A hora da estrela

“Tudo no mundo começou com um sim…”

Treze títulos para uma obra com apenas 87 páginas. Uma forma de expressar a intensidade da realidade despercebida, que passa na janela todos os dias, mas não se vê.

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Essa é a história de uma mulher invisível. Como diz o narrador, Rodrigo S.M. “… é claro que a história é verdadeira embora inventada…”. Macabéa é uma nordestina de Alagoas, que veio ao mundo num acaso, que não teve escolha, que não conheceu afeto, que não aprendeu quase nada a não ser datilografia embora fosse analfabeta funcional. E que não sabia que existia.

Clarice Lispector, a autora, nasceu em 1920. Veio da Ucrânia muito pequena com a família por causa das perseguições aos judeus e foi viver em Maceió e depois em Recife até a adolescência. Portanto, se considerava uma brasileira que apenas nasceu fora do território… De algo se deu conta quando viveu no Nordeste. Que colocou pra fora, de uma só vez, quando escreveu “A Hora da Estrela”.

Clarice_Lispector Fonte da imagem Fraco e Moura

Crédito: Fraco e Moura

Dois anos depois de seu nascimento, em 1922, nomes de peso da Cultura Brasileira como Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Di Cavalcanti e Mário de Andrade, entre outros, se reuniam para celebrar o centenário da Independência Política do Brasil em torno desse novo conceito que buscava uma identidade nacional embora o público que tinha acesso a essas manifestações ainda cultivasse o gosto da arte inspirada na Europa.

Semana Arte Moderna

Nessa época tomava força o movimento literário conhecido como Modernismo e a obra de Clarice pertence a um período posterior, o Pós-Modernismo. Era o momento de ir além da busca pela identidade, falar da realidade brasileira dentro de um contexto maior, seja no aspecto universal ou até mesmo emocional.

Menos de dois meses antes de nos deixar, em 1977, Clarice Lispector terminou de escrever “A Hora da Estrela que é reconhecida como uma de suas grandes obras. E nela expôs uma ferida aberta, com as características típicas do estilo literário desenvolvido no período. A história tem uma problemática bem brasileira que é a do migrante nordestino, sem nenhum tipo de perspectiva e duramente estigmatizado, mas aprofunda um olhar da miséria humana e também da condição feminina.

“…Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?”

Logo no início, já nos depara uma surpresa porque Clarice se distancia e cria um personagem que, na verdade, é o narrador, Rodrigo S.M.. É ele quem vai contar a história de Macabéa mas de uma forma tão ressentida, por vezes grosseira, que pode despertar no leitor um sentimento de raiva. Seria um jogo de Clarice? A sensação é que o incômodo é proposital para provocar. Ou seja, por esse aspecto já se justifica que, embora se trate de um pequeno livro, as emoções são inversamente proporcionais ao seu tamanho. Inclusive, o ideal é que esse livro seja consumido em dose única. Quero dizer, lido de uma só vez para facilitar a imersão.

Rodrigo S.M. então é o contador dessa história. Demonstra precisar contá-la porque senão enlouqueceria. Ele conhece Macabéa. Ou pelo menos conhece várias Macabéas. Não tem papas na língua, a classifica, ou melhor, desclassifica, não como ser invisível que é para sociedade mas como seria a mais desprezível construção de alguém que não merece “ser”. É muito duro mas ao mesmo tempo passa um sofrimento que, um pouquinho mais pra frente da história, entendemos. A parte inicial é uma conversa de Rodrigo com o leitor, que quer se explicar porque escreve sobre a nordestina.

“…Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém…”

De sorte, Macabéa não tinha nada. Nasceu, ficou órfã e, pra não dizer que “sem eira nem beira”, teve uma tia beata que tratou de enquadrá-la na realidade da vida. Quando a tia morre e ela fica só de vez , vai para o Rio de Janeiro viver entre a Rua do Acre e a Rua do Lavradio. Não tinha consciência de existir por isso sua vida era o trabalho como datilógrafa que a fez desculpar-se por ser avisada que era ruim, ouvir a rádio relógio para saber a “hora certa e cultura”, fazer coleção de anúncios, lembrar da farinha seca da infância, conversar sobre parafusos e pregos e gostar de coca-cola. Nos momentos de alguma satisfação íntima, se permitia pintar as unhas de vermelho. E imaginava que haveria de existir a hora em que alguém como ela se tornaria “brilhante como estrela de cinema, é o instante da glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes…”.

