A guerra não tem rosto de mulher

“Estou escrevendo um livro sobre a guerra…”

Na Segunda Guerra Mundial, a União Soviética enviou cerca de 1 milhão de mulheres para os fronts de batalha. Elas eram russas, soviéticas, bielorussas, ucranianas, tadjiques. Eram pilotos, enfermeiras, franco atiradoras, telefonistas, mecânicas, cirurgiães, padeiras, operadoras de artilharias antiaérea, tanquistas, cozinheiras, mensageiras, fuzileiras, escrivãs. No entanto, até que essa obra existisse, a guerra não tinha rosto de mulher.

“Ah, mais um livro sobre a guerra… Para quê? Já aconteceram milhares de guerras – pequenas e grandes, famosas e desconhecidas. E o que se escreveu sobre elas é ainda mais numeroso. Mas… Foi escrito por homens e sobre homens, isso ficou claro na hora. Tudo o que sabemos da guerra conhecemos por uma ‘voz masculina’. Somos todos prisioneiros de representações e sensações ‘masculinas’ da guerra. Das palavras ‘masculinas’. Já as mulheres estão caladas.”

A vila em que a ucraniana de cidadania bielorrussa Svetlana Aleksiévitch nasceu, em 1948, era cercada de mulheres porque a maioria dos homens não havia voltado para casa. Assim, ela cresceu escutando histórias de guerra através de vozes femininas. Histórias que ela não gostava embora sua geração fosse a dos filhos da Vitória. Em um determinado momento da sua vida, a jornalista soube que deveria ouvir ainda mais essas mulheres e que, dessa maneira, estaria configurando uma nova versão, ou uma nova face, desse triste episódio da história da humanidade.

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Foto de divulgação da Página do Prêmio Nobel

“A vila da minha infância depois da guerra era feminina. Das mulheres. Não me lembro de vozes masculinas. Tanto que isso ficou comigo: quem conta a guerra são as mulheres. Choram. Cantam enquanto choram.”

Entre 1978 e 1985, Svetlana empreendeu seu projeto: identificar, buscar e conversar com mulheres que haviam combatido. Dar voz a elas para que pudessem contar a sua perspectiva sobre a guerra. E esse “dar voz” não foi tão simples quanto parece. Nem para quem fala nem para quem ouve. Nesse sentido e, tampouco porque a autora não objetivava construir mais uma historiografia, ela não se utilizou do método convencional de entrevistas mas sim o da aproximação genuína permitindo que cada participante pudesse confiar em seu trabalho.

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Foto do arquivo pessoal da escritora disponível na sua página oficial

“Dezenas de viagens por todo o país, centenas de fitas cassete gravadas, milhares de metros de fita. Quinhentos encontros; depois parei de contar, os rostos desapareciam da memória, só as vozes ficavam.”

A guerra não tem rosto de mulher é uma obra diferente. Começa com um pequeno trecho em que um historiador contextualiza a participação de mulheres em conflitos desde o século IV a. C. em Atenas e Esparta, passando pela Idade Moderna quando a participação era mais restrita aos serviços médicos e chega na Idade Contemporânea. Vários países tiveram a participação de mulheres na Segunda Guerra mas o Exército Soviético foi o que contou com uma maior participação e, principalmente, em atividades até então notadamente masculinas.

“Cada um de nós vê a vida segundo sua atividade, segundo seu lugar na vida ou nos acontecimentos de que participa. Podemos pressupor que a enfermeira viu uma guerra, a padeira viu outra, a paraquedista uma terceira, a piloto viu uma quarta, a comandante de um pelotão de atiradores de fuzil uma quinta…”

Feito o contexto, Svetlana parte com um capítulo intitulado “O ser humano é maior que a guerra” que é extraído do diário que acompanha a autora em todo o processo. Entre 1978-85, ela explica como chegou na decisão de elaborar esse trabalho, de transformá-lo em literatura, da necessidade de contar a história sob a perspectiva feminina, de buscar a diversidade de experiências e revela que o manuscrito foi rejeitado por várias editoras durante 2 anos. O motivo? Mulheres falando de uma guerra muito cruel e avassaladora. A resistência só demonstrava que ela tinha ido no caminho certo.

Posteriormente, já com o livro publicado com uma tiragem inicial de 2 milhões de exemplares, se acrescentaram comentários a uma nova edição considerando a época de vertiginosas mudanças como o reconhecimento da soberania da Bielorrússia e a dissolução da União Soviética. Além disso, enquanto no princípio era muito difícil convencer as veteranas a aderir ao projeto, nesse novo momento a autora recebia dezenas de cartas diárias de mulheres que desejavam falar. A matéria-prima jorrava.

A partir daqui, se a autora diz contar a história dos sentimentos, estes começam a formar esse novo rosto da guerra e se a analogia está valendo, os depoimentos são o coração da literatura que se gerou. E Svetlana é a mente que organiza a obra e faz pequenas introduções com material colhido do seu diário de trabalho. A estrutura segue em divisões por capítulos que ganham nomes que remetem a sentimentos comuns a alguns relatos. Por exemplo, “Não quero me lembrar” é um capítulo que mostra a resistência inicial em contar as experiências. “Não era eu” mostra que, ao relembrar e relatar o passado da guerra, é possível não se reconhecer em relação ao que se foi ou viveu naquela época. Ainda dentro dos capítulos, existem subdivisões que agrupam histórias sob sugestivos títulos como “Sobre uma cesta com uma mina e um brinquedo de pelúcia” e “Sobre os últimos dias da guerra, quando dava asco matar”.

