Formas de volver a casa

“Una vez me perdí. A los seis o siete años. Venía distraído y de repente ya no vi a mis padres…”

Formas de voltar para casa (na tradução para  português) começa com o menino que se perde dos pais. Cena corriqueira entre as crianças… Os pais se desesperam mas ele encontra o caminho de volta. Já no sentido subjetivo, com a passagem do tempo, as formas de voltar para casa se transformam em caminhos imaginários na tentativa de compreender sua própria história.

Reseña en español abajo

Alejandro Zambra, o autor dessa obra, é um jovem escritor chileno já reconhecido pela crítica literária nacional e internacional como um representante de peso da literatura contemporânea em espanhol. É também poeta e professor de literatura. Seus livros já foram traduzidos em mais de 10 idiomas, inclusive para o português. Zambra não é mais somente uma promessa porque já colhe os louros do seu trabalho. Formas de voltar para casa, lançado em 2011 pela editora espanhola Anagrama e em 2014 pela brasileira Cosac Naify, foi reconhecido com o Prêmio Altazor e o Prêmio do Conselho Nacional do Livro, no Chile.

Alejandro Zamba Penguin Random House Beowulf Sheehan

Foto: Penguin Random House – Beowulf Sheehan

Esse livro veio ao meu encontro na busca de autores latinos da nova geração, com o comentário de que o autor é muito trabalhado nas escolas como literatura paradidática. Ao final, entendi a razão.

Como adquiri a edição em espanhol – Formas de volver a casa – peço licença para citar os trechos nesse idioma porque, se fizesse uma tradução livre, poderia ficar diferente da versão em português que espero que essa resenha desperte a leitura.

Digamos que a obra é uma ficção com elementos da auto-biografia. Em termos de estrutura, está separada em 4 partes sendo que estas também se subdividem em pequenos fragmentos facilitando a compreensão.

I.   Personajes secundarios

II.  La literatura de los padres

III. La literatura de los hijos

IV. Estamos bien

Já a obra, como ideia, percebe-se como uma história dentro de outra história. A primeira, é a do menino. O ano é 1985 e ele tem 9 anos. Vive com os pais em um município (comuna) da Região Metropolitana de Santiago chamada Maipú. O contexto é o período de ditadura militar no Chile que se iniciou com o golpe militar em 11 de setembro de 1973. O dia é o do terremoto ocorrido em 3 de março de 1985, quando as placas de Nazca e da Sudamérica resolveram se encontrar e provocaram o chamado Terremoto de Algarrobo, com epicentro na costa central de Valparaíso e grau 7,8 na escala richter.

Dessa circunstância, o menino conhece Claudia e eles se tornam amigos e cúmplices em uma brincadeira de espião. O que para ele é uma brincadeira, para ela é um jogo real. E assim o autor coloca esse outro “choque de placas” que consiste nas diferentes experiências familiares com a ditadura. A família de Claudia sofre diretamente os reflexos da repressão e a do menino a ignora.

Durante sua infância, seja protegido pela sua própria ingenuidade seja pela dos pais que, como muitos, aceitavam compassivamente o regime através de um distanciamento político que lhes era favorável, o menino segue sua trajetória acumulando sutis experiências em suas memórias.

“…En cuanto a Pinochet, para mí era un personaje de la televisión que conducía un programa sin horario fijo, y lo odiaba por eso, por las aburridas cadenas nacionales que interrumpían la programación en las mejores partes. Tiempo después lo odié por hijo de puta, por asesino…”

O tempo passa e pouco a pouco ele se distancia dos pais novamente. Dessa vez um distanciamento emocional, na medida em que vai perdendo sua ingenuidade. Depois um distanciamento físico mesmo, quando sai de casa. No entanto, já adulto, professor e escritor, ele se utiliza dessas lembranças para falar de seus afetos e dores, da necessidade de criar um registro pessoal e paralelo desse período da história do Chile para novas gerações, diferente de versões oficiais, através da escritura de um romance.

“…Mientras los adultos mataban o eran muertos, nosotros hacíamos dibujos en un rincón. Mientras el país se caía a pedazos nosotros aprendíamos a hablar, a caminar, a doblar las servilletas en forma de barcos, de aviones…”

“Entonces yo acababa de cumplir trece años y empezaba tardíamente a conocer a mis compañeros: hijos de gente asesinada, torturada y desaparecida. Hijos de victimarios, también. Niños ricos, pobres, buenos, malos. Ricos buenos, ricos malos, pobres buenos, pobres malos.”

Zambra conduz o leitor com maestria tanto por sua habilidade de desenvolver a ficção quanto por costurar sutilmente o passado e o presente. Ele não abandona a narrativa ficcional mas, de tantas menções que aludem à sua própria história, só cabe ao leitor constatar que o menino que se tornou escritor, que nasceu em 1975 no limiar da ditadura, que viveu em Maipú, que estudou Literatura na Universidade do Chile, é sua sombra.

E é ela, a literatura, que faz essa ponte entre a ingenuidade e a realidade, a angústia e a terapia, a tristeza e a solidão. São os livros os responsáveis pelo caminho do conhecimento e é a escritura que resgata seus remorsos.

