Doze contos peregrinos

“Las personas son de los lugares y llevan su tierra junto a ellas”

Essa frase, uma arte em neón, faz parte de uma Mostra do artista chileno Henrique Ramírez chamada “Los Durmientes: el Exilio Imaginado” exibida no Museo de la Memoria y los Derechos Humanos em Santiago, no Chile.

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De alguma forma, ela me chamou atenção. Quando conheci “Doze Contos Peregrinos”, do colombiano Gabriel García Márquez, e entendi que era uma coletânea de contos sobre latino-americanos na Europa, me veio a lembrança dessa ideia. Quando viajamos ou vamos viver fora, realmente levamos uma bagagem que não é material e sim afetiva, não é só individual mas coletiva. E é essa bagagem que nos faz únicos.

Esse livro veio parar nas minhas mãos por acaso, mas não sem razão, através da TAG – Experiências Literárias que é como um clube de livros. Todo mês, os associados recebem um livro escolhido por uma referência do cenário intelectual e literário junto com um material carinhosamente preparado para apresentar o curador e o livro. “Doze Contos…” foi a escolha da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, curadora de Dezembro/2015.

E já que estamos tocando em bagagens, a Suzana, abre a sua, relacionada à ciência, para ajudar a entender o livro e a nós mesmos.

“A neurociência nos revela como o cérebro conduz nosso comportamento: por que nos emocionamos, por que precisamos dormir, como as crianças se desenvolvem. Enfim, como somos o que somos.” – Suzana Herculano (Trecho do material de apresentação do livro, preparado pela TAG)

E assim fica mais fácil compreender porque temos uma identidade pessoal e uma coletiva, que é moldada pelo convívio social do espaço geográfico em que vivemos.

Dois ingredientes contribuem para que estes contos de Gabriel García Márquez sejam únicos. E ambos vem da experiência. O primeiro é que o autor escreve pequenas histórias desde criança. Assim ele começou, inspirado pela avó, contadora de histórias, e assim também começaram muitos escritores.

“Foi uma rara experiência criativa que merece ser explicada, nem que seja para as crianças que querem ser escritores quando forem grandes saberem desde agora como é insaciável e abrasivo o vício de escrever.” – Gabriel García Márquez – Prólogo de “Doze Contos Peregrinos”

O segundo é a sua própria vivência como latino na Europa, onde ele foi morar, em 1955.

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Foto: El País – Gabo em Barcelona nos anos 70

Os contos são realmente uma viagem porque não são convencionais. A verdade é que Gabo quis contar sobre “coisas estranhas que passam aos latino-americanos na Europa” e se baseou em fatos jornalísticos para escrevê-los. Mas o autor quis também carregar nas tintas poéticas com a característica da sua escrita: o Realismo Fantástico. Esse estilo é dito como o que utiliza aspectos mágicos ou sobrenaturais na realidade ou no cotidiano. Como no conto “A luz é como a água”: os meninos colombianos que navegam em seu barco dentro de casa no mar formado pela água que jorra da luz do ambiente, enquanto seus pais estão no cinema.

O imaginário é só um dos aspectos. As temáticas também são bem interessantes como no caso de “Boa viagem, senhor presidente” que é sobre um velho ex-presidente caribenho desterrado na Suiça e, se achando esquecido, encontra conterrâneos que alteram sua perspectiva. Ou em “Assombrações de agosto” em que um escritor venezuelano vive uma história digna de seus contos ao comprar um castelo mal-assombrado na Toscana.

Também há histórias em que o destaque vai para o personagem como em “Me alugo para sonhar” da colombiana que foi para a Áustria para estudar música e canto ainda pequena mas, já adulta, não cantava nem vivia da música mas sim vivia como diz o título do conto.

Mas não espere de Gabo somente leveza. Em um parágrafo, ele é capaz de chocar mudando tudo… Por isso, meu conto preferido é o último, “O rastro do teu sangue na neve” sobre um jovem casal colombiano que foi passar a lua de mel na Espanha e França.

De uma forma geral, Gabo contrasta a cultura de uma forma muito sutil, peculiar. Nada é óbvio nos seus contos, é preciso captar a nuance ou até mesmo imaginar o que poderia ter acontecido. No conto “Só vim telefonar”, por exemplo, a mexicana Maria enguiça de carro no deserto indo para Barcelona, pega carona em um ônibus de mulheres que vão para um manicômio e vira uma delas. Será que ela não conseguiu se comunicar? E Gabo ainda cita Vinícius.

“…Ela respondeu com um verso de Vinícius de Moraes: “O amor é eterno enquanto dura.” Dois anos depois, continuava sendo eterno…”

Seus contos peregrinos são verdadeiramente intensos e relendo o prólogo (sensacional por sinal), entendi o porquê. É que o ritmo da história é mais rápido e, consequentemente, não é difícil surpreender-se com seu destino relâmpago, com mudanças de rumo tão inusitadas ou com verdades tão puras.

“…o esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de começar um romance…” – Gabriel García Márquez – Prólogo de “Doze Contos Peregrinos”

Gabo disse ainda no prólogo que saberíamos o que fazer com os contos. No que depender de mim serão relidos mas nunca terão o alívio de voltar para casa como os peregrinos.


Se gostou e quer mais…

Gabriel García Márquez é colombiano, escritor e jornalista, ilustre ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1982 representando não somente a Colômbia mas também a América Latina com seu estilo inconfundível e imortalizado em obras como “Cem Anos de Solidão”, considerada uma obra-prima do genêro literário latino-americano e mundial.

Seu perfil pode ser acessado tanto na homenagem da Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI) ou na página oficial do Prêmio Nobel.

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Foto: José Lara

Você também pode saber um pouco mais sobre a exposicão temporária “Los Durmientes” de Henrique Ramirez neste link do Museo de la Memoria.

A TAG – Experiências Literárias recriou a ideia do clube do livro com alguns diferenciais. Eu destaco a curadoria e o kit preparado especialmente para cada indicação com informações que agregam valor à leitura. Mas a questão é que o curador(a) é revelado no mês anterior mas o livro não. Adoro receber a minha caixinha que faz escala no Rio e só depois vem pra Santiago… Mesmo assim o momento surpresa é muito legal.

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Tenho que falar da Suzana Herculano. Além de neurocientista, professora, escritora, colunista de jornal, responsável pelo Laboratório de Neuroanatomia Comparada da UFRJ, sem contar na família, etc, ela é leitora voraz (alguém aí pensa que não tem tempo pra ler?…). A página dela é essa aqui.

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Foto de divulgação da própria Suzana

E neste link, a Suzana explica sobre o hábito da leitura atua no desenvolvimento cerebral e a importância da transmissão de conhecimento. Vale assistir.

“A leitura é o exercício mais completo para o cérebro.” – Ivan Izquierdo – Neurocientista da PUC/RS


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: DOZE CONTOS PEREGRINOS

Título Original: DOCE CUENTOS PEREGRINOS

Autor: GABRIEL GARCÍA MARQUEZ

Gênero: Contos/Crônicas

Nr. Páginas: 255

Ano: 1992

Editora: Record

ISBN: 9788501040664

Tradução: Eric Nepomuceno

Para ver o link do livro na página da Editora Record, clique aqui.

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