A Bela e a Fera

“Era uma vez um comerciante muito rico, que tinha seis filhos: três meninos e três meninas…”

Algumas razões me motivaram a interromper meu projeto de leitura que vagava lá pelo lado da filosofia para ler o clássico A Bela e a Fera. Confesso que não me arrependi e o conto de fadas até que quebrou o ritmo relativamente pesado da história do pensamento mas, ao mesmo tempo, não saí ilesa de novas reflexões.

A primeira das razões foi poder criar a minha perspectiva da história antes de assistir o mega lançamento da versão live-action da Disney, dirigida por Bill Condon e estrelada por Emma Watson e Dan Stevens. Obviamente que eu vi a animação de 1991 mas isso já faz algum tempo… Mesmo assim, o objetivo não seria comparar essas duas versões cinematográficas mas a obra literária do Século XVIII com o cinema do Século XXI.

A ideia repentina também foi ler um clássico infantil e tentar descobrir qual a história por trás da história, qual era o contexto social da época, o que motivou as autoras e se seria possível entender o que se desejava transmitir através da fábula.

A importância da literatura na vida das crianças, de como motivá-las a ler e despertar sua imaginação, foi mais um incentivo a me colocar no lugar delas e tentar entender se o clássico teria chance com a monumental influência da indústria Disney. Ainda que eu mesma esteja absurdamente ansiosa para ver o filme na telona.

Uma outra questão é a discussão também em voga sobre o papel das personagens femininas no imaginário das meninas. Ou seja, como a Disney vem apresentando-as, buscando um alinhamento com discussões relacionadas a igualdade de gênero, ao empoderamento feminino, como na construção das personagens Elsa, Moana e até mesmo a Malévola. E em Bela, o que já sabemos é que, além de termos uma personagem de boa índole e coração generoso, também temos uma jovem cujo passatempo é a leitura. Em contraposição, temos a Fera, bruta e ameaçadora sim, porém, possuidora de uma grande biblioteca e eu diria que isso é uma grande vantagem.. (a comparação da estética entre os dois, me eximo de comentar).

Por último mas não menos importante, minha curiosidade também está relacionada à performance da atriz Emma Watson, não somente por habitar nossa memória como a bruxinha Hermione de Harry Potter, mas principalmente por ver o trabalho da ativista feminista em um papel de uma personagem que se vê obrigada a viver enclausurada em um castelo com o que seria uma criatura ameaçadora.

Não tive dúvidas. Parei tudo e mergulhei em uma maratona de dois dias para ler as 240 páginas da edição de clássicos da Editora Zahar, lançada no final de 2016. Minha leitura foi no kindle e, infelizmente não tive o privilégio de manusear essa edição de bolso, com capa dura e ilustrações coloridas. No entanto, o principal estava disponível no e-book: a apresentação de Rodrigo Lacerda e as duas versões da história: a primeira de Madame de Beaumont (1756) e a segunda de Madame de Villeneuve (1740); além de uma cronologia da vida e da obra das autoras.

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A apresentação de Lacerda, para mim, foi tão importante, como conhecer a versão das autoras. A leitura atenta trouxe primeiramente a constatação que eu já desconfiava: a moral da história vai muito além da boa menina que enxerga além das aparências. E os detalhes também vão muito além do que da peneira da Disney. Se o filme contado pelos roteiristas é comovente, o conto de fadas é ainda mais rico em lições e constatações.

Mas vamos na ordem dessa edição. Rodrigo Lacerda é escritor e tradutor. É ele quem nos traz a contextualização da obra. Começa contando que a história pode ter sido inspirada em um caso real de um homem que teria a “síndrome do lobisomem”, cientificamente conhecida como hipertricose, e que teria por isso sido isolado do convívio social. No conto, para alcançar as crianças, a Fera foi vítima da ira de uma fada ciumenta. Fato é que em ambos, a aparência era motivo para a discriminação e o isolamento. Lacerda desenvolve que esse conto não foi o primeiro entre os tantos que se criaram mais ou menos com essa mesma ideia da aberração, seja na figura masculina ou na feminina. Seria à toa a repetição desse tema?

Ele nos conta também um pouco do que se sabe sobre a vida das autoras francesas. Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, a Madame de Beaumont, não foi a precursora mas, como sua versão era mais curta, recebeu mais adesões. Ela a criou em 1756 para uma revista de moças. Além de escrever, serviu como preceptora e dama de companhia, mas foi como escritora que teve mais dificuldades de ser reconhecida. Mesclando as duas áreas, a educação e a literatura, Madame de Beaumont escreveu o livro Emilio ou Da educação em 1762. Sua ideias eram discutidas com ninguém menos que o filósofo iluminista Voltaire. Posteriormente, ela se consagrou como escritora e pedagoga.

Jeanne-Marie_Leprince_de_Beaumont

Já a versão de Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, Madame de Villeneuve, é de 1740 e é considerada a verdadeira autora de A Bela e a Fera. Entende-se que sua versão é a oficial e a de Madame de Beaumont, uma adaptação De qualquer forma, no que se diferenciam, era que Madame de Villeneuve trabalhava com um renomado dramaturgo fazendo revisões e escrevendo seus primeiros contos de fadas, sendo por isso reconhecida. Segundo Lacerda, foi de sua narrativa que levantou-se um aspecto primordial da sociedade na época, a submissão de moças muito jovens a casamentos arranjados com homens mais velhos, ainda que algumas interpretações considerem que o fato da Fera se transformar em príncipe atenue esta realidade.

Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve

Certamente, o “Era uma vez” da literatura fez uma enorme diferença em relação ao que me recordava do filme que assisti com meus filhos pequenos e seguramente também fará com relação a essa nova produção. Fato é que a adaptação não segue os contos à risca. Por um lado, Bela possui uma família grande e nem é tão aficionada assim por livros, Gaston não existe, as xícaras, o bule e o candelabro não ganham vida, não existe a rosa que fica dentro da redoma no castelo, nem as épicas cenas de “…sentimentos são como uma canção para a Bela e a Fera…” e da Fera transcendendo para se transformar no Príncipe. Por outro lado, há o universo complexo das fadas que explica com muitos detalhes a origem da Bela (surpreendente!) e da Fera, tem o mundo dos sonhos, da cultura e da arte, tem os macaquinhos como serviçais, as estátuas e um real dilema de amor que persegue Bela. É preciso dizer que as fadas interferem de tal modo na vida dos humanos que não consigo entender como esse aspecto não existe na adaptação para o cinema.

A história por trás da história é que o Século XVIII foi conhecido como Século das Luzes e os pensadores franceses como Voltaire, Diderot e Montesquieu se destacaram em defender a liberdade e o pensamento (daí que eu me dei conta que não saí totalmente do meu projeto de leitura quando resolvi ler A Bela e a Fera…). Para disseminar essas ideias, a questão da educação era fundamental e, então, se conclui que as madames também participaram desse contexto e isso (o fato de serem mulheres contando histórias sob a perspectiva das mulheres) faz muita diferença.

Uma boa “contação” (de preferência antes de ver o filme) levaria as crianças a questionar a adaptação facilmente. Claro que a produção de US$ 160 milhões associada a muita tecnologia e marketing, digamos, tem seu apelo. No entanto, nem tanto ao céu nem tanto à terra, as crianças merecem acessar os dois, tanto a literatura quanto o cinema com uma deliciosa pipoca.

Os dilemas que encontramos no passado, de uma certa forma, transpassaram o tempo: a questão da escolha da mulher, sua “vocação” para sacrificar-se pela família, a riqueza e a pobreza, o real e o transcendental, os valores morais, as aparências, a beleza e o intelecto. Até mesmo a questão da diferença social aparece no conto.

A Bela e a Fera é atual. E até nós adultos, às vezes, precisamos dos contos de fadas. Não exatamente para nos fazer sonhar com castelos, tesouros e súditos mas simplesmente para que desenhem para nós o mundo real e para que possamos aprender a conviver com tantas diferenças de maneira mais lúdica.

Veja aqui o Trailer A Bela e a Fera.


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Título em Português: A BELA E A FERA

Título Original: LA BELLE ET LA BÊTE

Autor: GABRIELLE-SUZANNE BARBOT DE VILLENEUVE e JEANNE-MARIE LEPRINCE DE BEAUMONT

Gênero: Conto de fadas francês

Nr. Páginas: 240

Ano: 2016

Versões originais 1740 (Madame de Villeneuve) e 1756 (Madame de Beaumont)

Editora: Zahar

ISBN: 9788537816042

Tradução: André Telles

Para ver o link do livro na página da Editora Zahar, clique aqui.

5 comentários em “A Bela e a Fera

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  1. Oi, Bárbara!
    Gostei bastante do post, você levantou pontos que eu desconhecia. Interessante associar a história a filosofia. Adoro ver as versões originais de histórias famosas, geralmente são mais interessantes ou até mesmo um pouco assustadoras de acordo com nossa moral atual. 🙂
    Bjs
    Val

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  2. Olá, Bárbara!

    Gostei muito da sua resenha!

    Eu não possuo essa edição de “A bela e a fera”, mas tenho o volume “Contos de fadas”, também da Zahar, que inclui a versão da Madame de Beaumont.

    É incrível como essas histórias fascinam a gente até hoje, né?

    Já estou seguindo o blog! Até!

    Curtido por 1 pessoa

    1. O prazer foi todo meu de conhecer seu blog e vamos trocar boas leituras com certeza! O próximo clássico infantil (se é q posso chamar assim) q eu quero ler é “Alice no país das maravilhas” . Mas no meio, outras tantas leituras… um abraço pra vc!

      Curtido por 1 pessoa

  3. Adorei a resenha mais se formos guiados pelo lados da revolução francesa podemos ver muitas coisas alem do conto de fadas que pode ser levado como uma critica a monarquia onde o príncipe e colocado como um monstros e seus servos são objetos , ao pensar por esse lado me vem a mente como as pessoas que não faziam parte da realeza era tratada , a burguesia e o comercio , a bela e a fera e uma das mais belas e ricas estorias que eu conheço

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sim, Lucas! Segundo os estudiosos, o conto dá margens a várias versões. Como ele foi escrito um pouco antes da Revolução Francesa e as autoras viviam sob a aura do Iluminismo, inclusive tendo contato com esses pensadores, concordo com você que é razoável uma interpretação de crítica ao contexto político e social.Obrigada pelo seu comentário. Tudo isso é muito interessante, não é?! 🙂

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