A louca da casa

“Estou acostumada a organizar as lembranças da minha vida em torno de um rol de namorados e de livros…”

Quando comecei a ler A louca da casa, pensava que poderia ser uma autobiografia da autora no melhor estilo “ovelha negra da família”. Eis que não era.

Rosa Montero é uma jornalista e escritora espanhola com vários romances publicados e traduzidos em outros idiomas. Como parte dessa que parece ser uma rede de solidariedade entre os que escrevem, talvez para justificar que o ato da escrita cria uma certa cumplicidade, a autora nos brinda com esse… ensaio? Sim, poderíamos então classificar a obra na família dos ensaios e considerar que nela temos a reflexão de Rosa.

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Mesmo assim, essa classificação também é inexata pois a autora também agrega ingredientes ficcionais a essa mistura. Para exemplificar a sua experiência com a escrita, ela cria e recria histórias como uma artesã da imaginação. A diferença é que sua matéria-prima é a palavra.

“Domar uma palavra (transformá-la em clichê) é acabar com ela.”

Dessa forma, vale tomar a leitura com liberdade. Sem rótulos ou limites. Aproveitando o ensinamento de que a imaginação seria uma louca ou, acrescento eu, um pássaro livre que voa para onde quiser. O título da obra faz uma referência a essa sugestão e a expressão foi cunhada por Teresa de Ávila que viveu na Espanha no século XVI, foi beatificada e canonizada no século XVII como Santa Teresa de Jesus.

“A imaginação é a louca da casa.”

Através de 19 capítulos, Rosa Montero aborda a escrita sob vários prismas diferentes. Ela parte do princípio de que todos temos nossas lentes e que podemos distorcer a realidade. Trata a criatividade como algo a ser preservado da mesmice, conta como alguns de seus romances surgiram e adquiriram vida própria e como nasceram seus personagens. Exemplifica casos de sucesso e de fracasso na literatura, mostra que o mercado literário pode ser tão comercial como qualquer mercado assim como discute o papel do crítico literário nessa dinâmica; exprime sua opinião sobre a discussão da “literatura para mulheres” e, nessa oportunidade, defende lindamente sua posição feminista ou anti-sexista; coloca em pauta um dilema impensável para os escritores que seria a hipotética escolha entre ler e escrever. São tantas as abordagens que a autora oferece, colocadas de uma forma tão acessível, que a leitura mas parece uma boa conversa.

No meio de toda essa discussão, a autora usa duas pessoas-personagens para ilustrar suas ideias: M. e Martina. Para entender a importância desses dois, há que se ler o livro e tirar suas próprias conclusões mas a dica é prestar muita atenção ao que se conta deles.

“O que o romancista faz é desenvolver múltiplas alterações, essas irisações da realidade, da mesma maneira que o músico compõe diversas variações sobre a melodia original.”

São muitas as ilustrações que Rosa estudou sobre a literatura e seus grandes nomes. Hermal Melville (Moby Dick), Truman Capote (A Sangue frio) e Tolstói (Anna Karenina) são alguns deles, sem contar John Nash, não do mundo da literatura e sim da economia, mas igualmente criativo ao criar a Teoria do Jogos e sofrer do mal dos que vivem paralelamente à realidade: a esquizofrenia. Os exemplos trazem o tema da loucura tanto para um debate subjetivo quanto explicável do ponto de vista médico.

A proposta da obra se amplia significativamente da literatura para toda e qualquer expressão que demande a imaginação e, por essa razão, pode ser apreciada para qualquer um, já que a vida sem criação é mera cópia.

A louca da casa é surpreendente e emocionante. Faz refletir sobre a capacidade da nossa mente e de quanto é tênue o abismo entre usá-la produtiva ou destrutivamente. É uma boa leitura para buscar o primeiro caminho e fazer da imaginação um prazer, independente das pressões que o mundo material exija.

“A escrita é um caminho espiritual.”


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Título em Português: A LOUCA DA CASA

Título Original: LA LOCA DE LA CASA

Autor: ROSA MONTERO

Gênero: Romance

Nr. Páginas: 170

Ano: 2003 (Espanha) / 2016 (Brasil)

Editora: Alfaguara (Espanha) / HarperCollins (Brasil)

ISBN: 978.85.209.4061-7

Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman

Para ver o link do livro na página da Editora Alfaguara, clique aqui.

Para ver o link do livro na página da autora, clique aqui.

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