Elas por elas

“Mas quem serão elas?”

O que escrever sobre um livro que reúne vários textos? É um pouco difícil porque não é como passar as impressões de uma narrativa única. No entanto, eu queria muito escrever sobre essa coletânea que se tornou especial por várias razões.

Elas por elas é uma antologia que a jornalista e escritora, Rosa Amanda Strausz, organizou com contos, crônicas, poesias e aforismos de onze escritoras brasileiras.

Eu já estava fechando as malas para voltar para o Chile no final das férias e, por acaso, esse livro apareceu em algum perfil de rede social que não consigo me lembrar. O nome me chamou atenção. Algumas “coincidências” me indicavam que meu projeto de leitura em 2017 estaria relacionado com o tema das mulheres na literatura (a latinidade me perseguiu em 2016) e assim tratei de buscá-lo. Ele entrou na mala aos 47 minutos do segundo tempo.

Mas a verdade é que o nome me despertou pela perspectiva feminina. Antes de tudo, há que se esclarecer que o fato da ótica ser feminina não significa classificar o gênero como literatura “para mulheres”. Tem a ver pura e simplesmente com a possibilidade de se conhecer uma história ou uma opinião sob o ângulo de que lhe é próprio evitando distorções. Rosa Montero no seu A louca da casa já colocou a mão nesse vespeiro e foi taxativa. E eu me pergunto: como seria se uma mulher, no lugar de Tolstói, escrevesse Anna Karienina?

“Porém, vou ter que voltar ao princípio, ao enfadonho abecê do assunto, e contar mais uma vez as mesmas obviedades. Começando pela primeira: não, não existe uma literatura de mulheres.”

(Rosa Montero, A louca da casa, Espanha)

A apresentação da organizadora Rosa Amanda Strausz é como antever a sobremesa antes do prato principal: um deleite. Rosa traça uma linha do tempo imaginária entre o nascimento de Pagu em 1910 até chegar em Adriana Falcão que é a autora mais jovem, criando singelas intersecções. Para quem gosta de uma contextualização, como eu, é um alívio. É como um norte. Ou como assistir um filme com várias telas diferentes que se conectam. Pela literatura, como ressalta Rosa.

“Quando Ana ainda tinha seis anos e mesmo sem ser alfabetizada ditava seus primeiros poemas para a mãe, Cíntia nasceu em Porto Alegre.”

Além da sobremesa, tem a entrada. Cada escritora tem uma breve apresentação pessoal. Mais um ponto para Rosa. Uma das premissas de se ler um pequeno texto dessas autoras, é a de que, se ele te pegar, você fatalmente vai querer ler mais. E a organizadora já deixa essa bandeja na mesa.

Eu, particularmente, gosto das crônicas e dos contos. Eles são ágeis. Ao mesmo tempo, muitas vezes, te deixam a sensação de abandono… Como assim? Já acabou? É como uma dose rápida com efeito longo. Às vezes, até é difícil começar um outro conto se ainda está tentando entender o outro. Acredito ser muito bom ter sempre um livro de contos na cabeceira ou na bolsa. Eu, por exemplo, mantenho comigo agora um livro de contos e pensamentos com o sugestivo nome O livro dos abraços do uruguaio Eduardo Galeano (ainda parte do projeto de leitura 2016) e a edição em espanhol tem uma citação que exprime exatamente o que penso das prosas curtas:

“Lea una historia por día y será usted feliz la mitad del año. Lea una historia por día y será usted triste la otra mitad. Cada página es tan hermosa como el libro.”

(Koos Hageraats, HP/De Tijd, Holanda)

E vamos ao prato principal. A seleção foi impecável. Rosa soube dar o gostinho que precisamos para querer mais. Ou seja, voltar nas suas sugestões e ler outras obras dessas mulheres com histórias de vida tão diferentes mas que a seu modo registraram suas vivências e experiências de uma maneira que nos faz refletir.

De qualquer forma, alguns textos realmente me encantaram. Eu os destaco não por uma questão de valor literário, que não saberia distinguir, mas pura e simplesmente por identificação, sintonia e emoção.

A Crônica no 1 de Rachel de Queiroz é tão simples quanto memorável… Simplesmente amei o Dilema de Maria Valéria Rezende. Acho que conseguiria reconhecer o estilo de Lygia Fagundes Telles em Boa noite, Maria mesmo que não soubesse que era dela. E Pagu… Ah! Pagu! Se o trecho da carta de abertura de sua autobiografia Pagu: a autobiografia precoce de Patrícia é cortante assim, eu não posso imaginar o resto.

Porém, todos, absolutamente todos, são parte dessa experiência de mergulhar no universo feminino, ou como diz o subtítulo, Histórias de mulheres contadas por grandes escritoras brasileiras. Mas atenção e mais uma vez: são histórias de mulheres e não para mulheres. Tenho certeza que os homens também podem aproveitar dessa literatura e peço licença a uma Rosa, a Strausz, para citar de novo a outra Rosa, a Montero.

“E já é hora de os leitores homens se identificarem com as protagonistas mulheres, da mesma maneira que durante séculos nós nos identificamos com os protagonistas masculinos, que eram nossos únicos modelos literários; porque essa permeabilidade, essa flexibilidade do olhar nos tornará a todos mais sábios e mais livres.”

Elas por elas, definitivamente, é um presente em forma de literatura, brasilidade, sensibilidade e fortaleza.


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: ELAS POR ELAS: HISTÓRIAS DE MULHERES CONTADAS POR GRANDES ESCRITORAS BRASILEIRAS

Autor: Rachel de Queiroz, Patrícia Rehder Galvão, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Adélia Prado, Nélida Piñon, Maria Valéria Rezende, Livia Garcia-Roza, Ana Cristina Cesar, Cíntia Moscovich e Adriana Falcão

Organização: Rosa Amanda Strausz

Gênero: Poesia Brasileira

Ano: 2016

Editora: Nova Fronteira

ISBN: 9788520926482

Edição: 1a

Nr. Páginas: 205

Projeto gráfico de capa: Mayu e Dushka (Estudio Vintenove)

Para ver o link do livro na página da Amazon Brasil, clique aqui.


Crédito das imagens:

Clarice Lispector: Fraco e Moura

Rachel de Queiroz: Acervo Estadão

Nélida Pinon: Elisa Cabot

Adriana Falcão: Fabio Seixo

Lygia Fagundes Telles: Divulgação UBE

Ana Cristina Cesar: Acervo IMS

Maria Valeria Rezende: Adriano Franco

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