O mundo de Sofia

“Era como se ela fosse uma boneca que de repente, por meio de um passe de mágica, despertasse para a vida…”

Na década de 90, O mundo de Sofia foi um sucesso súbito. Desses livros que quando entramos na livraria está na primeira gôndola dos mais vendidos. Foi escrito em 1991. Sua trajetória foi de um cometa: tradução em 60 idiomas e algo em torno de 50 milhões de exemplares impressos. Foi lançado no Brasil em 1995 e teve uma edição comemorativa em 2012. Qual o segredo desse sucesso?

Verdade seja dita: não são poucas as pessoas que relatam que começaram essa leitura e pararam. Eu sou uma delas. A primeira vez que comecei a ler, desisti e só voltei 10 anos depois, ou seja, agora. É que, embora o autor tenha escrito para seus alunos adolescentes, esta não é o tipo de leitura óbvia. E realmente não se poderia esperar que fosse óbvia uma ficção sobre filosofia…

imagem.aspx

Na época, o escritor norueguês Jostein Gaarder era professor de uma escola de ensino médio e já havia publicado alguns livros. Ele teve a ideia de escrever uma ficção para que os jovens pudessem se interessar a conhecer a história da filosofia de uma forma mais lúdica. Mas o que vem a ser mesmo filosofia?

00176_gg

No seu sentido etimológico, a origem vem do grego: philos é amor e sofhia, sabedoria. Então, Gaarder, ao batizar sua protagonista com o nome de Sofia, já apresenta sua intenção: o amor pela sabedoria. E esse amor nasce através do conhecimento da história dos principais sistemas de pensamento, da Grécia Antiga ao mundo contemporâneo.

Seria O mundo de Sofia um livro só para adolescentes? Eu diria que, ainda que a história gire em torno de uma, ele é para quem deseja conhecer a história da filosofia de uma forma diferente, independente da idade. Inclusive, como já comentado, é possível que um adolescente comece a leitura mas só a termine quando algo o desperte para o tema. Da mesma forma, também é possível que alguém já familiarizado com a temática ache a obra superficial. Depende da motivação e da bagagem de cada um. Mesmo assim, acho que o autor foi bastante criativo na sua ideia.

A grande sacada de Gaarder foi fazer do livro um experimento. E nada mais pode ser dito sobre isso sem correr o risco de estragar a surpresa e comprometer essa experiência pessoal. Pode-se dizer que entender o mundo literal de Sofia não é tão óbvio quanto possa parecer a sinopse que a apresenta como uma adolescente que, às vésperas do seu aniversário de 15 anos, começa a receber cartas anônimas com perguntas misteriosas e cartões postais do Líbano. As cartas logo revelam tratar-se de um curso de filosofia dirigido à ela por um professor que se apresenta como Alberto Knox. Já os cartões são endereçados a uma outra menina, Hilde Møller Knag, por seu pai, Albert Knag que é Major das Forças da Paz pela ONU no Líbano. No entanto, os postais estão aos cuidados de Sofia. A questão é que Sofia não faz ideia de quem Hilde seja.

“Em poucas horas de uma única tarde ela foi confrontada com três enigmas. O primeiro: quem deixou os dois envelopes na caixa postal. O segundo eram as perguntas difíceis que aquelas cartas traziam. E o terceiro enigma era a identidade de Hilde Møller Knag, e por que o cartão destinado a uma desconhecida foi endereçado primeiro a Sofia.”

Não desista se parecer sem sentido. Sofia poderia ter desistido. Mas Gaarder quis que ela continuasse e isso é o que ele quer fazer com você, leitor. Estimulá-lo a seguir junto e imaginar-se como aluno desse curso. Tente responder as perguntas como ela tentou. Aceite o jogo.

“Como o mundo foi criado? Existe algum propósito ou significado nos acontecimentos? Existe vida após a morte? Como conseguiremos achar respostas para essas perguntas? E principalmente: como devemos viver?”

A estrutura do romance está dividida em 35 capítulos. Cada um vai ter um título e apresentar uma questão. Por exemplo, o título do 2o capítulo é A cartola e a questão é … a única coisa de que necessitamos para ser filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas… Aliás, se vale um conselho, além de tentar se colocar no lugar de Sofia, preste muita atenção a cada um desses fragmentos que complementam o título de cada capítulo.

A narração também vai se dividir entre o mundo de Sofia e o curso de filosofia. O primeiro é a própria rotina da menina, sua vida familiar, a escola, a expectativa de seu aniversário. O segundo é o que acontece quando Alberto se propõe a apresentar a história da filosofia para Sofia, o que é feito de uma maneira muito peculiar. Embora o curso se inicie por correspondência e tampouco ela saiba quem o está enviando, a dinâmica muda no desenrolar da história. A didática do professor é muito útil pois ilustra o abstrato e o complexo com um artifício que, provavelmente, Gaarder usava em sala de aula.

Por exemplo, para explicar a Teoria Atomista de Demócrito (460-370 a.C.), o último dos grandes filósofos da natureza, o professor pergunta a Sofia “Por que o Lego é o brinquedo mais genial do mundo?” e faz entender que a teoria postulava que todas as coisas são formadas de pecinhas muito pequenas, os átomos, que assim como o lego são indivisíveis, diferentes em forma e tamanho e podem ser reutilizados para formar várias coisas. Alberto parece se utilizar do método construtivista para ensinar, fazendo com que Sofia recorra à sua realidade para aprender.

