Hibisco Roxo

“As coisas começaram a se deteriorar lá em casa quando meu irmão, Jaja, não recebeu a comunhão, e Papa atirou seu pesado missal em cima dele…”

O hibisco é uma flor característica das regiões de clima tropical. O seu tom avermelhado parece ser o mais comum tanto no Brasil como na Nigéria mas o que nos conta Chimamanda Ngozie Adichie é que o hibisco roxo pode representar uma variação mais rara na natureza.

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Crédito: Jon Sullivan

“Mais perto da casa, os coloridos arbustos de hibiscos se esticavam e tocavam uns aos outros, como se estivesse trocando pétalas. Os arbustos de hibiscos roxos começavam a florescer lentamente, porém a maioria das flores ainda era vermelha.”

Em seu primeiro romance, Hibisco Roxo, a autora nigeriana utiliza a metáfora do jardim para contar uma história absolutamente tocante sobre uma família, seus costumes e muitas outras questões: religião, contexto histórico e político de um país, amor, dor  e liberdade. Tudo isso, permeado pelo olhar feminino da própria autora e da narradora.

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Foto: divulgação

Conheci a autora através do TED – Ideas Worth Spreading que é uma organização sem fins lucrativos que estimula a disseminação de ideias através de pequenas palestras (talks) que são divulgadas em fóruns globais e pela sua página na internet. Nessa ocasião, em 2009, a jovem escritora apresentou uma palestra intitulada “O perigo de uma única história” e me lembro que o que mais me chamou a atenção foi a ideia de diversidade cultural em contraposição com os chamados estereótipos que tanto teimamos em criar. Quase 12 milhões de pessoas já assistiram esse vídeo.

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Chimamanda nasceu em 1977 na cidade de Enugu, na Nigéria. Tendo estudado Comunicação e Ciência Política, além de ser Mestre em Escrita Criativa e Estudos Africanos, é reconhecida como uma forte representante da Literatura Contemporânea Africana. Hibisco Roxo, publicado em 2003 e no Brasil em 2011, ganhou o Commonwealth Writers’ Prize for Best First Book em 2005. Depois vieram Meio sol amarelo (2006) e Americanah (2013).


Mais detalhes da biografia da escritora na sua página oficial nesse link. E seus prêmios e indicações podem ser conhecidos aqui.


Além do reconhecimento por sua obra, apesar de sua pouca idade, Chimamanda também se destaca pelo seu ativismo pela igualdade de gênero que teve repercussão principalmente depois de outro talk do TED, “Sejamos todos feministas”, de 2013. Esse talk originou o livro de mesmo nome publicado no Brasil em 2014 e o recém-lançado Para educar crianças feministas – Um manifesto.

E assim comecemos a conhecer a autora por esse livro absolutamente arrebatador que é Hibisco Roxo. Trata-se de uma ficção, narrada em primeira pessoa pela personagem principal que é uma menina de 15 anos que vive na mesma cidade que nasceu Chimamanda, chamada Enugu. Kambili Achike é a filha mais nova de Eugene (Papa) e Beatrice (Mama) e irmã de Jaja. Sua família, ao contrário da maioria das pessoas, goza de uma condição social muito favorável porque Papa é um empresário muito bem sucedido, dono de fábricas de alimentos, além de ser dono de um jornal. Ela e seu irmão estudam nos melhores colégios, gozam de muitos luxos, privilégio dos ricos. E são eles que vivem na mansão cujo jardim é florido com hibiscos vermelhos.

Além da riqueza que construiu, Papa é extremamente religioso por influência dos missionários da colonização britânica na Nigéria, tendo se convertido em um fundamentalista cristão. Desta maneira, ele submete a família não somente a rigorosos preceitos dogmáticos como também os filhos a uma educação repressiva, que não exclui a obediência de sua esposa. Este é o grande mote de conflitos na convivência familiar.