“De todos los presentes yo era el único que provenía de una familia sin muertos, y esa constatación me llenó de una extraña amargura: mis amigos habían crecido leyendo los libros que sus padres o sus hermanos muertos habían dejado en casa. Pero en mi familia no había muertos ni había libros.”

É incrivelmente forte a imagem que o autor transmite da escolha entre a passividade ou o posicionamento das pessoas no cenário político dos Anos 80 no Chile. Foram 16 anos de governo autoritário (1973-1990) que coincidiram com parte do período de ditadura militar que vivemos no Brasil (1964-1985) e também com outros períodos de governos de natureza autoritária em outros países da América Latina. Não importa o país, o preço da escolha sempre é alto e, nesse caso, a fatura é passada em função da opção supostamente mais fácil.

“No creo en esta democracia, me dijo, Chile es y seguirá siendo un campo de batalla. Me preguntó si militaba, le dije que no. Me preguntó por mi familia, le dije que durante la dictadura mis padres se habían mantenido al margen. El profesor me miró con curiosidad o con desprecio – me miró con curiosidad pero sentí que en su mirada había también desprecio.” 

“Todos estaban metidos en política, mamá. Usted también. Ustedes. Al no participar apoyaban a la dictadura.”

A importância deste tipo de literatura está justamente no fato de contrapor versões oficiais com versões pessoais. Seria, como bem distinguiu o autor, a sutil diferença entre a literatura dos pais e a literatura dos filhos.

Já a importância da escritura não é meramente uma forma de expressão. É mais que isso, é como um método próprio de auto-conhecimento. É o caminho de volta para casa.

“Leer es cubrirse la cara. Y escribir es mostrarla.”


Se gostou e quer mais…

Formas de voltar para casa é o terceiro romance traduzido para o português de Alejandro Zambra. Os primeiros foram Bonsái e A vida privada das árvores, ambos lançados em 2014 pela Cosac Naify que encerrou sua atividade em 2015, não sem antes lançar também o livro de contos de Zambra, Meus documentos.

As edições originais, em espanhol foram publicadas pela Editora Anagrama que é uma editora espanhola com sede em Barcelona. Bonsái é de 2006, La vida privada de los árboles de 2007; Formas de volver a casa de 2011 e Mis documentos de 2013.


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: FORMAS DE VOLTAR PARA CASA

Título Original: FORMAS DE VOLVER A CASA

Autor: ALEJANDRO ZAMBRA

Gênero: Ficção / Biografia

Nr. Páginas: 164

Ano: 2011

Editora: Anagrama

ISBN: 9788433977434

Para ver o link da edição em espanhol na página da Editora Anagrama, clique aqui.

Para ver o link da edição em português na página da Amazon Brasil, pela Editora Cosac Naify, clique aqui.


Reseña en español

Formas de volver a casa empieza con una escena muy frecuente en la vida real: un niño que se aleja de sus padres y se pierde. Los padres se desesperan pero él encuentra el camino para volver. Más allá de esta expresión literal del libro, en el sentido subjetivo y metafórico, con el paso del tiempo, las formas de volver a casa se convierten en la tentativa de comprender su propia historia.

Alejandro Zambra, el autor de esta obra, es un joven escritor chileno ya reconocido por la crítica literaria nacional e internacional como un representante de peso da literatura contemporánea en español. También es poeta y profesor de literatura. Sus libros ya fueron traducidos a más de diez idiomas, incluso al portugués. Zambra no es solo una promesa porque ya cosecha lo que sembró de su trabajo. Formas de volver a casa, publicado en 2011 por la editorial española Anagrama y en 2014 por la brasileña Cosac Naify, fue reconocido con el Premio Altazor y el Premio del Consejo Nacional del Libro, en Chile.

Este libro vino a mí en la búsqueda de autores latinos de la nueva generación, con el comentario de que el autor es muy estudiado en los colegios como literatura paradidática. Al fin, comprendí la razón.

La obra es una ficción con elementos autobiográficos. En términos de estructura, está separada en 4 partes, las que también se subdividen en pequeños fragmentos facilitando la comprensión.

Como idea, se nota como una historia dentro de otra. La primera, es la del niño. El año es 1985 y él tiene 9 años. Vive con los padres en una comuna de la Región Metropolitana de Santiago llamada Maipú. El contexto es el período de dictadura militar en Chile que empezó con el golpe militar en 11 de septiembre de 1973. El día es el 3 de marzo de 1985, cuando las placas de Nazca y de la Sudamérica resuelven encontrarse y provocan el llamado Terremoto de Algarrobo con epicentro en la costa central de Valparaíso y grado 7,8 en la escala richter.

En aquella circunstancia, el niño conoce a Claudia y ellos se convierten en amigos y cúmplices en un juego de espionaje. Lo que para él es una broma, para ella es real. Y así el autor presenta ese otro “choque de placas” que consiste en las diferentes experiencias familiares con la dictadura. La familia de Claudia sufre directamente los efectos de la represión y la del niño los ignora.

