2666

“La primera vez que Jean-Claude Pelletier leyó a Benno von Archimboldi fue en la Navidad de 1980, en París, en donde cursaba estudios universitarios de literatura alemana, a la edad de diecinueve años…”

O que se pode fazer quando se descobre uma grave doença? A finitude é algo que toca a todos em algum momento da vida mas, se dar conta de que realmente não resta tanto tempo quanto se imagina, pode provocar resoluções. Como escrever um livro por exemplo.

Reseña en español abajo

Não foi inusitado que Roberto Bolaño, escritor e poeta, chileno por nascimento mas latino-americano por opção, ao ser diagnosticado com uma doença no fígado e que terminaria por exigir um transplante que nunca foi realizado, decidiu por escrever uma colossal obra que se transformou em sua magnum opus, ou seja, a obra mais importante de sua vida. Assim nasceu 2666.

Nesse momento, Bolaño já era reconhecido pela crítica literária como um importante escritor em língua espanhola e por sua obra, que já era bem extensa e contundente, destacando seu livro Los detectives salvajes publicado em 1998. Anteriormente, havia percorrido um longo caminho para persistir na Literatura. Nasceu no Chile, viveu grande parte de sua breve vida no México e Espanha, onde finalmente se estabeleceu.

Toda a experiência acumulada pelo autor contribuiu para a concepção de 2666. Tinha Bolaño em mente a estrutura de cinco partes que formariam um tomo único e que, por fim, se relacionariam. Mesmo assim, a preocupação de ordem prática era que as partes fossem publicadas separadamente, uma por ano, de maneira a prover maior renda para sua família depois que ele se fosse. Não obstante as instruções, depois da sua morte em 2003 e da análise de todo o trabalho por seu amigo e crítico literário Ignacio Echevarría, seus herdeiros e o editor Jorge Herralde não puderam fazer com que prevalecesse este pedido diante da constatação de que o valor literário da obra era maior que a preocupação econômica.

roberto-bolano-divulgacao

O fio condutor do romance, que conecta as cinco partes e relaciona os personagens, está em Santa Teresa, uma cidade fictícia mas inspirada na real Ciudad Juárez, no México, e seu infeliz histórico de feminicídios ou assassinato de mulheres que ocorrem unicamente pelo fato de que sejam mulheres. Por isso, se pode afirmar que além de estar preparado para 1119 páginas, o leitor também tem que considerar que estas são muito densas. A verdade é que algumas estão além da densidade. De todas as formas, o esforço é absolutamente válido.

Bolaño começa a história por La parte de los críticos, onde se apresentam os especialistas em Literatura Alemã: o francês Jean-Claude Pelletier, o italiano Piero Morini, o espanhol Manuel Espinoza e a inglesa Liz Norton. Todos estudam a obra de um misterioso escritor alemão chamado Benno von Archimboldi. Ainda que ele seja indicado para o Nobel de Literatura, Archimboldi está mais para uma lenda que para uma pessoa real porque os críticos somente conhecem rumores sobre ele. Na busca por seu paradeiro, os quatro vão ao México, exatamente a Santa Teresa, onde se aproximam da realidade dos crimes e conhecem Óscar Malfitano.

La parte de Amalfitano é a segunda parte. Nela, se apresenta a tumultuada vida sentimental e emocional deste professor chileno que, depois de viver na Espanha, se transfere com sua filha para Santa Teresa para trabalhar na universidade local. Antes que a moça se transforme em mais uma trágica estatística desta cidade, Amalfitano intercede para que Fate mude seu destino, personagem da terceira parte.

La parte de Fate conta como o jornalista afro-americano Quincy Williams, conhecido como Fate, se envolve com a questão dos crimes em Santa Teresa. Inicialmente escalado para cobrir um combate de boxe, ele pressente que esses fatos deveriam ser objeto de investigação jornalística e conhece um dos presos suspeito dos crimes, Klaus Haas.