Kambili e Jaja precisam ser sempre os primeiros da turma. Possuem rígidos horários de tarefas que não inclui lazer típico de adolescentes, como assistir televisão ou ouvir música. Devem falar um inglês perfeitamente britânico e evitar ao máximo a língua local, o igbo. Não podem ser questionadores e o silêncio deve ser respeitado (o que não os impede de estabelecer entre eles uma cumplicidade pelo olhar) sendo deles esperado que sempre respondam aquilo que Papa gostaria de ouvir. Além dessas questões comportamentais, também devem cumprir os devidos sacramentos cristãos, como confessar e fazer a comunhão, estudar os textos bíblicos e orar.

“Papa quase nunca falava em igbo e, embora Jaja e eu usássemos a língua com Mama quando estávamos em casa, ele não gostava que o fizéssemos em público, ele nos dizia; precisávamos falar inglês.”

Para Mama não é muito diferente, a ilustrar que lhe cabe a “culpa” de não gerar outros filhos que são esperados de uma família abastada e que podem representar bons frutos para a sociedade. Sendo assim, a comunidade chega a sugerir que Papa tivesse outras esposas para com elas ter mais filhos.

A comunidade ou umunna (em igbo), tem na figura de Eugene Achique o omelora (aquele que faz pela comunidade) pois ele ajuda a todos em suas necessidades materiais e financeiras, tendo um grande senso de coletividade. Essas características também estão presentes na condução de seu jornal, o Standard. Assim como na realidade, a ficção mostra o momento de um golpe político-militar na Nigéria quando assume um regime opressor e que trata de reprimir violentamente os que atentam contra o sistema. Na contramão desse processo, o Standard é um jornal de oposição que corajosamente denuncia a corrupção e a violência.

“Vejam o irmão Eugene. Ele poderia ter escolhido ser como outros Homens-Grandes deste país, poderia ter decidido ficar em casa e não fazer nada depois do golpe, para não correr o risco de ver seus negócios ameaçados pelo governo. Mas não, ele usou o Standard para falar a verdade, apesar de o jornal ter perdido anunciantes por causa disso. O irmão Eugene se manifestou em nome da liberdade. Quantos aqui defendem a verdade? Quantos refletiram a Entrada Triunfal?”

É exatamente na construção desse personagem que a autora emprega a carga máxima de contradição. Se por um lado Papa é generoso com sua umunna, incorruptível, cumpridor de seus deveres, exemplo de dignidade e luta por justiça com relação à situação política do país a ponto de ser reconhecido com um prêmio pela Anistia Internacional, por outro, em casa, com a família, esse mesmo homem é capaz de oprimir e castigar a mulher e os filhos com tortura. A liberdade de expressão, prezada por seu jornal, é banida em casa. Os mesmos valores morais que o conduzem na vida social e o elevam como cidadão são a base de uma educação e convivência familiar humilhante e de uma recorrente violência doméstica. Papa acredita fielmente que o castigo é para o bem da esposa e dos filhos. Também renega o próprio pai, Papa Nnukwu por ser um tradicionalista e que nunca se converteu à religião dos colonizadores. Para Eugene, ele é um pagão, uma erva daninha que pode contaminar seu jardim de hibiscos vermelhos para usar mais uma vez a metáfora do jardim. Enfim, sua conduta é o mais puro exemplo do que comumente chamamos de fundamentalismo religioso.

“Pagão, tradicionalista, o que importava? Ele não era católico e pronto; não era da nossa fé. Era uma dessas pessoas por cuja conversão nós rezávamos, para que ela não acabassem no tormento eterno dos fogos do inferno.”

