Os rios profundos

Nesta resenha, tenho o enorme prazer de dividir o espaço. Com a palavra, Janes Rocha, paulistana e jornalista, que nos traz suas impressões sobre uma importante obra que aborda a identidade cultural peruana.

Um novo programa de TV conduzido totalmente no idioma quéchua foi ao ar no Peru no dia 12 de dezembro. Intitulado Ñuqanchik – que significa “nós” -, o programa é transmitido pelas estatais TV Peru e Rádio Nacional. Tem alcance nacional e representa o reconhecimento do Estado de uma antiga demanda da comunidade indígena peruana por acesso aos meios de comunicação.

Os indígenas representam 45% da população do Peru. Somados aos mestiços (índios com brancos) eles perfazem 82% e desse total estima-se que 13% falam quéchua, considerado o segundo idioma oficial do país. São pelo menos quatro milhões de pessoas que se expressam em quéchua entre os 30,7 milhões de habitantes mas esse número pode ser maior porque muitos não declaram saber o idioma originário nos censos nacionais. Isso é porque mesmo sendo maioria, os peruanos indígenas são os mais pobres e excluídos dos serviços públicos como educação, energia, água.

Tratados como subalternos, os membros destas comunidades não têm muitas vozes no Peru. Mas houve um intelectual na primeira metade do Século XX que por suas circunstâncias de vida teve a oportunidade de dar voz àquele povo e deu: o escritor, antropólogo e etnólogo José Maria Arguedas (1911-1969).

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Arguedas com mulheres indígenas

A principal obra de Arguedas, o livro “Os Rios Profundos”, lançado em 1958, é uma narrativa sobre o processo de amadurecimento do personagem Ernesto, um rapaz de 14 anos, durante uma viagem que faz com o pai, Gabriel, em busca de um parente rico, chamado de El Viejo, para pedir ajuda financeira e emprego. Nessa trajetória, além de sua condição de descendente de índios, Ernesto adquire consciência política ao enfrentar dificuldades e preconceitos próprios de quem está na condição de subordinado, inferior na escala social.

A viagem de pai e filho começa na cidade de Cuzco e segue em direção sul. Em Abancay, Ernesto é matriculado pelo pai contra sua vontade em um colégio religioso interno onde convive com garotos cruéis e preconceituosos, um retrato ao mesmo tempo da infância e adolescência e da sociedade peruana.

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Vista de Cuzco e de Abancay por Diego Delso, delso.photo, License CC-BY-SA

A tensão social presente em toda a narrativa se expõe com todas as cores em uma noite em que Ernesto sai da escola e encontra uma manifestação de mulheres chicheras (que produzem o chiche, uma bebida típica a base de milho) pela distribuição de sal; o auge da tensão se dá mais para o fim da novela, com a entrada em massa na cidade de colonos e camponeses indígenas exigindo a celebração de uma missa às vítimas de uma epidemia de tifo.

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Chicheras (Autor: Benralexander/Pixabay)

Arguedas é considerado um dos três grandes precursores da literatura indigenista em seu país. Nascido em Andahuaylas, era de uma família rica, branca, descendentes diretos de espanhóis (que na América Espanhola se diz “criollo”). Quando ficou órfão de mãe, o pai casou-se novamente e ele não conseguiu manter uma boa relação com a madrasta, indo se refugiar na casa de empregados indígenas onde aprendeu o quéchua. Apesar de sua visão dos índios ser naturalmente impregnada pela perspectiva dos brancos, da sociedade dominadora, ele dialogou diretamente com a cultura indígena neste livro em que os índios “falam”, são sujeitos, e não apenas objetos de descrição, mesmo que favorável.

Desse ponto de partida, Os Rios Profundos é claramente um esforço do autor em integrar a sociedade indígena originária e a urbana de origem espanhola, europeia, as duas culturas que dividem o Peru. Mas o professor argentino Gonzalo Aguiar, doutor em Letras pela Universidade de Buenos Aires e pesquisador de literatura latino-americana, mostra que há muito mais debaixo dessa aparente “solução” social.

Em um artigo para o site Cronopios, Aguiar questiona o caráter de integração da obra de Arguedas que poderia sugerir algo de idealista, conciliador, sincrético. Indicando determinados pontos da narrativa, afirma que Arguedas demonstra uma preocupação maior pelo “materialismo mais baixo”, pelo “abjeto” que existe no mundo das pessoas atiradas à margem da sociedade, sem acesso aos recursos da “civilização” – educação, saúde, saneamento básico – e que torna impossível essa integração. Afirma Aguiar:

“Existe na literatura latino-americana zonas de narração ou um grupo de narradores do abjeto, daquilo que não admite o relato estabilizador nem apaziguador – necessários para uma integração social e política – de que excede qualquer torsão artística ou idealizante, no qual se pode incluir Arguedas”.


O Blog da Janes se chama Cesta Básica. De temas como sustentabilidade, consumo, energia, passando pela economia e chegando nas artes e nos livros, ela extrai pontos importantes para nossa informação. Vale a pena conhecer.

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Título em Português: OS RIOS PROFUNDOS

Título Original: LOS RÍOS PROFUNDOS

Autor: JOSÉ MARIA ARGUEDAS

Gênero: Literatura estrangeira

Nr. Páginas: 316

Ano: 1958 (primeira edição) / 2005 (edição brasileira)

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 9788535907476

Tradução: Josely Vianna Baptista

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