Essa é apenas uma das várias aterrisagens didáticas que Gaarder usa através do professor. Existem outras como comparar a busca dos filósofos pela verdade com uma história policial, a vida com um truque de mágica, o universo com a cartola do coelho, o filósofo com a criança, o prazer em excesso com o chocolate ou algo ainda mais interessante como comparar as vidas de Sócrates e Jesus, visitar um café francês para conhecer o Existencialismo de Sartre.

E ainda relaciona o passado com o contexto atual como quando conta o mito da Noruega fazendo alusão ao terrorismo ou na representação do pai de Hilde, como um major da Organização das Nações Unidas, no Líbano, uma região afetada por conflitos civis e cuja Noruega, país do nosso autor e onde se passa a ficção, teve forte participação na fundação da ONU e no envio de forças pela paz.

Mais além de todas essas argumentações e ferramentas, o aprendizado é permeado por acontecimentos curiosos e até mesmo impossíveis. Alberto consegue, por exemplo, fazer uma espécie transmissão ao vivo de Atenas. Até aí não nos surpreenderia mas o fato é que ele também volta no tempo para conversar pessoalmente com Sócrates. Não desligue… o que aparentemente é sem pé nem cabeça pode fazer sentido mais tarde…

O curso continua, percorre a história, contrapõe mitologia, religião e ciência com a filosofia. E é muito feliz em trazer uma questão de suma relevância no contexto dessa historiografia. Não acredito que tenha sido à toa que os alunos de Gaarder tenham sido representados por uma menina. Ele deixa claro que as mais diversas linhas de pensamento, desde os primórdios, não consideraram a perspectiva feminina pura e simplesmente porque a mulher foi relegada a uma posição de inferioridade na sociedade. A partir dessa segregação, o autor reconhece que o pensamento das mulheres foi esquecido e prevaleceram as produções sob a ótica masculina.

“Estou me referindo especificamente aos filósofos homens. Pois a historia da filosofia é permeada pela presença de homens. Isso porque a mulher foi historicamente menosprezada, como ser do sexo feminino e também como ser pensante. Isso é triste, uma vez que assim se perderam muitas experiências importantes. Somente no nosso século é que as mulheres entraram de fato para a história da filosofia.”

(veja aqui a resenha de Política para saber um pouco mais do pensamento de Aristóteles sobre as mulheres)

Mesmo assim, Gaarder faz Sofia conhecer o diálogo O banquete de Platão em que este “permite” que Diotima contribua com seu raciocínio, coisa que normalmente não era dado às mulheres. E também menciona Simone de Beauvoir, como não poderia deixar de ser, não somente por ser ela uma filósofa mas principalmente por ser uma representante do que podemos chamar de Filosofia Feminista. Poderia ter citado muitas outras mas ainda que ele tenha feito essa mea culpa, Sofia infelizmente não chegou a conhecer outras pensadoras mulheres como Cristina de Pizan na Idade Média, Mary Wollstonecraft na Idade Moderna ou Angela Davis, nossa contemporânea, e tantas outras que transpuseram barreiras imensas.

“- Não foi por acaso, não. Sartre era um frequentador assíduo de cafés. Em cafés como este ele encontrou sua parceira de toda a vida, Simone de Beauvoir. Ela também foi uma filósofa existencialista.

– Uma filósofa!

– Exatamente.

– Acho que estou aliviada ao ver a humanidade finalmente começando a se civilizar.”

O resultado de todas as abordagens é que a menina consegue se erguer da pelagem do coelho da cartola pra usar a linguagem figurada criada pelo professor e, junto com ele, questiona sua própria existência a partir do conhecimento adquirido. É nesse momento, simbolizado em seu aniversário de 15 anos, que a transformação ocorre.

“Sofia se sentia como se fosse prisioneira de um mundo mágico.”

O Mundo de Sofia é uma bela experiência de leitura e faz o leitor se deparar com desafios e pensar em possíveis teorias sobre os acontecimentos no livro e na vida real. A obra apresenta um panorama. Desde aí, surge um convite para continuar. Essa continuação só é possível se partirmos para ler e estudar os diversos pensamentos filosóficos elaborados e as obras que deles emergiram para questionar o mundo em que vivemos ao longo da história.

“Um filósofo jamais se acostuma com o mundo.”

Ao tomar coragem para esse projeto de leitura, valem alguns segredinhos supostamente deixados por ninguém menos que Sócrates: partir do ponto de que não somos nem de longe os donos da verdade, estabelecer diálogos e desenvolver nosso próprio raciocínio.

…o verdadeiro conhecimento nasce do íntimo do indivíduo. Não pode ser imposto por outros. Somente o conhecimento interior é a autêntica compreensão.”


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


Título em Português: O MUNDO DE SOFIA

Título Original: SOFIES VERDEN

Autor: JOSTEIN GAARDER

Gênero: Romance

Ano: 1991

Editora: Companhia das Letras

Primeira edição no Brasil: 1995 – ISBN: 978-85-7164-475-5

Edição: 19/11/2012 – ISBN: 978-85-3592-189-2

Nr. Páginas: 568

Tradução: Leonardo Pinto Silva

Capa: Sabine Dowek

Para ver o link do livro na página da Editora Companhia das Letras, clique aqui.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: