Resta um

“Parada. Na Marginal, às 18h32 de domingo. Travada.”

Resta um contrapõe o racional e o irracional, o lógico e o ilógico, o previsto e o imprevisto de uma maneira contundente. Aparentemente, essas contraposições podem parecer óbvias. Mas não nessa obra.

A primeira questão que se apresenta é a temática: o desaparecimento de crianças. É quando o absurdo emerge: o enigma quase indecifrável. Infelizmente, uma realidade. Cruel para uma criança ou adolescente cujo paradeiro e sofrimento se desconhece e dolorosa para suas famílias despedaçadas.

No Brasil, as estatísticas e as informações são fragmentadas. Ainda é recente a legislação que trata desse grave panorama nacional. Em 2005, foi sancionada a Lei 11.259 que determina a investigação imediata em caso de desaparecimento de criança ou adolescente. Em 2009, pela Lei 12.127, criou-se o cadastro nacional de crianças e adolescentes desaparecidos e em 2011, através da Lei 12.393 institui-se a semana de mobilização nacional para busca e defesa da criança desaparecida.

O cadastro do governo conta com menos de 400 desaparecidos registrados mas existem várias discussões sobre a atualização desse números e, outros cadastros não oficiais, de organizações não governamentais, dão conta de uma realidade de cerca de 40 mil desaparecidos. É um número estarrecedor. Raptos, violência doméstica, dependência química, distúrbios mentais, tráfico humano para exploração sexual, laboral e adoções irregulares, abandono, são algumas das causas de desaparecimentos.

Diante desta realidade, Isabela Noronha, Jornalista de formação, resolveu resgatar a experiência que teve entrevistando familiares de desaparecidos no ano de 2004 como matéria-prima para seu trabalho final no Mestrado de Criação Literária pela Brunel University, na Inglaterra, em 2012. Com Minus one, nome em inglês da sua obra, Isabela foi reconhecida com o Curtis Brown Prize, prêmio de uma das agências literárias mais tradicionais na Europa. Em 2015, a Companhia das Letras publicou Resta um em português.

Isabela Noronha Curtis Brown

Foto Divulgação na página The Curtis Brown Award

A história se passa em São Paulo. Amélia é uma menina de 12 anos que vai ao aniversário de uma amiga numa tarde de domingo. Não volta. Um mistério sem pistas. Um desespero a partir de cada minuto em que seus pais se dão conta de que algo aconteceu. Esse é o ponto de partida. Porém, a ficção não tem como foco principal a problemática adolescente mas a construção de dois pólos narrativos opostos em função do desaparecimento de Amélia. De um lado, Lúcia, a mãe e de outro, Dona Esmeraldina, uma senhora que cultiva árvores frutíferas.

O núcleo de Amélia é formado tão somente por ela e seus pais, Lúcia e José. A menina desaparece em uma fase de pré-adolescência quando os conflitos familiares tendem a intensificar-se. Lúcia é uma professora universitária e pesquisadora da Universidade de São Paulo. É mais do que uma profissional workaholic: sua vida são os números e a matemática, a lógica e a racionalidade. Com esse perfil, cabia a ela fazer o papel de linha dura na educação da filha. José era mais maleável, trabalhava em uma indústria e tinha mais tempo. O relacionamento com a filha era marcado pela cumplicidade. Quando a filha desaparece, cada um se desestrutura à sua maneira.

“Nada naquele cômodo tinha mais sentido: a cama não tinha a ver com o armário, que não tinha a ver com o criado-mudo nem com a janela ou com as cortinas. Eram elementos de conjuntos diferentes que tinham perdido seu ponto de intersecção.”

O núcleo real de Dona Esmê é formado basicamente por seu neto Kaique com quem tem uma relação perturbadora. Por outro lado, ela tem suas meninas, as árvores do seu quintal com as quais convive como se fossem humanas. Sua vida gira em torno de cuidar delas, de adubá-las, das frutas que geram, dos pequenos animais que habitam este ambiente, como os pássaros e as formigas. E de lembranças.

“Quando ele termina, vem falar comigo, quer saber por que minhas frutas são assim. Diz que dificilmente encontra carambolas tão doces, jabuticabas tão gordas, pitangas tão vermelhas, laranjas tão cheias de suco. Eu sorrio. Ele me encara, sério. ‘É o adubo, seu Simão.’”

