Pantaleão e as visitadoras

“Despierta, Panta – dice Pochita – Ya son las ocho. Pancha, Pantita.”

Pantaleão Pantoja é militar. Um profissional sério e dedicado ao ofício, o qual foi talhado para exercer. Ao receber uma missão confidencial e extremamente delicada, ele não pensa duas vezes.

Após a apreensão inicial, considerando possíveis conflitos familiares, o dever fala mais alto e Pantaleão começa a implementar o projeto: o SVGPFAServiço de Visitadoras para Guarnições, Postos de Fronteiras e Afins. Sigla no melhor estilo corporativista e nome sofisticado para a prestação do serviço mais antigo do mundo, a prostituição, ao Exército Peruano.

Mario Vargas Llosa é o autor de “Pantaleão e as Visitadoras”. Um escritor, jornalista e político, nascido em Arequipa, ao sul do Peru mas que também possui nacionalidade espanhola. É um dos grandes nomes da literatura na América e também representante do movimento literário batizado como “Boom Latino-Americano”, ocorrido nas décadas de 60 e 70 quando vários escritores latinos tiveram grande projeção na Europa.

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Foto: Arild Vagen

Vargas Llosa recebeu inúmeros reconhecimentos como contribuição para a cultura universal, dentre eles os prêmios Princípe de Astúrias de Letras (1986), Cervantes (1994) e Nobel de Literatura (2010). É membro da Academia Peruana de Letras desde 1977 e da Real Academia Espanhola desde 1994.

Sua obra é vasta e não inclui somente romances mas também contos, ensaios, memórias, peças de teatro, reportagens, etc. “A Cidade e os Cães”, “Tia Julia e o Escrivinhador”, “A Guerra do Fim do Mundo”, “Travessuras da Menina Má” e o mais recente “Cinco Esquinas” estão na minha lista para conhecê-la melhor.

“Pantaleão e as Visitadoras” foi escrita entre 1973 e 1974 quando já vivia em Barcelona. Em um prólogo de uma edição mais recente (1999), o próprio autor nos conta ter se baseado em um fato real, um serviço de visitadoras organizado pelo Exército Peruano para desafogar os institutos sexuais de suas guarnições, que conheceu em duas viagens à Amazônia, em 1958 e 1962, exagerado e distorcido até se converter em uma truculenta farsa.

Conta ainda Vargas Llosa que, na época, influenciado pelas ideias do filósofo e escritor francês Jean Paul-Sartre, tentou imprimir seriedade à história mas talvez esse fosse um dos casos em que a ficção impõe sua força e ele se viu obrigado a suavizar a hipocrisia para escrever. Melhor assim.

O autor dividiu o romance em 10 partes, ao mesmo tempo em que preparava sua versão cinematográfica que seria dirigida por José María Gutiérrez mas que, ao fim, foi em parceria entre este e o próprio Vargas Llosa. Acredito que por essa razão a prosa tenha sido desenvolvida com diálogos e uma clara característica de roteirização, sendo que a ambientação destes muda sem “aviso-prévio” lembrando vagamente a técnica de fluxo de consciência. Nada que, a partir da observação, comprometa o entendimento.

Outra peculiaridade é a utilização de cartas e de informes como mecanismos de narrativa. Pode parecer estranho de início, entretanto, esses elementos tornam a ficção mais real.

“Pantaleão e as Visitadoras” é isso: a hipocrisia disfarçada de comédia. Ou a arte da literatura a serviço da nossa necessidade de acessar as ironias da sociedade em que vivemos. A história se passa na Amazônia Peruana na metade da década de 50. Pantaleão vive com a esposa Francisca (Pochita) e a mãe, a Sra. Leonor, em Lima, até ser promovido a capitão do exército e ser transferido para Iquitos, na selva peruana, à margem do Rio Amazonas.

