Dois irmãos

“Quando Yakub chegou do Líbano, o pai foi buscá-lo no Rio de Janeiro…”

Desde que a história do mundo foi contada sob a perspectiva mitológica em Gênesis, ouve-se histórias de irmãos que deveriam se amar, no entanto, se odeiam. Com Yakub e Omar não é diferente.

Porém, a parte do enredo que é previsível para por aqui. Todo o resto em “Dois Irmãos” é surpreendente.

O autor deste romance é Milton Hatoum, manauara e descendente de libaneses, arquiteto de formação, escritor, tradutor e professor de literatura.

Miltom Hatoum

Quando Hatoum publicou seu primeiro romance, “Relato de um Certo Oriente”, em 1989, já havia redirecionado sua vida da arquitetura para a literatura e vivido em Madri, Barcelona e Paris. Dez anos depois, publicava “Dois Irmãos”, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti 2001 de melhor romance.

O romance se desenrola a partir de uma breve introdução e mais 12 capítulos. Entre o começo e o primeiro capítulo, é possível perceber um deslocamento no tempo, ou seja, a narrativa não é linear. O momento inicial é de angústia, para apresentar a trama ao leitor. Outra característica essencial no desenvolvimento é que o narrador também é um personagem, uma testemunha ocular que, ao longo do romance e com todas as suas percepções, também vai resgatando suas próprias emoções.

“…Isso Domingas me contou. Mas muita coisa do que aconteceu eu mesmo vi, porque enxerguei de fora aquele pequeno mundo. Sim, de fora e às vezes distante. Mas fui o observador desse jogo e presenciei muitas cartadas, até o lance final…”

Zana e Halim nasceram no Líbano mas vieram ainda pequenos para Manaus. Ela e o pai, Galib, a quem muito amava, partiram da pequena cidade de Biblos. Ele, sozinho com um tio, para se tornar um mascate qualquer. No Brasil, Halim se apaixona por Zana e declara seu amor através de um gazal, uma forma métrica específica de exprimir poesia em árabe. Se casam e Halim alimenta a esperança de que não tivessem filhos pois sua paixão por Zana bastaria para toda a vida. Mesmo assim, Zana o convence e eles têm três filhos: Yakub, Omar e Rânia. Os dois primeiros dão o título ao romance. O conflito inicial é o nascimento dos gêmeos e a negação de Halim em dividir a esposa com a família, o que faz com que ele tenha dificuldades na relação com os filhos.

“…Os filhos haviam se intrometido na vida de Halim, e ele nunca se conformou com isso. No entanto, eram filhos, e conviveu com eles, contava-lhes histórias, cuidava deles em momentos esparsos…”

cartao-postal-Manaus

Vista aérea da Cidade de Manaus na Década de 40 – Crédito: Jacqueline Nascimento

Quis o autor que Yakub fosse o primeiro a nascer e fosse caracterizado com personalidade racional, mais sério e introvertido, até egoísta. Em contraposição, Omar, chamado de caçula por ter nascido minutos depois do irmão, super protegido pela mãe. De personalidade emocional, carismático e extrovertido, até libertino.

Assim começa o antagonismo entre os irmãos. Um antagonismo latente e que se intensifica, agravado pelo comportamento de Zana com o caçula e também da própria irmã Rânia, ambas atraídas pelo magnetismo de Omar. Quando os irmãos começam a disputar Lívia, na fase dos hormônios em alta, a situação foge ao controle e surge o primeiro sinal de que os atritos poderiam se agravar. O que faz o pai? Escolhe um dos dois irmãos e o manda sozinho para o Líbano. Está formado o segundo conflito, mais claramente delineado, e que rompe qualquer possibilidade de solução. Trégua disfarçada.

Em paralelo ao drama central mas totalmente interligado, Hatoum introduz outro tema através de Domingas. Ela é uma índia, órfã, que ainda bem pequena vai para a casa da família caracterizando a típica relação de subserviência – “adoção” em troca de prestação de serviços – como era muito comum até bem pouco tempo atrás e, infelizmente, ainda se vê. Desta situação, se estabelecem vínculos que sempre se observam em relações de convivência mas que, inevitavelmente, também extrapolam os limites do respeito.

