Cem anos de solidão

“Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo…”

Não se escapa ileso de “Cem Anos de Solidão”. Não há como não se transportar para Macondo. Não se conhece a Família Buendía sem que lhe pareça próxima. O efeito colateral mais direto dessa leitura é a imersão, o que fascina leitores em todo o mundo pelo universo mágico em uma das obras mais conhecidas do colombiano Gabriel García Márquez.

Segundo o autor, a história veio ao mundo por meio de um “cataclisma da alma”. Essa definição é apropriada tanto pelo seu abrupto processo criativo quanto pela maneira que absorve o leitor. Em 1965, ele voltava de Acapulco, no México, quando começou a escrevê-la e só parou quando terminou, 18 meses depois. Um projeto arriscado, em um momento financeiro delicado mas, parafraseando o provérbio, quando o autor está pronto, a obra aparece.

“… García Márquez costuma dizer que todo grande escritor está sempre escrevendo o mesmo livro. “E qual seria o seu?”, perguntaram-lhe. “O livro da solidão”, foi a resposta…”

do Prefácio por Rinaldo Gama

A primeira edição foi lançada em 1967 por uma editora argentina chamada Sudamericana com uma tiragem inicial de 10.000 exemplares. Atualmente, já são 50 milhões de cópias e traduções em 35 idiomas, sendo considerada uma das obras mais lidas e traduzidas no mundo.

Assim Gabo foi imortalizado ao ser premiado, pelo conjunto de sua obra com o Prêmio Nobel de Literatura em 1982. Não há o que se falar de literatura latino-americana ou mesmo de literatura mundial sem mencioná-la. Figura na lista do 100 livros do século relacionados pelo jornal francês Le Monde e na dos 100 livros essenciais da Revista Bravo!, foi considerado a segunda mais importante obra da literatura hispânica (a primeira é “Dom Quixote de La Mancha”).

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“Cem Anos de Solidão” é um dos representantes do Boom Literário Latino-Americano ocorrido nos anos 60 e que teve alcance internacional com típicas características como o realismo fantástico, a perspectiva diferenciada do tempo e elementos políticos. Se destacam também o peruano Mario Vargas Llosa, o argentino Julio Cortázar e o mexicano Carlos Fuentes.

Bem… Mas onde afinal a mente de Gabo localizou Macondo? Alguns citam que seria a própria Colômbia, terra do autor, mas também encontra-se interpretações de que foi criada à imagem e semelhança da América Latina. Fato é que história e ficção se misturam como de costume.

Se consideramos as similaridades entre o país e o continente, da chegada dos europeus no século XVI, a exploração dos nativos, das terras, das riquezas, o tipo de colonização, as disputas territoriais, o processo de independência, as guerras civis (dentre elas a Guerra dos Mil Dias), golpes e ditaduras, até o período em que Gabo criou sua obra, pode-se chegar à conclusão de que a comparação só depende de ampliar ou não o ponto de vista.

O romance também tem muito da vida e da família do autor, da presença dos avós na infância com altas doses imaginação, tradições culturais e folclóricas, crenças e mitos, metáforas, religiosidade, etc.

Quis marcar o tempo em um século, o suficiente para que sete gerações da Família Buendía nascessem em Macondo, o fictício vilarejo fundado pela primeira geração, personificada no casal de primos, José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán. Ele, sonhador e curioso. Ela, a quase eterna matriarca.

“… Não haverá uma casa melhor, nem mais aberta a todo o mundo, que esta casa de loucos…”

Antes deles não havia nada e mesmo com eles, o povoado era isolado. O contato com o exterior se limitava aos momentos que caravanas de ciganos passavam e traziam as novidades que já se conheciam em algum outro ponto distante do que poderia ser um mundo mais moderno. Melquíades é o cigano misterioso que conquista a confiança do patriarca e guardião de pergaminhos secretos.

“… Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo…”

Do casal Buendía nascem José Arcádio (mesmo nome do pai), Aureliano e Amaranta mas a eles também se junta Rebeca. A partir de quando a família começa a crescer, aconselha-se acompanhar a história com uma das muitas árvores genealógicas disponíveis na web. Primeiro porque é um pouco confuso entender os ramos dessa árvore. Depois porque, curiosamente, os nomes vão se repetindo através das gerações não somente em uma tradição familiar mas também de forma a caracterizar os personagens. Nessa linha, os que nascem e recebem o nome de José Arcádio são naturalmente extrovertidos e trabalhadores. Os Aurelianos, introspectivos e intelectuais.

Árvore Família Buendía

Fonte: Wikipedia – Autor: Frank Ballesteros

Mas os membros da Família Buendía também possuem coisas em comum. Os que nela nascem padecem de uma curiosa insônia e de uma persistente solidão e esses traços são como marcas que os fazem pertencer a uma mesma sina de sofrimento. Essa solidão tem relação com a história do continente, com a submissão da colonização por exploração, seja da América Espanhola quanto da Portuguesa, com vítimas de repressão, exilados políticos, com isolamento geográfico e atraso econômico devido às relações comerciais desfavoráveis. Não é só uma solidão única e exclusivamente individual, embora cada personagem em sua luta íntima a reflita, mas mais ampla no sentido coletivo. Poderia ser também interpretada como o próprio subdesenvolvimento.

“… Esperava-o acordado até o amanhecer, na cama solitária que parecia ter uma esteira de brasas, e continuavam falando sem sono até a hora de levantar, de modo que em pouco tempo padeceram ambos da mesma sonolência, sentiram o mesmo desprezo pela alquimia e pela sabedoria do pai, e se refugiaram na solidão…”

Quando o tempo passa em Macondo, acontecem guerras e influências externas, a vida simples sucumbe à miséria e até a natureza se vinga como em um dilúvio bíblico.

Sim, “Cem Anos…” é uma saga que tira o fôlego mas também é um pouco triste. Macondo atinge um ápice quando da época que Aureliano, ao deixar de lado sua essência e a fabricação de seus peixinhos de ouro, vai lutar pela causa liberal e se transforma em coronel. Sai de casa para ter 17 filhos “Aurelianos” com 17 mulheres diferentes. Seu irmão José Arcádio também se aventura ao fugir com os ciganos. Pilar Ternera inicia ambos os irmãos no sexo e, de quebra, perpetua a linhagem. Amaranta e Rebeca disputam o amor e alteram seus rumos.

Úrsula suspeita que os gêmeos José Arcádio Segundo e Aureliano Segundo foram trocados pois não respeitam as características de personalidade que os nomes lhes confere. Tem também a mulher que come terra, a bela que ascende aos céus, o homem que é perseguido pelas borboletas, a tia que se apaixona pelo sobrinho, a nobre que só usa penico de ouro embora nada lhe reste além da própria altivez. E por aí vai. Muita informação…

Resumo Gráfico e Árvore Genealógica da Família Buendía e do Romance Cem anos de Solidão

Fonte: Wikipedia – Autor: Jjmarquete

Gabriel García Marquez não esquece da discussão sobre a disputa de poder e da marcação das ideologias conservadora e liberal, tão presente ainda em nossas discussões, da posse de terras improdutivas, do sistema político e de governo, da maldita corrupção. A chegada dos ianques e a instalação da Companhia Bananeira simboliza a dinâmica de exploração econômica em nome do progresso.

“…Quando chegou a companhia bananeira, entretanto, os funcionários locais foram substituídos por forasteiros autoritários que o Sr. Brown levou para viver no galinheiro eletrificado, para que gozassem, conforme explicou, da dignidade que correspondia ao seu cargo e não sofressem o calor e os mosquitos e as incontáveis incomodidades e privações do povo…”

A narrativa é dividida em 20 pequenos capítulos sendo que, na edição brasileira, cada um começa com uma ilustração do artista argentino, naturalizado brasileiro, Carybé.

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Dos aspectos mais interessantes da obra, o realismo mágico merece destaque. Gabo realmente aprendeu com sua avó a contar histórias e a fazer com que o inverossímil pareça verdadeiro. Os mortos continuam vivos. A realidade é paralela a outro mundo. A alquimia se mistura com a ciência.

