Grande magia

“… dizer que uma pessoa é criativa é de uma redundância quase cômica; a criatividade é a marca da nossa espécie…”

Há os que dizem que umas pessoas são criativas e outras não. Esse pensamento é um tanto rotulador, não?

Elizabeth Gilbert começa “Big Magic” (“Grande Magia” na tradução para o português), fazendo a seguinte pergunta: “O que é a criatividade? É o relacionamento entre um ser humano e os mistérios da inspiração.”

A resposta já é uma pista. Se a criatividade é um relacionamento entre nós e um mistério, o processo envolve uma busca pessoal e depende de cada um. Mas por ela usar a palavra magia, seria esse processo algo ao acaso ou planejado? A tal inspiração estaria dentro ou fora de nós?

Liz nos convida a refletir com a autoridade de quem se tornou muito conhecida com um bestseller, o livro “Comer, Rezar e Amar”, publicado em 2006, com sua jornada de viagens pela Itália, Índia e Indonésia. Mas, depois dele, a pergunta que não queria calar era: E agora? Como ativar a mesma criatividade que a levou ao olimpo?

A autora, então, em sua própria busca de superar o desafio da “vida após o bestseller”, mergulha nesse universo e pesquisa sobre o processo da criação.

“Big Magic” é um livro de não-ficção do gênero da auto-ajuda e do comportamento. Eu resolvi lê-lo porque tenho acompanhado a autora. Também fiquei curiosa em saber como é o processo criativo dela. E concluindo, porque eu mesma acredito que a criatividade pode e deve ser desenvolvida sempre.

Grande Magia é obviamente um guia de autoajuda, certo? Mas, com todo o respeito e todo o carinho, não o escrevi para você; escrevi para mim. Escrevi para meu próprio prazer, pois adoro refletir sobre a questão da criatividade. Para mim, é agradável e útil meditar a respeito desse tema. Se o que escrevi aqui acabar por ajudá-lo, ótimo, ficarei feliz. Esse seria um maravilhoso efeito colateral. Mas, no final das contas, faço o que faço porque gosto.”

Sobretudo, esse é um livro direcionado para as pessoas que estão abertas a trazer a criatividade para dentro das suas vidas, independentemente das atividades que praticam, sejam elas artísticas ou não.

Existem muitos aspectos interessantes a pincelar para dar uma ideia da abordagem dela. Uma das mais curiosas é a história de que na Roma e na Grécia Antiga se acreditava que a inspiração das grandes mentes criativas era algo externo. Ou seja, o criador (poderia ser o filósofo, o cientista, o pintor, o escritor, o músico, etc) teria um gênio que o acompanhava e o inspirava nas suas ideias, obras, inventos. Pois bem: se a inspiração resultasse em algo bom, ótimo. Caso contrário, a culpa também não lhe era atribuída.

Mas não era só isso. A criação dependeria da boa vontade desse gênio querer trabalhar ou não… Essa teoria, no mínimo, explicaria porque os seres mortais em um momento estão inspirados mas em outro estão travados.

Felizmente o tempo passou. Com o Renascimento e a colocação do homem no centro do universo, passou-se a entender que a ideia do autor era dele mesmo, ou seja, os “direitos autorais” não seriam divididos, colhesse ele os louros ou não. Mas fato é que são muitos os exemplos das pessoas que, ao optar por viver do talento criativo, simplesmente são atormentadas pela obrigação do sucesso e da receptividade da crítica.

Para dar uma diretriz ao que parece subjetivo, Liz organiza as etapas.

Coragem – Viver criativamente depende de se ter coragem de expôr seu potencial e vencer o medo.

“… o medo é um ferro-velho abandonado onde nossos sonhos são largados para definhar sob o sol escaldante…”

Encantamento – Liz acredita que o planeta está habitado não somente por pessoas, plantas, animais mas também por ideias e elas tem vontade própria(!). Se uma ideia te chega e você não a desenvolve… ela procura outra pessoa! E pode até ser que ocorra a tal da descoberta múltipla, termo usado na ciência, para explicar como uma mesma ideia surge para mais de uma pessoa ao mesmo tempo

“… acredito que a criatividade seja uma força de encantamento…”

Permissão – A decisão de ser criativo ou viver da criatividade é única e exclusiva ainda que considere muitos riscos.