Além do seu patrão Raimundo e de sua companheira de trabalho Glória, aparece em sua vida Olímpico de Jesus, o namorado (se é que se pode chamar assim). Nordestino como ela, mas do sertão da Paraíba. A mesma origem não os fazia companheiros de jornada. Olímpico é o antagonista mas desperta a mesma dó que Macabéa pois, ao contrário dela, também não se situa, acredita que sua hora de estrela é bem mais acessível que a dela. Mas não por isso perde a oportunidade de humilhar a moça.

“…Você não vai entender mas eu vou lhe dizer uma coisa: ainda se encontra mulher barata. Você me custou pouco, um cafezinho. Não vou gastar mais nada com você, está bem?”

“…Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. Me desculpe se eu lhe ofendi, mas sou sincero. Você está ofendida?”

Para completar, a amiga Glória não é tão amiga assim e também representa o que Macabéa não pode ser. Tem família, é do sudeste, é estenógrafa, bonita…

“- Me desculpe eu perguntar: ser feia dói?

-Nunca pensei nisso, acho que dói um pouquinho. Mas eu lhe pergunto se é você que é feia sente dor.

-Eu não sou feia!!!, gritou Glória”

E é a amiga que aproxima Macabéa da sua hora da estrela aconselhando-a a ir a uma cartomante e resolver seus problemas de uma vez.

“Macabéa separou um monte com a mão trêmula: pela primeira vez ia ter um destino. Madama Carlota era um ponto alto na sua existência.”

“A Hora da Estrela” é uma obra importante não somente pela denúncia em forma de literatura, pela história em si mas principalmente por saber que é a despedida da autora. Muito dela é exposto através dos personagens e do contexto. É admirável sua grandeza de ter transmitido essa mensagem e, mais do que isso, ter tido a força de usar seu processo criativo em um momento tão sensível e de uma forma tão trabalhada e profunda.

Lembro de ter lido esse livro em algum momento da vida escolar. E não gostei porque não o entendi. Essa não é definitivamente uma leitura amena. Mas hoje, com outros olhos, absolutamente comovida com a hora da estrela, me pergunto que tempo de morangos são esses…

“A Literatura deve ter objetivos profundos e universalistas: deve fazer refletir e questionar sobre um sentido para a vida e, principalmente, sobre o destino do homem na vida”

Clarice Lispector


Se gostou e quer mais…

A Editora Rocco tem uma página especial para Clarice Lispector que relaciona suas obras, a cronologia de sua biografia, vários vídeos com depoimentos e um pouco mais de informação sobre o trabalho da escritora. Veja nesse link.

Os romances e contos da autora foram recém lançados pela editora com novo tratamento gráfico e revisão de texto. Em especial, minha próxima leitura para conhecer ainda mais Clarice será “Todos os Contos”, uma seleção de 85 contos, organizada pelo pesquisador e biógrafo Benjamin Moser, tendo sido a coletânea considerada um dos 100 melhores livros de 2015 pelo The New York Times.

Todos os contos

No Blog da editora, há também um artigo do crítico literário Silviano Santiago, “A política em Clarice Lispector”, que traz uma discussão mais aprofundada da história e da importância de Clarice dentro de um contexto político e social que a moldou como escritora. Leia aqui.

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“Ladeada pelo pintor Carlos Scliar e o arquiteto Oscar Niemeyer, ambos conhecidos membros do Partido Comunista, Clarice participa em 1968 de uma passeata contra a ditadura militar.”

“A Hora da Estrela” foi adaptado para o cinema em 1985 por Suzana Amaral sendo Macabéa interpretada por Marcélia Cartaxo e Olímpico por José Dumont. Suzana ganhou o prêmio da crítica no Festival de Berlim e de melhor diretora no Festival de Havanna e de Brasília. Marcela ganhou o Urso de Prata em Berlim e o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília assim como Dumont, o de melhor ator. Nesse festival, também levaram o prêmio de melhor filme, fotografia e edição. Vale conferir. Veja o trailer.

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Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título: A HORA DA ESTRELA

Autor: CLARICE LISPECTOR

Gênero: Ficção / Romance

Nr. Páginas: 87

Ano: 1977

Editora: Rocco

ISBN: 85-325-0812-X

Para ver o link do livro na página da Editora Rocco, clique aqui.

2 comentários em “A hora da estrela

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  1. Adoro ler , tenho sempre alguns livros na minha mesinha de cabeceira mas confesso q ainda não li Clarice . Será , com certeza , o próximo , gostei da resenha , obrigada , Bárbara Mussili ,tenho acompanhado o seu blog c mt interesse !!!

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