Durante la infancia, sea protegido por su propia ingenuidad, sea por la de los padres que, como muchos, aceptaban complacientes el régimen a través de un distanciamiento político que les era favorable, el niño sigue su trayectoria acumulando experiencias sutiles en su memoria.

“…En cuanto a Pinochet, para mí era un personaje de la televisión que conducía un programa sin horario fijo, y lo odiaba por eso, por las aburridas cadenas nacionales que interrumpían la programación en las mejores partes. Tiempo después lo odié por hijo de puta, por asesino…”

El tiempo pasa y poco a poco él se aleja de los padres nuevamente. Desde ese momento, el niño sufre de un distanciamiento emocional, en la medida en que pierde su ingenuidad. Después ocurre un alejamiento físico, cuando sale de casa. Sin embargo, ya adulto, profesor y escritor, él utiliza esos recuerdos para hablar de los afectos y dolores, de la necesidad de crear un registro personal y paralelo, no oficial de ese período en la historia de Chile para nuevas generaciones, a través de la escritura de una novela.

“…Mientras los adultos mataban o eran muertos, nosotros hacíamos dibujos en un rincón. Mientras el país se caía a pedazos nosotros aprendíamos a hablar, a caminar, a doblar las servilletas en forma de barcos, de aviones…” 

“Entonces yo acababa de cumplir trece años y empezaba tardíamente a conocer a mis compañeros: hijos de gente asesinada, torturada y desaparecida. Hijos de victimarios, también. Niños ricos, pobres, buenos, malos. Ricos buenos, ricos malos, pobres buenos, pobres malos.”

Zambra conduce al lector con maestría tanto por su habilidad en desarrollar la ficción cuanto por unir sutilmente el pasado y el presente. Él no abandona la narración ficcional pero, de tantas menciones que aluden a su propia historia, solo queda al lector constatar que el niño que se convirtió escritor, que nació en 1975 en el limiar de la dictadura, que vivió en Maipú, que estudió en la Universidad de Chile, es el mismo.

Y es ella, la literatura, que hace esa conexión entre la ingenuidad y la realidad, la angustia e la terapia, la tristeza y la soledad. Son los libros los responsables por el camino del conocimiento y es la escritura que rescata sus remordimientos.

“De todos los presentes yo era el único que provenía de una familia sin muertos, y esa constatación me llenó de una extraña amargura: mis amigos habían crecido leyendo los libros que sus padres o sus hermanos muertos habían dejado en casa. Pero en mi familia no había muertos ni había libros.”

Es increíblemente fuerte la imagen que el autor transmite de la opción entre la pasividad o el posicionamiento de las personas en el escenario político de los años 80 en Chile. Fueron 16 años de gobierno autoritario (1973-1990) que coincidieron en parte del período de la dictadura militar que en Brasil (1964-1985) y también con otros períodos de gobiernos de naturaleza autoritaria en otros países de América Latina. No importa el país, el precio de la elección siempre es alto y, en ese caso, la factura es pasada por la opción supuestamente más fácil.

“No creo en esta democracia, me dijo, Chile es y seguirá siendo un campo de batalla. Me preguntó si militaba, le dije que no. Me preguntó por mi familia, le dije que durante la dictadura mis padres se habían mantenido al margen. El profesor me miró con curiosidad o con desprecio – me miró con curiosidad pero sentí que en su mirada había también desprecio.” 

“Todos estaban metidos en política, mamá. Usted también. Ustedes. Al no participar apoyaban a la dictadura.”

La importancia de este tipo de literatura está justamente en el hecho de contrastar las versiones oficiales con versiones personales. Sería, como bien diferenció el autor, la sutil diferencia entre la literatura de los padres e la literatura de los hijos.

Por otro lado, la importancia de la escritura no es meramente una forma de expresión. Más que eso, es como un método propio de auto-conocimiento. Es el camino de volver a casa.

“Leer es cubrirse la cara. Y escribir es mostrarla.”

7 comentários em “Formas de volver a casa

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  1. Olá Bárbara, fui apresentado ao seu blog de resumos e indicações pela minha amiga Patricia Mussili.
    E foi uma ótima recomendação que guardo como favorita para facilitar meus acessos e nunca esquecer desse cantinho especial da internet.
    Frequentemente acesso este espaço e tenho ótimas surpresas ao encontrar bons apanhados que fazem despertar a vontade de ler.
    Um bom exemplo é o livro “Formas de voltar para casa”. Seu resumo abriu meu apetite por essa leitura.

    Leonardo Simes

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Leonardo! Isso me deixa muito feliz! Esse espaço tem exatamente esse objetivo que é compartilhar leituras que inspirem e que nos tragam crescimento pessoal. Fique à vontade por aqui. Um prazer te conhecer e saber das suas impressões 🙂

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    1. Li sua resenha e realmente concordo com você que, para quem gosta de escrever, é muito interessante conhecer a escritura de Zambra. Te recomendo também um livro da escritora Rosa Montero: “A louca da casa”. Sobre a escrita e a imaginação. Obrigada pela referência na sua resenha. Vou te acompanhar 🙂

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