Rakushisha

“Para andar, basta colocar um pé depois do outro. Não é complicado. Não é difícil. Dá para ter pequenas metas: primeiro só a esquina…”

A primeira sensação que Rakushisha desperta é curiosidade. Um título diferente, em japonês, para um romance cuja sinopse menciona o encontro de dois cariocas em um vagão no metrô da estação Botafogo no Rio de Janeiro. Para os ansiosos, surge a pergunta: onde essa história vai parar? Mas a autora começa, à sua maneira, pedindo calma.

Adriana Lisboa, escritora formada em Música e Literatura, tem uma escrita peculiar, delicada e intensa, que fica muito evidente nesse romance. E talvez pela experiência de já ter vivido em outros países, como França e Estados Unidos, e conhecido outras culturas, ela consegue transmitir tanto o sentido real quanto metafórico de uma viagem ou de uma ruptura que nos tire da nossa zona de conforto.

Adriana Lisboa.

Adriana Lisboa por Daniel Mordzinski

Para atrair o leitor sem avançar nas revelações, é preciso contar três coisas.

Rakushisha significa cabana dos caquis caídos. Ela existe de verdade no subúrbio da cidade de Quioto no Japão e pertenceu ao poeta Mukai Kyorai que nela hospedou seu mestre, Matsuo Bashô, em 1691. Esse nome se originou de uma lenda que simboliza uma perda.

Haruki é um jovem ilustrador descendente de japoneses que é convidado para ilustrar a obra de Bashô, Saga Nikki ou O Diário de Saga, em uma tradução para o português e que assim resolve viajar ao Japão para uma melhor ambientação de seu trabalho.

Celina é uma artesã que decide de forma totalmente intempestiva acompanhar Haruki em sua jornada. Parte da história é narrada em primeira pessoa por ela que, inspirada nos delicados cadernos japoneses, começa um diário de sua aventura.

“Meu país foi ficando muito longe. Minha língua. De repente os rostos latinos se pulverizam, seguiram de Amsterdã para outros destinos, e eu me tornei uma diferença. Fim das lusofonias nas proximidades.”

Os destinos de Haruki e Celina se entrelaçam em torno de Bashô. Haruki a partir do desenho, Celina através da escrita. Ambos movidos por rupturas em suas vidas e pela necessidade de auto-conhecimento, que a autora sempre alude a um caminho, a uma viagem. No caso dele, esse processo se dava com relação a sua origem e no dela, com relação a um trauma. Mas o que tinham realmente em comum era o desejo de ir buscar respostas e sarar feridas.

A história nasceu de um trabalho de pesquisa de Adriana com auxílio da Fundação Japão. Esse incentivo parece ter contribuído para um outro aspecto da obra que está repleto de referências à Terra do Sol Nascente, cumprindo seu objetivo de apresentar ao leitor, além de um romance envolvente, um roteiro de curiosidades e aspectos culturais, de Buda, das gueixas, das cerejeiras, dos tsurus de origami e até da Hello Kitty. Enquanto Celina percorre Quioto e mostra suas nuances, Haruki percorre Tóquio em busca da sua própria origem e dos detalhes da vida do poeta Bashô para desenvolver seu trabalho.

“E esbarrei numa outra informação, a de que o idioma japonês usa cinco sistemas diferentes de escrita. Os kanji, que chamamos de ideogramas mas que são, literalmente, letras chinesas importada pelo Japão. Dois silabários, hiragana e katakana, o segundo sobretudo para a grafia de palavras ocidentais. Romaji, os caracteres latinos. E mais os algarismo indo-arábicos.”

Além da trama dos dois, o contraste de culturas entre o ocidente e o oriente também chama atenção assim como as diferenças entre o Japão feudal e o contemporâneo, principalmente aos que reconhecem o valor do aprendizado através de novas vivências e do sentimento de empatia. Ou seja, a autora explora o fato de que os personagens se deparam com as novas experiências que uma viagem traz.

“O gesto de tirar os sapatos para entrar num templo, ou em casa, que é um templo também: comedido, cuidado. Nunca espalhafatoso. Os sapatos se descalçam nem devagar nem com pressa, apenas no tempo justo e com os movimentos justos. Do mesmo modo são colocados no chão. Não consigo imaginar um japonês atirando seus sapatos de qualquer jeito no chão e mal se voltando para ver como foi que eles aterrissaram.”

Rakushisha é dessas obras que possui trechos marcantes e que traduzem perfeitamente os pensamentos através do fluxo de consciência em um turbilhão de sentimentos que vão muito além da curiosidade inicial. Com uma única certeza: somos todos viajantes em busca de algo.

“A viagem nos ensina algumas coisas. Que a vida é o caminho e não o ponto fixo no espaço. Que nós somos feito a passagem dos dias e dos meses e dos anos, como escreveu o poeta japonês Matsuo Bashô num diário de viagem, e aquilo que possuímos de fato, nosso único bem, é a capacidade de locomoção. É o talento para viajar.”


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Título: RAKUSHISHA

Autor: ADRIANA LISBOA

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 200

Ano: 2014 (primeira edição: Ed. Rocco, 2007)

Editora: Alfaguara

ISBN: 9788579622748

Para ver o link do livro na página da Editora Alfaguara, clique aqui.

Para conhecer a página oficial da autora, clique aqui.

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