Sua sensibilidade delineia todo o contexto mas Úrsula é sua porta-voz. Tanto por sua lucidez, por acompanhar quase toda a trajetória como por sua demonstração de coragem diante da vida e da finitude.

Macondo tem um ciclo de crescimento, um ápice e uma derrocada. Os Buendía tem um destino traçado a ser cumprido. Mas o que está entre o começo e o fim parece que é o que o Mestre Gabriel García Márquez desejava que prevalecesse como história e talvez como aprendizado. Na realidade, outros ciclos virão e as gerações se renovarão. Não é a solidão mas a esperança que nos move. Úrsula já tinha notado isso. A vida dá voltas.

“… Diante do desenho que Aureliano Triste traçou na mesa, e que era um descendente direto dos esquemas com que José Arcadio Buendía ilustrou o projeto da guerra solar, Úrsula confirmou a sua impressão de que o tempo estava dando voltas num círculo vicioso…”

“Cem Anos de Solidão”, se for possível opinar, bastaria que fosse dito a respeito dele que é um livro para ler mais de uma vez durante a vida e que há trechos dignos de guardá-los para sempre, eternizá-los como uma tatuagem na memória.

“… As coisas têm vida própria”, apregoava o cigano com áspero sotaque, “tudo é questão de despertar a sua alma….”


Se gostou e quer mais…

Como já mencionei o perfil do escritor na resenha de “Doze Contos Peregrinos”, aproveito para apresentar a homenagem da Fundação Gabriel García Marquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano (FNPI) chamada “Gracias Maestro” com várias informações que ajudam a conhecer um pouco mais da sua missão.

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A parte que mais gosto e destaco desta página são as “Citas de Gabo”. Como García Marquez também era jornalista, estas citações são voltadas para os que exercem essa atividade. Muito interessante também para quem curte a área de comunicação.

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Encontrei também na rede esse projeto infográfico do Emol, que é um diário online daqui do Chile, e que representa a obra de uma forma bem simples mas didática.

Por último mas não menos importante, um trechinho do discurso na cerimônia do Prêmio Nobel desse que nos enche de orgulho por sermos latinos e que menciona a poesia como inspiração.

“… En cada línea que escribo trato siempre, con mayor o menor fortuna, de invocar los espíritus esquivos de la poesía, y trato de dejar en cada palabra el testimonio de mi devoción por sus virtudes de adivinación, y por su permanente victoria contra los sordos poderes de la muerte. El premio que acabo de recibir lo entiendo, con toda humildad, como la consoladora evidencia de que mi intento no ha sido en vano. Es por eso que invito a todos ustedes a brindar por lo que un gran poeta de nuestras Américas, Luis Cardoza y Aragón, ha definido como la única prueba concreta de la existencia del hombre: la poesía…”


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: CEM ANOS DE SOLIDÃO

Título Original: CIEN AÑOS DE SOLEDAD

Autor: GABRIEL GARCÍA MARQUEZ

Gênero: Ficção – Romance

Nr. Páginas: 448

Ano: 1967

Editora: Grupo Editorial Record

ISBN: 9788501078896

Tradução: Eric Nepomuceno

Para ver o link do livro na página da Editora Record, clique aqui.

2 comentários em “Cem anos de solidão

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  1. Adorei o post! Estou lendo uma pequena biografia da Jane Austen e em seguida vou retomar a leitura de Cem Anos de Solidão. Eu comecei a lê-lo há alguns anos, mas na época não conseguia me concentrar muito e com esse livro, é preciso, afinal, são vários nomes parecidos e é um livro um pouco extenso. Bom, sue post me animou para voltar a essa leitura!! Estou tentando dar um cheque mate nos livros que tenho e ainda não li… é difícil, mas pelo menos 50% já me deixaria feliz! hehe Bjos!

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    1. oi Val! E eu ainda não li Jane Austen. Essa dica você me passa e assim a gente troca ideias. Mas a verdade é que, pra quem ama ler, a fila só aumenta 😉 Coragem pra gente! Depois que ler “Cem Anos…”, me conta. bjss

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