Os depoimentos são tristes e belos ao mesmo tempo. Alguns são longos e percebe-se que serviram como fio condutor de determinados aspectos que a autora quis ressaltar. Outros são mais curtos o que não impede que sejam contundentes. Todos os depoimentos são transcritos e registrados com o nome, a patente e a ocupação das mulheres. E isso ajuda a imaginar esses rostos femininos.

As revelações são duras. Não que já não se tenha ideia do horror da guerra mas a diferença aqui é realmente a perspectiva e a forma. Eram meninas de 17 a 20 anos que realmente queriam ir pra guerra para servir ao seu país; que antes de se depararem com a possibilidade de matar ou morrer, não somente abriram mão de pequenas vaidades (não havia uniforme feminino ou roupas íntimas femininas, seus cabelos foram cortados, suas identidades femininas foram abafadas) mas também se depararam com uma realidade em que não tinham credibilidade e que ao fim terminou por estigmatizá-las. Alguns relatos dão conta de que muitas mulheres pararam de menstruar e depois da guerra não conseguiram ter filhos; de que os alemães não faziam prisioneiras de guerra, se fosse uma mulher fuzilavam na mesma hora; de que tinham que se esforçar mais que os homens, nunca demostrar fragilidade; de que sofreram ou testemunharam violência sexual. Isso só para mencionar fatos ligados a questão do gênero mas outros poderiam ser citados independente disso mas cuja ótica parece ser sempre mais intensa.

“Me arrastei até o último, ele estava com o braço destroçado. Pendurado por uns pedacinhos… Pelas veias… Coberto de sangue… Precisava amputar o braço com urgência para fazer o curativo. Não havia outra maneira. Mas eu não tinha nem faca, nem tesoura. A bolsa chacoalhava tanto que elas tinham caído. O que fazer? Cortei aquela carne com os dentes. Cortei e enfaixei… Estava enfaixando, e o ferido dizia: ‘Mais rápido, irmã. Vou lutar mais.’ Estava delirando…”

É importante ressaltar que a autora não filtrou as conversas com seu crivo. Ela simplesmente deixou fluir. Naquele momento, ela era uma jovem de 30 e poucos anos conversando ora com as senhoras, ora com as jovens que elas foram naquele passado remoto já que o processo de recordar remete e faz reviver para recontar com outra lente e maturidade.

“Você é escritora. Invente algo você mesma. Algo bonito. Sem piolhos nem sujeira, sem vômito… Sem cheiro de vodca e sangue… Que não seja tão terrível quanto a vida…”

A guerra não tem rosto de mulher é uma obra rara, indispensável ao nosso conhecimento e visão de mundo. Seja por seu conteúdo, seja por sua lógica, seja pela maneira como a autora transformou mais do que palavras mas um extenso material humano de alta carga emocional em literatura. E é justamente seu estilo, sua força jornalística e documental que a distinguiu para que fosse reconhecida em 2015 com o Prêmio Nobel de Literatura “por seus escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e a coragem em nosso tempo”, como ressalvou a Academia Sueca.

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Foto de divulgação da Página do Prêmio Nobel

A importância da perspectiva feminina, que tende a trazer mais sensibilidade para uma experiência inimaginável, é fundamental para conscientizar quanto a necessidade de se observar os acontecimentos ou entender pensamentos através de diferentes ângulos assim como também deveria ser nos campos do conhecimento, como na Filosofia, na História e até mesmo na Literatura.

Mas, depois de ler e entender essa questão, surgem muitas perguntas como, por exemplo, se a vivência feminina é mais sofrida que a masculina, se as mulheres ao fim tiveram mais dificuldades em agir friamente contra a vida do ser humano, se sob o aspecto de igualdade poderíamos afirmar que mesmo em uma situação como essa, a mulher consegue assumir este tipo de papel concebido como masculino.

Obviamente que essa é uma discussão profunda mas o que chama mais atenção é que essas mulheres não parecem ter nascido para a guerra mas tiveram a liberdade de fazer essa opção. Ao se depararem com um ambiente que foi pensado para o homem, elas tiveram flexibilidade para adaptar-se. Não sem sofrimento mas o fizeram. As experiências deixaram profundas cicatrizes em suas almas e isso não deve ser “privilégio” feminino mas é que a lembrança das mulheres demonstra uma profunda sensibilidade pela humanidade, a tão comentada empatia. E a diferença talvez seja cultural sim mas, com certeza, também é biológica.

“No centro, sempre o fato de não querer e não aguentar morrer. E é ainda mais insuportável e angustiante matar, porque a mulher dá a vida. Presenteia. Carrega-a por muito tempo dentro de si, cria. Entendi que para as mulheres é mais difícil matar.”

É possível então concluir que a guerra realmente pode ser contada pela ótica das mulheres e isso é muito importante mas, talvez essa história nos conte que, definitivamente, a guerra não deveria ter nenhum rosto porque simplesmente não deveria exisitir.

“Não estou escrevendo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não estou escrevendo a história de uma guerra, mas a história dos sentimentos. Sou uma historiadora da alma.”


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Título em Português: A GUERRA NÃO TEM NOME DE MULHER

Título Original: У войны не женское лицо

Autor: SVETLANA ALEKSIÉVITCH

País: Bielorrúsia

Gênero: Não ficção – Documental

Ano: 1985

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 9788535927436

Edição: 2016

Nr. Páginas: 392

Tradução: Cecília Rosas

Capa: Daniel Trench

Para ver o link do livro na página da Companhia das Letras, clique aqui.

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