letras, clique aqui.

3 comentários em “Anarquistas, graças a Deus

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  1. Esse livro é fascinante. E o legal é saber que a Zélia (aliás, xará de minha mãe) começou a escrever aos 63 anos!!!! Minha família também veio da Itália por Genova (oriumdos da região de Lucca) e foram contemporâneos dos Gattai. Gostei da dica do “Cittá de Roma”, não conhecia e vou adicionar a minha lista para ler. Valeu!

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    1. Publicou o primeiro livro aos 62 e 22 anos depois foi eleita na ABL… Acho que a mãe de Zélia teria dito que ela deixou de ser atrevida como ela mesmo gostava de se referir à filha e se tornou um colosso. Eu já tinha lido esse livro há muitos anos atrás mas não me lembrava dos detalhes. Também quero ler “Città…” e ir na Casa do Rio Vermelho!

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