A resistência

“Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado…”

Escolhas de leituras não são acasos. Essa em especial aconteceu por ocasião do Prêmio Jabuti 2016, anunciado em novembro. A resistência de Julián Fuks venceu na categoria Romance e eu desejei terminar o ano conhecendo uma obra ganhadora do prêmio.

Não foram raros os livros que em 2016 me trouxeram para a temática da ditadura na América Latina (Alguns dos que resenhei foram: Ainda estou aqui, Formas de voltar para casa e Un comunista en calzoncillos). O título desta obra me fez desconfiar que o universo mais uma vez conspirava para esse caminho e… Bingo! Ao ler a sinopse minhas suspeitas se confirmaram.

Fuks é um jovem autor paulista, também crítico literário, cuja trajetória já dá sinais de que teremos uma boa safra. Suas obras anteriores, Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, Histórias de literatura e cegueira e Procura do romance, já tiveram destaques em outros importantes prêmios da Literatura Brasileira. No entanto, o Jabuti de A resistência tem uma característica especial.

julian-fuks

Foto: Divulgação Companhia da Letras

O ano de 2016 foi marcado por uma forte e inesperada ruptura na instituição democrática brasileira. E justamente nesse momento é bastante simbólico e representativo escolher como referência uma obra com um título como esse e com base em consequências de um repressivo e violento cenário político.

“As ditaduras podem voltar, eu sei, e sei que seus arbítrios, suas opressões, seus sofrimentos, existem das mais diversas maneiras, nos mais diversos regimes, mesmo quando uma horda de cidadãos marcham às urnas bienalmente…”

Embora seja considerada ficção, a obra conta a história da família do autor. A ditadura em questão foi a que se deu na Argentina em março de 1976 depondo Isabelita Perón do governo através de um golpe militar e que estabeleceu um período conhecido pelo nome de Processo de Reorganização Nacional que perdurou até dezembro de 1983. Como os pais de Fuks militaram contra essa situação, foram obrigados a se exilar no Brasil. Porém, o livro não vai contar os fatos da História. O centro da questão é o irmão do autor. Antes de partir para o Brasil, onde também viveriam uma ditadura, os pais de Fuks adotaram uma criança. E é essa a razão que o leva a contar uma história de resistência, nas várias acepções da palavra.

“Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado.”

A primeira abordagem tem relação com a política e o posicionamento dos pais que, mesmo diante da repressão, assumiram consequências por não abrir mão de suas liberdades individuais e em prol de um pensamento democrático. A segunda tem a ver com o aspecto familiar no sentido das próprias dificuldades que surgem no processo de amadurecimento e aceitação da condição do irmão. E a terceira abraça o autor que assume a missão, como escritor e através da literatura, de construir, organizar, montar e tecer memórias, afetos, dores, alegrias. Traduzir emoções e sentimentos em palavras conexas.

“…sou o filho orgulhoso de um guerrilheiro de esquerda e isso em parte me justifica, isso redime minha própria inércia, isso me insere precariamente numa linhagem de inconformistas.”

Nesta tarefa, o autor viaja a Buenos Aires e recorda as lembranças dos pais, visita lugares como a casa em que eles viveram e o Museu da Memória, e, principalmente, traz à tona o movimento de mulheres que se reuniram em plena ditadura para exigir, primeiramente, o paradeiro de seus filhos e filhas e, posteriormente, de seus netos e netas que nasceram em cativeiro e foram alvo de processos de adoção. Essa cruel separação renegou a essas famílias o legítimo direito de guarda dessas crianças gerando mais um exemplo de resistência, o movimento conhecido como as Avós da Praça de Maio que tem como objetivo a localização e identificação de seus parentes.

“Desde 1978 o chamado das avós se repete: ele está na praça onde essas mulheres dão voltas toda quinta, e está em jornais que eu pude ler muitas vezes, replicado em inúmeras notícias.”

A remontagem de todas essas vivências para resgatar a memória e ajudar a família a superá-las ou simplesmente aceitá-las é um grande desafio que o autor se impõe sem saber se o resultado final será construtivo ou não. Fuks é humilde ao questionar se de fato conseguirá cumprir esse propósito. Além disso, transmite uma emoção e uma lucidez que aliadas a essa humildade, lhe dão uma imensa credibilidade quanto a sua genuína intenção que, ao final das contas, é uma enorme demonstração de amor.

O processo de escrita é complexo. Nesse sentido, explica-se ser a obra uma ficção, um romance e não uma biografia pois, ainda que se esteja contando uma história real, cada envolvido se converte em um personagem quando carrega nas tintas de suas próprias percepções e cargas de emoções.

Como comentei antes, essa temática me perseguiu ao longo de 2016 e eu a aceitei. Com A resistência, ouso deduzir que as consequências dos períodos de ditadura abrange temporalmente um raio maior do que aquele que conta a história. Elas vão além e afetam as gerações posteriores como feridas transmissíveis de geração para geração. Até que sejam curadas. E talvez a literatura possa efetivamente ser um caminho terapêutico para este processo.

“É preciso aprender a resistir. Nem ir, nem ficar, aprender a resistir.”


 

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Título: A RESISTÊNCIA

Autor: Julián Fuks

Gênero: Ficção / Romance / Biografia

Nr. Páginas: 144

Ano: 2015

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 9788535926378

Para ver o link do livro na página da Editora Companhia das Letras, clique aqui.

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