Iracema

“Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba…”

Quando o cearense José de Alencar nasceu, em 1829, os franceses Debret e Taunay, assim como outros da Missão Artística Francesa, já haviam retratado as cenas de um Rio de Janeiro idílico quase primitivo mas também denunciado uma sociedade escravocrata e uma cidade precária.

Desde aí, até 1865, quando publicou o romance indianista Iracema, a busca da identidade nacional trilhou o caminho de estabelecer um eixo central baseado tanto na natureza quanto na figura do índio, o elemento nativo das terras brasileiras, portanto, um dos representantes da tríade da origem do povo brasileiro. Essa visão deu a liga para o estilo literário conhecido como Romantismo e assim se classificou uma das obras mais características desse período que tem uma índia como sua grande heroína.

“Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.”

José de Alencar se formou em Direito em 1850. Além de advogar, começou a escrever folhetins para o jornal Correio Mercantil e se tornou redator-gerente do Diário do Rio de Janeiro. A primeira edição de O Guarani (1857) foi publicada nesse jornal, como folhetim, e conquistou os leitores. Nesse momento, sua produção era crescente e refletia seu conhecimento literário. A obra Iracema foi elogiada publicamente por Machado de Assis e Alencar ficou lisonjeado. Quando a Academia Brasileira de Letras foi criada em 1897, depois da morte do escritor por tuberculose em 1877, Machado ocupou a posição de número 23 e elegeu José de Alencar como patrono dessa cadeira.

jose-de-alencar

Em primeiro plano, Iracema é uma história de amor que se passa no interior do Ceará. A índia da tribo Tabajara é filha do pajé Araquém. Ela é a virgem que guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. A jurema é uma planta da qual se extrai um fruto que, misturado a outros ingredientes, seria usado na preparação de uma bebida que tem o poder de tirar da realidade quem a tome e tomada pelos guerreiros nas batalhas.

O momento em que se dá o romance é justamente o de início da ocupação das terras brasileiras pelos portugueses e, em um primeiro encontro nada romântico no meio das matas, Iracema se depara com Martim, um português em missão de colonização. Antes de perguntar a que veio, a índia lhe dá uma flechada mas depois quebra com ele a flecha que era a maneira simbólica de estabelecer a paz entre dois guerreiros inimigos e o leva para sua tribo. O encanto entre Iracema e Martim começa a brotar.

“De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.”

Já não bastasse que a pureza da índia é mortal, o maior guerreiro da sua tribo, Irapuã, é apaixonado por ela e os Tabajaras estão em guerra com a tribo que ocupa o litoral, os Pitiguaras, sendo que um dos seus melhores guerreiros, Poti, é amigo fiel de Martim. Esse é o mote com os principais ingredientes para conflitos e disputas.

Em segundo plano, a obra é uma representação simbólica da miscigenação racial do povo brasileiro, no caso entre a raça nativa e o europeu pois, da união de Iracema e Martim, nasce Moacir, o primeiro cearense. O nome significa filho do sofrimento e essa dor de Iracema também representa a fuga para viver o amor proibido e não totalmente correspondido.

“Nessa hora em que o canto guerreiro dos pitiguaras celebrava a derrota dos guaraciabas, o primeiro filho que o sangue da raça branca gerara nessa terra da liberdade via a luz nos campos da Porangaba.”

Com essas representações, José de Alencar transmite uma mensagem aos que leram seu folhetim em 1865 e aos que o leem até hoje, tornando-o uma obra perene na história da literatura brasileira. Até porque, além da origem étnica, o autor ainda nos surpreende ao final com uma possível predestinação de nossa raça.

A narrativa do autor é de poesia em forma de prosa, muitas metáforas e extremo cuidado com cada descrição. Os capítulos são pequenos mas o vocabulário é diverso tanto pelo uso de vocábulos indígenas (o que na época do romance foi bem criticado) quanto da língua culta formal.

Na minha opinião, a leitura de uma obra como essa, que resiste ao tempo, é alimento para nossa alma e nutriente para nossas raízes para humildemente usar das metáforas tão lindamente criadas pelo autor.

Pode ser um pouco difícil no começo acostumar a uma linguagem mais rebuscada e a um estilo formal mas, como essa é uma obra já em domínio público, existem várias edições comentadas que facilitam a compreensão dos termos.

Outro aspecto que chama a atenção é a sina de Iracema. Uma figura feminina, guardiã de um rito sagrado, perfeita em sua descrição física e caráter, submissa tanto ao seu povo quanto ao homem que amou. Me pergunto até que ponto essa submissão feminina seria mais uma característica da sociedade “civilizada” do que propriamente da nativa.

“Iracema, depois que ofereceu aos guerreiros o licor de Tupã, saiu do bosque. Não permitia o rito que ela assistisse ao sono dos guerreiros e ouvisse falar dos sonhos.”

Ao final do romance, o leitor encontra o argumento histórico da lenda, exposto pelo autor, dando evidências da fundação do povoado que deu origem ao primeiro estabelecimento colonial do Ceará, na foz do Rio Jaguaribe, em 1603, ainda na época das capitanias hereditárias. No entanto, essa primeira tentativa foi frustrada e um português chamado Martim Soares Moreno, que lutou contra os invasores holandeses, é considerado o primeiro colonizador da região.

Sou mais uma a endossar que a leitura de Iracema não pode ser obrigatória no sentido literal mas sim pelo seu valor cultural para compreender o contexto em que a obra foi pensada e escrita. A lenda imaginada poderia ser real. E se não foi, é possível crer que passa próximo à realidade.

O prólogo e ao epílogo, feitos em forma de carta por José de Alencar ao amigo Dr. Jaguaribe, permite a sensação de participar da conversa dos dois e descobrir os sentimentos do autor diante da sua produção.

Vença qualquer resistência inicial e aguarde a surpresa de se emocionar com a lenda do Ceará, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba.

“Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a Lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.”


Se gostou e quer mais…

Na página da Academia Brasileira de Letras, pode-se encontrar o perfil acadêmico, a biografia, a bibliografia e alguns trechos selecionados das obras de José de Alencar. Acesse aqui.

Essa é a tela Iracema, retratada pelo pintor português José Maria Medeiros em 1884.

iracema_jose_maria_medeiros_1884

Ana Maria Tavares Cavalcanti, professora de História da Arte da Escola de Belas Artes da UFRJ, nos detalha em um texto apresentado no Simpósio Internacional “Paisagem e iconografia nacional na América Latina” que o autor se inspirou no seguinte trecho para representá-la:

“Inquieta Iracema pela ausência do esposo, sai em busca dele e chega à beira do lago, já quando as doces sombras da tarde vestiam os campos. Encontrando ali fincada, na areia da praia, a flecha do guerreiro transpassando um guaiamum, e de que pende um ramo de maracujá, enchem-se-lhe os olhos de lágrimas, interpretando as ordens que aquele símbolo lhe revela – como o guaiamum deve ela andar para trás, e como o maracujá, que guarda a flor até morrer, conservar a lembrança do esposo.”

Essa tela faz parte do acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e o texto está disponível neste link.

Já Antônio Parreiras retratou a índia em 1909 em uma tela no mesmo momento quando o sofrimento de Iracema já era de resignação da partida de seu amor e da nostalgia por ter abandonado sua tribo.

iracema_antonio_parreiras_1909

Essa tela faz parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo.

As representações ajudam ao leitor a visualizar a dor da heroína. Assim como o José Alencar nos oferece a história em forma de literatura, os artistas nos oferecem a literatura em forma de arte. Só nos resta agradecer.


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo pelas imagens abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉

 


 

Título: IRACEMA

Autor: JOSÉ DE ALENCAR

Gênero: Ficção – Romance

Nr. Páginas: depende da edição

Ano: 1865

Obra em domínio público – Edições disponíveis pela Panda Book, Penguin/Companhia das Letras e Bestbolso

2 comentários em “Iracema

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