“…Na época em que abriram a loja, uma freira, Irmãzinha de Jesus, ofereceu-lhes uma órfã, já batizada e alfabetizada. Domingas, uma beleza de cunhantã, cresceu nos fundos da casa, onde havia dois quartos, separados por árvores e palmeiras…”

Ao comportamento social, adiciona-se o contexto do período posterior ao ciclo da borracha que havia permitido que Manaus se modernizasse atraindo imigrantes e fluxos de investimento. Dessa transformação social restaram as construções no estilo europeu mas a descrição do autor, para apresentar a cidade, já ressalta seu declínio econômico e os impactos da primeira guerra mundial

“…Fora assim durante os anos de guerra: Manaus às escuras, seus moradores acotovelando-se diante dos açougues e empórios, disputando um naco de carne, um pacote de arroz, feijão, sal ou café. Havia racionamento de energia, e um ovo valia ouro… Conversavam em volta da mesa sobre isso: os anos da guerra, os acampamentos miseráveis nos subúrbios de Manaus, onde se amontoavam ex-seringueiros…”

Teatro Amazonas Autor Pontanegra

Teatro Amazonas em Manaus – Crédito: Pontanegra

Um segundo momento ocorre quando as atenções políticas e econômicas já tinham sido definitivamente desviadas para Brasília, inaugurada em 1960, e logo depois com o golpe militar de 1964 e o período sombrio da ditadura.

“…Ele sabia que Manaus se tornara uma cidade ocupada. As escolas e os cinemas tinham sido fechados, lanchas da Marinha patrulhavam a baía do Negro, e as estações de rádio transmitiam comunicados do Comando Militar da Amazônia…”

Assim, enquanto Yakub segue seu caminho, se torna engenheiro e vai para São Paulo, Omar mergulha na boemia, sempre respaldado pela mãe, e Rânia assume gradativamente o comércio da família que já havia tido fases mais prósperas. Contudo, as diferenças não se atenuam e formam o caldeirão de sentimentos que entornam até transbordar por completo. Com altas doses de zelo, ciúmes, inveja, orgulho e ressentimentos.

Ler “Dois Irmãos” não é somente uma imersão em um drama familiar. É também uma experiência em um ambiente impactado pelos acontecimentos dos meados do Século XX e situado em uma capital que, em um país de território continental como o Brasil, parece distante daqueles que vivem nas Regiões Sudeste e Sul. Isso, por si só, já bastaria para torná-lo único. Mas, para completar a liga, a origem oriental da família torna a leitura ainda mais rica em detalhes culturais.

Muitos autores pesquisam temas externos ao seu próprio mundo ou experiências. De qualquer forma, acredito que um dos pontos mais interessantes e que deva ser um diferencial para a produção de Milton Hatoum seja justamente o fato de que sua escrita gira em torno do seu próprio universo e influências. É uma vantagem competitiva.

A contextualização no espaço e no tempo também tornam esse livro essencial na Literatura Brasileira Contemporânea. Hatoum é um autor a ser acompanhado pela nova geração pois representa um elo presente com o passado recente.

Voltando aos irmãos, talvez Zana tenha dado a chave para entender a dicotomia entre eles, entre o amor e o ódio, a razão e a emoção, a esperança e a amargura. É que, na verdade, há uma linha tênue entre os opostos. E essa linha quase os aproxima.

“Adiou a resposta e se levantou de supetão, meio amarga, meio esperançosa, dizendo a Domingas uma frase que no futuro repetiria tal uma prece: A esperança e a amargura… São parecidas.”


Se gostou e quer mais…

A página oficial do autor Milton Hatoum oferece sua biografia, suas obras e notícias relacionadas. Acesse aqui.

Para conhecer um pouco melhor o autor, também recomendo essa entrevista feita pelo Dr. Drauzio Varella. Eu assisti e me fez ter ainda mais vontade de ler seus livros. Veja aqui.

A Companhia das Letras lançou pelo seu selo, Quadrinhos na Cia, a história em quadrinhos de “Dois Irmãos”. A adaptação foi desenvolvida por Fábio Moon e Gabriel Bá, dois quadrinistas que, por acaso, também são irmãos e dão vida à história com os traços. Uma oportunidade pra quem, depois de ler o original, quiser comparar sua imaginação com a da arte do HQ.

Capa Dois Irmãos HQ

Os quatro romances escritos por Milton Hatoum podem ser considerados clássicos da Literatura Brasileira Contemporânea. “Relato de um Certo Oriente”(1989), seu romance de estreia recebeu o Prêmio Jabuti 1990 de melhor romance. “Cinzas do Norte”(2005) e “Órfãos do Eldorado”(2008) compõem sua obra publicada pela Companhia das Letras. Toda a obra do autor tem como pano de fundo a relação da Região Norte com o Oriente ou a Europa.

Capa Relato de umcerto orienteCapa Dois IrmãosCapa Cinzas do NorteCapa Órfãos do Eldorado

A última publicação de Hatoum é o livro de contos “A Cidade Ilhada”, lançado em 2009.

Capa A Cidade Ilhada


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando nas imagens abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título Original: DOIS IRMÃOS

Autor: MILTON HATOUM

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 272

Ano: 2000

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 9788535900132

Para ver o link do livro na página da Editora Companhia das Letras, clique aqui.

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