A história que se quer contar tem várias nuances. Uma delas é a conduta do capitão acima do homem. Pantaleão é informado quanto aos casos de estupro cometidos pelos soldados e que revoltam a população. É informado também da solução encontrada. Investigar? Denunciar? Punir? Simplesmente estabelecer uma rede de prostituição dentro do próprio Exército para atender a “demanda”. Obviamente, em sigilo.

– Em poucas palavras, a tropa da selva está comendo as cholas – toma fôlego, pisca, tosse o Tigre Collazos. – Há estupros a granel e os tribunais já nem conseguem julgar tanto safado. Toda a Amazônia está em alvoroço.

– Diariamente nos bombardeiam com informes e denúncias – belisca o queixo o General Victoria. – Chegam as comissões de protesto dos povoados mais perdidos.

Pantoja se desconforta com a situação, porém, segue adiante. Esconde da família, passa a atuar na clandestinidade porque não poderia transparecer que era militar. Faz um trabalho de campo, colhe estatísticas, estuda formas de implementação, recruta as prestadoras de serviço e desenha o sistema de remuneracão, estabelece a logística, a alocação de despesas, a dedução nos soldos, sistematiza e automatiza a atividade sem, no entanto, declará-la formalmente. Executa a tarefa na mais absoluta fidelidade à corporação e acima de questionamentos morais ou éticos. Essa atitude resvalará em consequências no decorrer da história.

Outra perspectiva seria a das prostitutas. O autor mostra tanto a situação miserável das mulheres assim como sua marginalização. Tanto as da casa de prostituição, quanto as “lavadeiras” que se prostituem sem intermédiários, não possuem possibilidades de mudar as condições precárias em que vivem ou fazer escolhas. Ao “servir” ao Exército, passam a ter o que se poderia chamar ironicamente de regulamentação das suas condições de trabalho, na medida do que atende ao corporativismo militar. O que foge ao controle, como por exemplo, o envolvimento efetivo, automaticamente elimina a visitadora de sua função.

Em um terceiro ponto de vista, há a sociedade como um todo. É interessante perceber os diversos grupos que o autor insere no contexto. A família, que deseja preservar sua posição social e até mesmo seus privilégios ao não entender porque o oficial deve se comportar como civil para esconder sua missão; os religiosos, que se organizam em seitas fundamentalistas (Irmandade da Arca) para “concorrer”com a fé católica; a rádio (A Voz do Sinchi), que denuncia de acordo com seus interesses.

Em suma, a atividade é tão bem planejada por Panta que cresce vertiginosamente. Cresce tanto que reflete no próprio comportamento e na vida do capitão, cria um mercado, desperta interesse e ódio.

– Dez mil semanais? – franze a testa o general Scavino. – É um exagero delirante, Pantoja.

– Não, general – se colorem as bochechas do capitão Pantoja. – Uma estatística científica. Veja estes organogramas. É um cálculo cuidadoso e, mais que isso, conservador. Aqui, olhe: dez mil prestações semanais correspondem à “necessidade psicológico-biológica primária”. Se tentássemos cobrir a “plenitude viril” de cabos e soldados, o número seria de 53.200 prestações semanais.

Há, nessa obra, um contexto que ainda hoje nos acompanha que é o fato de que a sociedade atual ainda considere natural determinadas condutas para o homem e as condene para a mulher. O crime de estupro, por exemplo, ser aceito, a partir da visão de que o homem teria instintos sexuais incontroláveis. Admite-se a prostituição desde que como uma atividade invisível, o que é uma falácia, porque o fingimento é a tônica que discrimina somente as mulheres.

Seria esperar muito que na década de 50 ou 70 fosse diferente do que foi espelhado na ficção se, ainda hoje, pleno século XXI, vivenciamos comportamentos que continuam a alimentar a cultura do estupro ou a discriminação social conjugada com preconceito, através da desigualdade de gênero, da culpabilização da vítima, da marginalização de minorias ou das parcelas da população mais atingidas historicamente pela ausência de políticas sociais e econômicas.