“…você não precisa da autorização de ninguém para levar uma vida criativa…”

Persistência – Não desistir é um pressuposto mas a própria Liz conta, através de seu próprio exemplo, que muitas vezes precisamos combinar persistência e vida prática. Ter persistência não significa radicalizar mas encontrar meios (criativos) para sobreviver enquanto persiste.

“… a vida tem uma regra simples e generosa: você melhorará em tudo aquilo que praticar…”

Confiança – Essa parte toca na questão do sofrimento. Existe uma relação aceita entre o artista e o sofrimento. Realmente a história mostra inúmeros exemplos de pessoas cuja arte está intimamente ligada com a dor e aí vem casos de isolamento, depressão, vícios, suicídios. Foi inevitável lembrar do poeta português Fernando Pessoa no poema “Autopsicografia” no sentido das tantas dores que são imaginadas quando o lê.

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

O ponto aqui proposto por Liz é uma tentativa de desvincular, ou pelo menos não vincular totalmente, a criatividade do sofrimento e aproximá-la da confiança.

Divindade – Esta última parte é ilustrada com uma historinha de Bali. Sutil e bem auto-explicativa tanto pela criatividade quanto pela visão do sagrado.

Aliás, destaco que o que mais me aproxima deste gênero de livro é justamente o estilo que a autora usa. Em lugar de puramente dar conselhos, ela usa de muitos exemplos. Dessa forma, ela transpõe a categoria de “auto-ajuda”. A sabedoria popular já diz que os exemplos são mais efetivos do que os conselhos.

É muito interessante saber como a escritora começou, como persistiu e dedicou-se à escritura mesmo que o esforço muitas vezes fosse inócuo porque o mercado tem suas regras.

De todas as reflexões que “Big Magic” compartilha, uma delas me parece especialmente atual em um mundo exigente. E não se aplica somente à criatividade mas à vida como um todo.

“… o perfeccionismo impede as pessoas de terminarem seus trabalhos e, o que é ainda pior, muitas vezes as impede de começarem seus trabalhos…”

Então, na verdade, não importa se somos gratos ao nosso gênio inspirador, à nossa mente, às nossas bagagens, ao sagrado, desde que, como lembra parte do subtítulo, tenhamos uma vida criativa sem medo.


Se gostou e quer mais…

Elizabeth Gilbert é uma escritora contemporânea norte-americana, nascida em 1969 em Connecticut. Formada em Ciências Políticas pela New York University, ela conciliou estudo, trabalhos não relacionado à literatura e a própria literatura enquanto foi necessário. Atualmente dedica-se aos seus projetos como escritora e a um negócio em New Jersey de produtos importados das suas andanças com o companheiro brasileiro.

Elizabeth Gilbert by Timothy Greenfield-Sanders

Foto: Timothy Greenfield-Sanders

A página oficial na web da autora, pode ser encontrada neste link.

Aqui no blog, você também pode encontrar a resenha do livro que a Liz escreveu antes de “Big Magic”, em 2013, “A Assinatura de Todas as Coisas” também considerado pelo New York Times como um bestseller, dentre outros reconhecimentos.

A Assinatura de Todas as Coisas

A Liz participou do TED, um fórum global de conferências sobre ideias inovadoras, por duas vezes. A primeira vez foi em 2009 e me parece que o tema que ela escolheu foi o embrião para “Big Magic”. A palestra já tem quase 11 milhões de visualizações e se chama “Your elusive creative genious” ou, em uma tradução livre, “Seu difícil gênio criativo”. Veja aqui.

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Na segunda vez foi em 2014 com o talk “Success, failure and the drive to keep creating” ou “Sucesso, fracasso e a direção para continuar criando” com quase 3 milhões de visualizações. Ela volta a falar sobre criatividade mas, nesse momento, já tinha lançado “Comprometida” e “A Assinatura de Todas as Coisas”. O primeiro, sem muita repercusão, e o segundo, mais bem recebido pela crítica. Destas experiências, Liz motiva a busca por aquilo que nos move independente de resultados. Veja aqui este talk.

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Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: GRANDE MAGIA – VIDA CRIATIVA SEM MEDO

Título Original: BIG MAGIC – CREATIVE LIVING BEYOND FEAR

Autor: ELIZABETH GILBERT

Gênero: Não Ficção – Auto-Ajuda/Comportamento

Nr. Páginas: 192

Ano: 2015

Editora: Objetiva

ISBN: 9788539007103

Tradução: Renata Telles

Para ver o link do livro na página da Editora Objetiva, clique aqui.

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