La parte de los crímenes é a parte mais difícil… São 352 páginas nas quais se descrevem os feminicídios como em um registro policial ou como parte de uma estatística que o autor localiza entre 1993 e 1997. Não há maneira de que se termine esta etapa sem alterar o equilíbrio. Assim como esses crimes verdadeiramente ocorreram e seguiram ocorrendo em Ciudad Juárez. A narração das mulheres assassinadas de forma brutal, com requintes de crueldade, depois de serem violadas e toda a gama de informações sobre elas é necessária para compreender a intenção do autor. Através das investigações, surgem outras histórias e personagens que compõem a parte policial da história como o investigador Juan de Dios Martínez e o suspeito Klaus.

La parte de Archimboldi é o fechamento. Nela se conta a vida do escritor como Hans Reiter, sua origem, sua adoração pela irmã mais nova Lotte Reiter, suas relações com a Baronesa Von Zumpe e Hugo Halder, sua participação como combatente na Segunda Guerra Mundial, seu começo como escritor até sua consagração quase anônima através do pseudônimo Archimboldi e o que ele tem a ver com o México.

Ou seja, ainda que se entenda fortemente as razões que justificavam que Bolaño orientasse a publicação de 2666 em cinco livros, fica claro porque seu pedido não foi atendido. Se perderia a imersão e o impacto da experiência da leitura contínua. Por mais que seja um enorme desafio.

A escrita de Bolaño é detalhista e avassaladora. Como exemplo, existe um parágrafo no livro com quase 7 páginas… É surpreendente que em uma novela tão longa e cheia de nuances, o autor não se tenha perdido, ao contrário, atuou como um Deus de sua história, que se conecta em todas as partes. Do mesmo modo, relacionou a literatura em seu aspecto mais teórico e a cultura academicista e intelectual com uma temática tão difícil como a violência contra as mulheres trazendo para a ficção uma realidade social que ainda é tremendamente atual.

Os feminicídios na fictícia Santa Teresa de 1993 trazem à tona uma denúncia sobre uma situação de extrema gravidade que persiste neste continente. Dependendo das razões sociais e históricas que contribuem para a desigualdade de gênero que afetam as mulheres até hoje, o machismo, a misoginia, as condições instáveis e de exploração no mercado de trabalho ainda levam a graves violações dos Direitos Humanos. Outros aspectos a considerar, como no caso real de Ciudad Juárez, são a prostituição, o crime organizado e o tráfico de drogas que somados a falta de uma legislação mais dura frente aos assassinatos, perpetuam a enorme violência contra as mulheres.

Então, o que quer dizer Bolaño com o título da obra? O que seria 2666? Ainda que as partes não estejam exatamente estruturadas em ordem cronológica, seria o título uma projeção no tempo? É conhecido que outra obra do autor faz referência a este número como uma data mas esta é uma pergunta que pode ser uma das curiosidades que despertam a leitura. Assim como o ano, outro elemento que incita o leitor é a epígrafe do livro, uma frase do poeta francês Charles Baudelaire (El viaje, Las flores del mal) que funciona como um aviso de que a experiência será, no mínimo, perturbadora.

“Un oasis de horror em medio de un desierto de aburrimiento” – Charles Baudelaire

Além de ter sido um êxito de crítica e vendas, 2666 também recebeu vários prêmios importantes como o Premio Ciudad de Barcelona e Premio Salambó na Espanha, o Premio Altazor no Chile e o National Book Critics Circle Award nos Estados Unidos. Pela crítica literária, foi reconhecido como o melhor livro de 2005 tanto na Espanha como na América Latina, o que impulsionou sua projeção internacional e tradução para outros idiomas. Bolaño já havia partido mas se transformou em um dos nomes do olimpo da Literatura Contemporânea.

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Capa da edição brasileira (Companhia das Letras)

Pode-se concluir então que seria impossível comentar sobre 2666 sem mencionar a história por trás desta obra, o que permite afirmar que além das cinco partes que a compõem, deveria haver uma sexta: La parte de Bolaño. Uma parte que poderia falar de legado. Teria deixado o autor uma mensagem subliminar para que estudássemos suas próprias obras e seu pensamento à exaustão como os críticos estudaram Archimboldi? O que teríamos a aprender?