– Desculpe, mas tenho que ir. Minha mulher está no ginecologista e quero saber o que ele disse. Só faltam dois meses para o cadetinho nascer.

– E se em vez de cadetinho nascer uma visitadorazinha, senhor Pantoja? – começa a rir, cala, se assusta Chuchupe.

Termino a resenha como Vargas Llosa começa o livro.

Il y a des hommes n’ayant pour mission parmi les autres que de servir d’intermédiaires; on les franchit comme des ponts, et l’on va plus loin” – Gustave Flaubert, L’éducation Sentimentale

“Há pessoas que não tiveram outra missão entre os homens, a não ser servirem de intermediários. Nós os atravessamos como pontes e, então, vamos mais longe” (tradução livre)

A obra de Gustave Flaubert, autor do polêmico “Madame Bovary”, teria influenciado Vargas Llosa. A citação nos deixa a reflexão sobre essas “pessoas-pontes” que nos levam. Os intermediários (pessoas) ou a convivência (pontes) sempre nos modifica. Individual ou coletivamente. Talvez demore um pouco passar pela ponte mas a travessia é inevitável. Talvez Flaubert tenha sido uma ponte para Vargas Llosa. Talvez Vargas Llosa seja uma ponte para o leitor. Vamos atravessar.


Se você gostou e quer mais

“Pantaleão e as Visitadoras” teve duas versões para o cinema. A primeira foi uma produção de 1975, dirigida pelo próprio Vargas Llosa em parceria com José María Gutiérrez a quem o autor dedicou o livro. Na época, foi filmada na República Dominicana já que o Governo Peruano não permitiu as filmagens no Peru. A exibição só ocorreu em 1981. Curiosamente, o autor pede que as pessoas não a vejam porque criticou sua própria experiência como diretor…

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Mario Vargas Llosa com Jacques Renoir e José Maria Gutierrez Santos durante as filmagens na República Dominicana, 1975

A segunda versão foi dirigida por Francisco J. Lombardi, mesmo diretor que filmou outra obra de Vargas Llosa, “A Cidade e os Cães” para o cinema.

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A capa principal que está na apresentação da resenha é da edição em espanhol da Alfaguara. Para quem quiser se familiarizar com a edição brasileira, a imagem é outra mas também é muito bonita.

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Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: PANTALEÃO E AS VISITADORAS

Título Original: PANTALEÓN Y LAS VISITADORAS

Autor: MARIO VARGAS LLOSA

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 246

Ano: 1973

Editora: Objetiva – Alfaguara

ISBN: 9788560281121

Tradução: Paulina Watch

Para ver o link do livro na página da Editora Alfaguara, clique aqui.

2 comentários em “Pantaleão e as visitadoras

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  1. Olá! O trecho “E se em vez de cadetinho nascer uma visitadorazinha”, deixou uma das lições mais fáceis de assimilar. Mais uma vez sua resenha ficou maravilhosa. Ainda não li Mario Vargas Llosa, sinto que sua escrita requer preparo e ainda falta um caminho para que eu possa conseguir interpretá-lo da forma devida. Pela sua resenha posso concluir que existem autores que conseguem ir além das discussões sociais, eles nos levam a ver as questões como elas são como se não tivéssemos inseridas nelas. Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida Maria, há trechos que dizem tudo, não é? Agradeço pelo carinho com que lê as resenhas. Esse foi meu primeiro “Vargas Llosa”. Costumo dizer que o livro desencanta pra mim no momento da resenha… É a hora que eu paro para pesquisar. Acredito que você já deva planejar para lê-lo! O segredo sempre é deixar que o livro tome o tempo que for necessário para nos envolver. Realmente, há autores cujas experiências e bagagens culturais são enormes. Por isso, ler é tão fascinante. Te espero na próxima e quando ler algum desses, não deixe de me contar! 😉

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