Se, a princípio, Kambili, Jaja e Mama não reagem, se submetem e omitem as agressões, a contraposição virá através de Ifeoma que é a irmã de Eugene e a mulher do jardim dos hibiscos roxos. Ela é professora universitária na cidade de Nsukka (onde Chimamanda foi criada), viúva que cria seus três filhos sozinha: Amaka, Obiora e Chima. O primeiro contraste é no campo das ideias pois Ifeoma, embora tenha se convertido, não é radical e respeita as tradições culturais de seu povo. Tem com os filhos uma relação de respeito e os educa de uma forma mais aberta. O segundo, é material pois, devido a situação política e econômica do país que se reflete na má gestão da Universidade da Nigéria onde Ifeoma trabalha, a família não tem recursos para o mínimo necessário. Além disso, ela tem o mesmo ímpeto de justiça do irmão, porém, não há o viés do radicalismo em seu pensamento e suas ideias são progressistas, principalmente, no tocante, ao papel e aos direitos da mulher em uma sociedade machista.

A convivência de Kambili e Jaja com a família de tia Ifeoma é o que vai abrir a perspectiva deles, fazê-los perceber que pode haver uma fresta de luz, um horizonte de possibilidades. Kambili encontra no padre Amadi, um progressista, a coragem necessária para amar e Jaja, ao transplantar os hibiscos roxos dos jardins de Nsukka para os jardins de Enugu, encontra simbolicamente a possibilidade de liberdade.

“A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave da liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.”

Mas, enfim, nada é tão simples quanto parece. O romance não fica na superficialidade, ao contrário, apresenta dualidades e justamente por isso suscita polarizações tão presentes na nossa sociedade globalizada de hoje. Nos faz refletir primeiro sobre várias linhas tênues como a da bondade e a maldade, a fé e a razão, a tradição e o moderno, o conservadorismo e o liberalismo, a submissão e a liberdade. Nos faz entender outras tantas questões do mundo contemporâneo desde um país de fora dos eixos continentais americano e europeu, trazendo a Nigéria, na África, para mais perto ao apresentar problemáticas na política (ditadura), na economia (subdesenvolvimento e desigualdades), na sociedade (educação precária, machismo) que também temos .

No aspecto cultural, a leitura também é uma experiência muito rica para desenhar todas as nuances que contribuíram para a formação dos valores desse povo. Chimamanda nos aguça os sentidos nos movimentos das cores da natureza e das cangas das mulheres, nos possíveis cheiros e paladar da comida típica e do chá com flores, nos possíveis sons diferentes das palavras em igbo, no dia-a-dia das famílias.

“O almoço foi fufu e sopa de onugbu. O fufu estava macio e fofo. Sisi sabia fazê-lo muito bem; ela pilava energeticamente o inhame , acrescentando gotas de água à tigela, suas bochechas se contraindo a cada tum-tum-tum do pilão. A sopa estava grossa, com pedaços grande de carne cozida e peixe seco e com muitas folhas verde-escuras de onugbu.”

Para além dos sentidos, os costumes e as crenças se confundem a todo tempo com a religião. De um lado, a tradição baseada na ancestralidade, no mundo dos espíritos, em rituais originários da população local. De outro, a introdução do cristianismo por católicos e protestantes colonizadores que simplesmente negavam e condenavam a prática existente. O papel da mulher na sociedade, submisso em ambos, faz desse romance uma importantíssima reflexão sobre a questão já que Chimamanda se reconhece como feminista e aborda o tema com fortes exemplos na postura de Kambili e Mama como oprimidas e na postura de Ifeoma como mulher consciente da luta por direitos iguais.

Hibisco Roxo é uma história que guarda surpresas e aperta o coração. Um livro sobre liberdade tanto no sentido real quanto no metafórico. Mas também diz muito sobre como os nossos valores se formam e como, à duras penas, nos transformam em seres humanos dignos ainda que, diferentemente do que nos impõe os dogmas, sejamos passíveis de muitos erros e acertos. Envolvente e emocionante, nos faz desejar que floresça, por fim, esse hibisco tão raro no nosso jardim.

Capa purplehibiscus


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Título em Português: HIBISCO ROXO

Título Original: PURPLE HIBISCUS

Autor: CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

Gênero: Ficção

Nr. Páginas: 328

Ano: 2011

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 9788535918502

Tradução: Julia Romeu

Para ver o link do livro na página da Editora Companhia das Letras, clique aqui.

9 comentários em “Hibisco Roxo

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