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Título em Português: 2666

Título Original: 2666

Autor: ROBERTO BOLAÑO

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 1119 (espanhol) / 856 (português)

Ano: 2004 (espanhol) / 2010 (português)

Editora: Anagrama (espanhol) / Companhia das Letras (português)

ISBN: 9788433973184 (espanhol) / 9788535916485 (português)

Tradução para o português: Eduardo Brandão

Para ver o link do livro na página da Editora Anagrama, clique aqui.

Para ver o link do livro na página da Companhia das Letras, clique aqui.


Reseña en español

¿Qué se puede hacer frente al descubrimiento de una grave enfermedad? La finitud es algo que nos toca a todos en algún momento de la vida pero darse cuenta de que no le resta tanto tiempo cuanto se imagina, puede provocar resoluciones: cómo escribir un libro, por ejemplo.

No fue inusitado que Roberto Bolaño, escritor y poeta, chileno por nacimiento pero latinoamericano por opción, al ser diagnosticado con una enfermedad en el hígado y que terminaría por exigirle un trasplante que nunca ha sido realizado, decidiera escribir una obra colosal que resultó convertirse en su magnum opus, es decir, la obra más importante de su vida. Así nació 2666.

En este momento, Bolaño ya era reconocido por la crítica literaria como un importante escritor de la lengua hispánica y por su obra que ya era demasiado extensa y contundente, destacando su libro Los detectives salvajes publicado en 1998. Anteriormente, había recorrido un largo camino para persistir en la Literatura. Aunque naciera en Chile, vivió gran parte de su breve vida en México y España donde finalmente se estableció.

Toda la experiencia acumulada por el autor colaboró para la concepción de 2666. Tenía Bolaño en mente la estructura de cinco partes que formarían un tomo único y que, por fin, se relacionarían. Sin embargo, la preocupación de orden práctica era que las partes fueran publicadas separadamente, una por año, de manera de proveer mayores rentas a su familia después que él no estuviera más. No obstante las instrucciones, tras su muerte en 2003 y el análisis de todo el trabajo por su amigo y crítico literario Ignacio Echevarría, sus herederos y el editor Jorge Herralde no pudieron hacer prevalecer este pedido frente la constatación de que el valor literario de la obra era más grande que la preocupación económica.

El hilo conductor de esta novela, que conecta las cinco partes y relaciona los personajes, está en Santa Teresa, una ciudad ficticia pero inspirada en la real Ciudad Juárez, en México y su infeliz histórico de feminicidios o asesinatos de mujeres por el hecho que pertenezcan a este grupo. Por eso, se puede afirmar que además de que hay que estar listo para 1119 páginas, el lector también hay que considerar que estas son muy densas. La verdad es que algunas están más allá de la densidad. De todas maneras, el esfuerzo es absolutamente valido.

Bolaño empieza la historia por La parte de los críticos, donde se presentan los expertos en Literatura Alemana: el francés Jean-Claude Pelletier, el italiano Piero Morini, el español Manuel Espinoza y la inglesa Liz Norton. Todos estudian la obra de un misterioso escritor alemán llamado Benno von Archimboldi, quien pese ser indicado al Nobel de Literatura, está más para una leyenda que para una persona real porque a los críticos sólo les toca acceder a rumores sobre él. En la búsqueda por su paradero, los cuatro se van a México, exactamente a Santa Teresa, donde suelen acercarse de la realidad de delitos y conocen a Óscar Malfitano.

La parte de Amalfitano es la segunda parte. En ella, se presenta la tumultuosa vida sentimental y emocional de este profesor chileno que tras vivir en España, se traslada solo con su hija para Santa Teresa para trabajar en la universidad local. Antes que la chica se convirtiera en una trágica estadística de esta ciudad, Amalfitano intercede para que Fate cambie su destino, personaje de la tercera parte.

La parte de Fate cuenta cómo el periodista afroamericano Quincy Williams, conocido como Fate, se involucra con el tema de los crímenes en Santa Teresa. Inicialmente elegido para cubrir un combate de boxeo, él presiente que los crímenes deberían ser objeto de investigación reportera y conoce a uno de los detenidos, sospechoso de los crímenes, Klaus Haas.

La parte de los crímenes es la parte que hay que superar… Son 352 páginas en que se describen los feminicidios como en un registro policial o como parte de una estadística que el autor ubica entre 1993 y 1997. No hay forma de que se salga de esta parte sin alterar el equilibrio. Así como estos crímenes verdaderamente ocurrieron y siguieron ocurriendo en la Ciudad Juárez. La narración de las mujeres asesinadas de forma brutal, con requintes de crueldad, tras ser violadas y toda la gama de informaciones al respecto de ellas son desafortunadamente necesarias para comprender la intención del autor. A través de las investigaciones, surgen otras historias y personajes que caracterizan la parte policial de la novela como el policía Juan de Dios Martínez y el sospechoso Klaus.

La parte de Archimboldi es el cierre. En ella se cuenta la vida del escritor como Hans Reiter, su origen, su adoración por la hermana más nueva Lotte Reiter, sus relaciones con la baronesa Von Zumpe y Hugo Halder, su participación como combatiente en la Segunda Guerra Mundial, su comienzo como escritor hasta su consagración casi anónima a través del seudónimo de Archimboldi y que tiene que ver con México.

Aunque se entiendan fuertemente las razones que justificaban que Bolaño instruyera la publicación de 2666 en cinco libros, queda claro por qué no se ha atendido su pedido. Se perdería la inmersión y el impacto de la experiencia de la lectura continuada. Por más que represente un enorme desafío.

La escritura de Bolaño es detallista y avasalladora. Como ejemplo, hay un párrafo en el libro con casi 7 páginas… Es sorprendente que en una novela tan larga y tan llena de minucias, el autor no se pierda, al revés, actúa como el Dios de su historia, que la conecta en todos los matices. Del mismo modo, hizo relacionar la literatura en su aspecto más teórico y la cultura academicista e intelectual con una temática tan difícil como los crímenes contra las mujeres aportando para la ficción una realidad social que aun es tremendamente actual.

Los feminicidios en la ficticia Santa Teresa de 1993 traen a la luz una denuncia sobre una situación de extrema gravedad que aún persiste en este continente. Al variar las razones sociales e históricas que contribuyen para la desigualdad de genero que afectan las mujeres hasta hoy, el machismo, la misoginia, las condiciones inestables y de exploración en el mercado de trabajo aún llevan a graves violaciones de los derechos humanos. Otros aspectos a considerar, como en el caso real de la Ciudad Juárez, son la prostitución, el crimen organizado y el tráfico de drogas que sumados a la falta de una legislación más dura frente a los asesinatos, perpetúan la enorme violencia contra las mujeres.

¿Lo qué quiere decir Bolaño con el título de la obra? ¿Qué sería 2666? ¿Aunque las partes no estén exactamente estructuradas en orden cronológica, ¿sería el título una proyección en el tiempo? Es sabido que otra obra del autor hace referencia a este número como una fecha pero esta es una pregunta que puede ser una de las curiosidades que despiertan la lectura. Así como el año, otro elemento que incita el lector es la epígrafe del libro, una cita del poeta francés Charles Baudelaire (El viaje, Las flores del mal) que funciona como un aviso de que la experiencia será, por lo menos, perturbadora.

“Un oasis de horror en medio de un desierto de aburrimiento” – Charles Baudelaire

Además de que 2666 haya sido un éxito de crítica y venta, también le han sido otorgado premios importantes como el Premio Ciudad de Barcelona y Premio Salambó en España, el Premio Altazor en Chile y el National Book Critics Circle Award en Estados Unidos. Por la Crítica Literaria, ha sido reconocido el mejor libro de 2005 tanto en España como en la América Latina lo que impulsó su proyección internacional y la traducción para otros idiomas. Bolaño ya había partido; sin embargo, se convirtió en uno de los nombres del olimpo de la Literatura Contemporánea.

Conclúeyese desde entonces que sería imposible comentar 2666 sin mencionar la historia por detras de esta obra lo que permite afirmar que además de las cinco partes que la componen, debería haber una sexta: La parte de Bolaño. Una parte que podría hablar del legado. ¿Habría dejado el autor un mensaje subliminar para que estudiáramos sus propias obras y su pensamiento incansablemente, como los críticos estudiaron Archimboldi? ¿Qué habríamos de aprender?

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