Aprender a viver

“Vou lhe contar a história da filosofia…”

Existe um movimento relativamente recente de interesse pela filosofia. Prova disso é o sucesso que alguns intelectuais, influenciadores de opinião,  colocam o tema em pauta e conquistam seguidores fora da sala de aula, nas redes sociais, em programas de rádio, televisão e palestras. Mas será que realmente entendemos o que vem a ser a filosofia?

O filósofo francês Luc Ferry foi ministro da educação na França de 2002 a 2004. Foi ele quem barrou o véu islâmico das escolas francesas em uma decisão pra lá de polêmica na época. No entanto, é preciso que essa informação venha à tona juntamente com o fato de que ele é representante de uma linha de pensamento importante chamada Humanismo Secular que é uma visão de mundo que se contrapõe aos dogmas da religião. Ou seja, Ferry traz à luz uma discussão filosófica que mexe com a crença religiosa. E também faz isso de uma forma acessível para quem não tem muito intimidade com a filosofia.

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O projeto de Aprender a viver – Filosofia para os novos tempos surgiu quando o autor foi questionado que seus livros não eram tão simples de ler quanto suas palestras de serem entendidas. Em seguida, em um momento de férias com amigos, pediram que Ferry produzisse uma obra sobre filosofia direcionada tanto aos adultos não iniciados como aos estudantes que poderiam ser inspirados a aprofundar-se na área. Desde aí, surgiu a ideia de um livro simples e didático mas que não fosse tão básico a ponto de se tornar negligente.

Me encaixo no rol desses adultos não iniciados. Comecei a ler Política de Aristóteles (veja a resenha aqui) e fazer um curso virtual de Filosofia Feminista com a Professora Márcia Tiburi no Espaço Cult (veja o curso aqui) e me dei conta que precisava entender a historiografia da filosofia. Eu tinha dois livros em casa que poderiam atender nessa demanda: Aprender a Viver e O Mundo de Sofia do norueguês Jostein Gaarder. Comecei a lê-los ao mesmo tempo.

Os dois são um passeio pela história da filosofia mas com projetos diferentes. O livro de Luck Ferry é uma aula teórica transformada em uma obra de não-ficção. O livro de Gaarder também é uma aula, porém, transformada em ficção.

Aprender a Viver tem uma proposta sustentada na posição de seu autor e começa desafiando o leitor quanto a definição de filosofia. Pensamento crítico, arte de questionar… Ferry desconstrói estes conceitos tão comumente associados ao objetivo de se estudar a filosofia.

“Filosofar é, no fundo, preferir a lucidez ao conforto, a liberdade à fé.”

E constrói uma linha de raciocínio que foge desse entendimento contemporâneo. A filosofia estaria relacionada com a consciência da finitude humana e a busca de uma razão que nos faça conviver com o medo da morte e das perdas. Acontece que, historicamente, o ser humano busca tais explicações na religião que lhe promete a salvação através da experiência da fé em Deus. O escritor faz referências principalmente ao Cristianismo mas acredito que essa mesma hipótese também poderia ser aplicada à religião com um todo.

“Por não conseguir acreditar num Deus salvador, o filósofo é antes de tudo aquele que pensa que, se conhecemos o mundo, compreendendo a nós mesmos e compreendendo os outros, tanto quanto nossa inteligência o permite, vamos conseguir, pela lucidez e não por uma fé cega, vencer nossos medos.”

Através dessa percepção, Ferry propõe a reflexão como uma forma de transferir a responsabilidade da própria felicidade para si mesmo e apresenta as três dimensões em que podemos compreender os diferentes pensamentos filosóficos com essa finalidade. A primeira é chamada Theoria e consiste no entendimento da natureza e no conhecimento do mundo em que vivemos. A segunda é a Ética e tem a ver com a forma em que nos relacionamos em sociedade. E a última é a Salvação propriamente dita que é justamente a maneira como encontramos a sabedoria na filosofia.

“Em outras palavras, se as religiões se definem como “doutrinas da salvação” por um Outro, pela graça de Deus, as grandes filosofias poderiam ser definidas como doutrinas da salvação por si mesmo, sem a ajuda de Deus.”

A partir daí, Ferry vai introduzir o leitor na história da filosofia propriamente dita, a começar pelos grandes pensadores da Grécia Antiga e pelos Estoicos. Em seguida, mostra a contraposição destes em relação ao Cristianismo. Passa aos Humanistas, aos Pós-Modernos e encerra com os Pensadores Contemporâneos. Esses são os cinco maiores momentos que ele avisa, no primeiro capítulo, de que vai tratar e que podem despertar o leitor a conhecer a obra dos próprios pensadores.

É possível afirmar que o autor é didático mas Aprender a Viver não é um livro de uma única leitura. Não é tão básico e isso não é ruim mas apenas sugere que, talvez, aqueles que ainda não tem uma maior proximidade com a filosofia vão precisar fazer consultas paralelas para poder partir de um mesmo ponto de partida. De qualquer forma, também não é surpreendente que isso aconteça porque a contradição aqui é que, embora o livro tenha sido escrito para iniciantes, a filosofia não é para principiantes. Demanda um esforço adicional no sentido de entendê-la como um sistema e, ao mesmo tempo, saber que o pensamento filosófico não é sua história em si mas um processo na busca de respostas sobre a nossa existência.

A leitura gera algum desconforto, principalmente, aos que são confrontados com sua fé religiosa, como eu. Ainda assim não discordo do autor pois, mesmo acreditando em Deus, acredito em uma fé raciocinada que não me salva por ela mesma. Ao contrário, a maneira pela qual vejo a salvação é mais próxima à apresentada pelo pensamento filosófico de Ferry. Então, cabe a mim encontrar a intersecção. Definitivamente, concluo que sua proposta de filosofia para os novos tempos desperta na medida certa para amar a sabedoria.

“Para viver bem, para viver livremente, com alegria, generosidade e amor, precisamos, antes de tudo, vencer o medo – ou, melhor dizendo, “os” medos, tão diversas são as manifestações do Irreversível.”

“Filosofar é aprender a morrer.” Montaigne – filósofo francês (1533 – 1592)

“Enquanto se espera viver, a vida passa” Sêneca – filósofo espanhol (4 a.C – 65)


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título em Português: APRENDER A VIVER – FILOSOFIA PARA OS NOVOS TEMPOS

Título Original: APPRENDRE À VIVRE: TRAITÉ DE PHILOSOPHIE À L’USAGE DES JEUNES GÉNÉRATIONS

Autor: LUC FERRY

Gênero: Filosofia

Ano: 2006

Editora: Objetiva

ISBN: 978-85-390-0105-7

Edição: 2010

Nr. Páginas: 239

Tradução: Véra Lucia dos Reis

Para ver o link do livro na página da Editora Objetiva, clique aqui.

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