Passeio

“Um passeio em uma noite fria. Para pensar em mim. Para pensar em você. Para pensar em tudo. Para não pensar em nada.”

Quando algo passa que muda nossa vida, precisamos de um passeio. Por vezes, pode ser que ele seja ameno, para espairecer. Por outras, que seja um passeio árduo. Importa que seja um momento de reflexão diante das indagações que uma mudança pode nos provocar.

“Meus pensamentos são pré-históricos.”

“Passeio” de Fidelis Jose Neto é um desses momentos. Um homem, que se diz como pretensioso andarilho, é o personagem central da história. Alguém que parece percorrer dois caminhos. Um deles é real. O outro é mental. Se refletem como em um espelho. Mas têm algo em comum porque, juntos, tem uma mesma sintonia.

“Ruas claustrofóbicas que terminam diante de algum portão cerrado, em becos sem saída, em sombras que se estendem até construções indefinidas.”

A história é narrada pelo próprio personagem que nos leva para um momento muito íntimo que é o da separação em uma relação afetiva, do ponto de vista masculino, com muita sensibilidade. Dá a sensação que acabou de acontecer e ele está no topo (ou no abismo) desse processo.

“Onde fui quando você estava?

Você não levou nenhum pertence…

…Para você, uma fuga planejada.

Para mim, um sumiço brusco, mas nem por isso inesperado.”

Tive a impressão que a porta tinha acabado de bater e ele saía para pensar ao mesmo tempo que caminhava. Só que o rumo desse passeio é incerto assim como os pensamentos de quem busca respostas.

Não conhecemos o personagem principal. Ou melhor, ele nos é apresentado mas não através de seu nome mas sim da sua angústia, seus lamentos e desilusões. Nesse sentido, a possibilidade que nos aparece é a de poder construí-lo de maneira a trazê-lo para nossa própria realidade.

“Nosso alinhamento foi casual ou quiçá, só ocorra a cada cinquenta séculos.

Você ia.

Eu voltava.

Você pintava.

Eu escrevia.

Você na noite.

Eu no dia.”

Também não sabemos exatamente quando e onde se passa a história mas talvez isso seja de menor inportância já que, ele mesmo, tampouco se situa no espaço e no tempo.

“Um dia, me mudarei para uma cidade em que seus residentes não possam dizer em que época se encontram. É lá, sem referências, que melhor viverei.”

É como se nos desse a permissão para caminhar junto com ele e, de uma certa forma, nos tornamos próximos e as nuances de suas descrições também permitem que construamos essa história a partir da nossa própria percepção de uma ruptura.

Não bastasse a separação e a dor emocional que ela traz, pode-se notar que o questionamento vai além do momento individual estendendo-se à sociedade que o cerca e a maneira como influenciou sua vida.

“Estado estipulou minha identidade.

Religião exigiu generosidade ou descrença.

Educação me presenteou como opiniões diretivas e, em relação a quem eu era, foi negligente.

Trabalho me trouxe cansaço e aporrinhamento.

Ciências quis definir minha matemática.

Às fobias dediquei minha voluntariedade.

Ideias foram comuns ou irreais demais.

Adiante, um além.

Aqui, um porém.”

O autor realmente consegue construir as imagens deste momento enquanto o leitor o percorre. Seu estilo mistura a prosa com uma leve cadência de poesia. Se preocupa em utilizar a antítese, expressão de sentidos opostos, como figura de linguagem.

Amores subordinados a pretextos

Risos mudos.

Olhares baixos.

Sonos revoltos.

Bebedeiras homéricas.

Tapas ma cara.

As flores com quem não conversam mais.”

Não há capítulos mas pequenas divisões entre uma parte e outra passando uma percepção visual. Como se o personagem dobrasse uma esquina ou respirasse para continuar. O projeto gráfico do livro ajuda muito nessa construção em detalhes como o reflexo do título, na ilustração da capa e na ilustração interna (principalmente a que separa o prefácio do início do livro), nas imagens que parecem labirintos nas páginas laterais, no uso das cores preta e vermelha.

Imagem

Aos leitores atentos à produção literária, também é possível se distanciar do enredo e observar a técnica do autor, seu cuidado com a linguagem e as métricas, o desenvolvimento da ideia e de seu processo.

Ao fim, Fidelis já nos colocou na história. Fazemos as mesmas perguntas. Nos ressentimos da pessoa que se foi. Percebemos que, de um certo modo, ainda que o andarilho discuta a solidão, o passeio foi de mãos dadas.

Surge até mesmo a dúvida de que o passeio possa ter uma terceira interpretação.

“E se esse passeio sempre existiu? A vida como uma viagem sem um início ou final. Um acontecimento sem criação. Um tempo sem medida. Um espaço sem distância. Um axioma que se desmente.”

“Passeio” é um convite para tirar suas próprias conclusões.


Se gostou e quer mais…

Fidelis Jose Neto é um novo autor da safra da literatura contemporânea. Conheci seu trabalho no momento em que busco aprofundar minhas leituras e conhecer um pouco mais sobre literatura.

Fidel

Entre seus autores favoritos estão o sul-africano J.M. Coetzee (Nobel de Literatura de 2003), o português José Saramago (Nobel de Literatura de 1998), o francês Louis Ferdinand Céline e o brasileiro modernista Rosário Fusco.

Mais do que com outras obras literárias, a linguagem deste livro tem mais similaridade com a de alguns filmes como “Taxi Driver” (Martin Scorsese – 1976), “Shame” (Steve McQueen – 2012) ou “Roma” (Federico Fellini – 1977).

Preciso abrir um espaço para o prefácio de Cristina da Costa Pereira que começa com uma citação de Victor Hugo.

“Eu vivo em uma solidão esplêndida, como que debruçado na extremidade de um rochedo, tendo todas as grandes nuvens do céu sob minha janela. É desta eterna contemplação que desperto de tempos em tempos para escrever; meu pensamento flutua e vai e vem, como se estivesse solto por toda esta gigantesca oscilação do infinito.”

Como escritora e professora de literatura, sua análise dá uma visão didática da obra, dos elementos literários que Fidelis usou como a relação do espaço e do tempo, a metonímia nas analogias, a presença do estilo barroco no texto. Além de chamar a atenção para a motivação aparente do passeio em si, ou seja, a separação, ela também destaca o que chama de paisagem social que seriam compostas pela sociedade, o Estado, a ciência e a religião. Abre nossos olhos para a literatura como uma arte meticulosamente trabalhada.


 

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Título Original: PASSEIO

Autor: FIDELIS JOSE NETO

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 128

Ano: 2016

Editora: Andarilha

ISBN: 9788557510005

O e-book está disponível nos links da Amazon Brasil, Google Play e Kobo Books.

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