A narrativa acontece em primeira pessoa. Primeiro através de Lúcia e posteriormente, através de uma sutil indicação, de Dona Esmê. O ritmo é intenso através do fluxo de consciência de ambas, que me lembrou Lygia Fagundes Telles em As Meninas.

“Chego suando à varanda. A febre. Não, é o calor. Vou até a laranjeira, sento na terra embaixo dela para pegar sombra. O vestido sobe um pouco, sobe demais. Minha menina me abraça. Kaique quer as pílulas. Levanto e procuro o restante de ramos secos para tirar. Tem saúvas no tronco. Por que fui contar que tinha voltado com as pílulas? Quantas formigas.”

E, nesse sentido, digamos, que a história vai pesando pois, é assim, que ocorre a construção das personagens. Lúcia é lógica mas caótica no seu desespero. Dona Esmê é uma senhora cujo filme da sua vida vai se desenrolando junto com sua rotina de jardineira. José… ah! José… Não, ele não é o personagem que a autora escolheu para construir minuciosamente mas talvez, na simplicidade de seus poucos detalhes, ele represente a lucidez. Ou a aceitação.

Isabela Noronha criou uma teia com as datas. A história começa em 2011 mas o desaparecimento de Amélia ocorre em 2004. O que a autora faz é abster-se da estrutura em capítulos e simplesmente apresentar o vai e vem de datas e dias da semana dos acontecimentos. O leitor tem que se dar ao trabalho de organizar esse calendário durante a leitura e entender o presente e o passado, o momento e as lembranças. E é isso que vai fazer toda a diferença. Essa não é uma ficção convencional. Por isso chamei de teia. Uma teia de muitos domingos. Tristes, chuvosos e vazios.

Resta um é um soco no estômago. Claro que não se espera amenidades de um livro sobre uma criança desaparecida. No entanto, é difícil deixá-lo de lado, interromper sua leitura. Primeiro, porque Lúcia fica obsessiva e recebe uma pista que pode levá-la à filha através de um e-mail misterioso de uma pessoa que se apresenta como P.

“A mentira, tanto quanto a verdade, precisa ser comprovada. Logo, se não consigo demonstrar que P. está mentindo, ele não está mentindo. Um paradoxo: me prender estritamente às provas não me faz cética ou cínica. Me faz crente. Mas fé que tenho é na lógica.”

Segundo, porque essa mãe, que procura uma lógica, que se culpa, que cria um cadastro em uma época que não se difundia tanta informação e não havia a disseminação da internet, que repensa seus sentimentos, que transforma sua razão de viver, que é enganada, ela é absolutamente humana. É uma mãe que procura uma lógica sim mas que não quer acreditar. Ela poderia ser qualquer uma de nós. É de reconhecer o trabalho da autora em fazer Lúcia tão real.

A construção da trama é um capítulo à parte. Percebe-se que a obra, como um trabalho final de Mestrado, foi acompanhada de um processo criativo e técnico muito intenso e alcançou um resultado muito surpreendente. Este é daqueles livros em que o leitor, ao terminar, precisa voltar. As sutilezas são muitas e podem passar despercebidas mas, um trabalho que escolhe tratar de lógica, teria que fazer jus à escolha.

Por fim, não somente por seu valor literário, voltamos à questão da temática porque não se sai ileso dessa leitura. O valor da obra também está na conscientização dessa absurda realidade que é o desaparecimento de crianças e adolescentes. A dor de Lúcia e José é sentida verdadeiramente pelo leitor. Eles são parte de uma ficção mas na vida real muitos a sentem. E não há lógica que amenize o conjunto vazio que Amélia representa.


Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Desaparecidos – Página do Governo Brasileiro ligado ao Ministério da Justiça e à Secretaria de Direitos Humanos

Mães da Sé – Associação Brasileira de Busca e Defesa a Crianças Desaparecidas (ABCD)

Associação Desaparecidos do Brasil – Organização não governamental


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Título: RESTA UM

Autor: ISABELA NORONHA

Gênero: Ficção – Romance

Nr. Páginas: 304

Ano: 2015

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 9788535926330

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