Quarto de despejo

“15 de julho de 1955 – Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela…”

Cada vez que vejo a imagem de Carolina Maria de Jesus divulgando seu livro Quarto de despejo sinto um certo constrangimento. Todos que a lemos hoje, analisamos sua vida e escrita do alto de nossos privilégios. É um pouco difícil falar de literatura quando Carolina nos faz sentir a pobreza tão de perto. Mas ela lia e escrevia enquanto sobrevivia. Então, vamos tentar buscar essa conexão.

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“… As oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de veludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.”

Quarto de despejo é o diário de uma mulher, negra, mãe solteira, favelada. Muitos estigmas reunidos em uma só pessoa e que a fizeram também viver os respectivos preconceitos. No entanto, sua maior dor era mesmo a fome.

“3 de junho – Quando eu estava no bonde a Vera começou a chorar. Queria pasteis. Eu estava só com 10 cruzeiros, 2 para pagar o bonde e 8 para comprar carne moida. A Dona Geralda deu-me 4 cruzeiros para eu comprar os pasteis, ela comia e cantava. E eu pensava: o meu dilema é sempre a comida!”

Carolina nasceu em 1914 na cidade de Sacramento, em Minas Gerais. Estudou até o 2o ano do ensino fundamental. Depois de migrar para São Paulo, teve três filhos: João José, José Carlos e Vera Eunice. A família morava em um barraco na Favela do Canindé que, em meados dos anos 60, foi derrubada para a construção da Marginal do Tietê. Para sustentá-la, Carolina catava papel mas, como dizia o poeta Renato Russo em uma história parecida com a dela, até a morte trabalhava mas o dinheiro não dava para se alimentar… Dentro dessa absoluta miséria, a mulher fraquejava mas não se entregava. Quando podia, lia livros recolhidos no lixo e escrevia seu diário em cadernos velhos. Por mais irreal que possa parecer, Carolina alimentava a alma na esperança de publicar seus relatos e conseguir, de alguma forma, meios para sair daquela situação.

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Em uma dessas coincidências do destino, o jornalista Audálio Dantas visitou a favela e a conheceu. Ele também percebeu que a matéria que desejava escrever já estava escrita. Nada que ele dissesse poderia retratar aquela realidade mais do que o diário. Desde aí, começa a trajetória do que se passou chamar de literatura-verdade.

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Primeiramente, trechos do diário foram publicados no jornal Folha da Noite e na revista semanal O Cruzeiro e posteriormente, em 1960, o livro foi publicado em edição feita pelo jornalista, já tendo sido traduzido para 13 idiomas e lançado em 42 países. A narrativa é fiel aos cadernos da autora. Sua escrita foi preservada assim como seus erros gramaticais, o que confere ainda mais pureza à obra. No entanto, ainda que a leitura possa ser aparentemente simples, sua absorção é árdua. Enquanto o leitor está lendo confortavelmente, ela conta sua rotina de buscar água na lata, de sair para catar papel com o corpo doendo, de não ter quem tome conta dos filhos ou quem a ampare. Conta que o dinheiro não é suficiente, que os filhos não tem o que comer, que a menina não tem sapato pra calçar, que os vizinhos batem nos meninos quando ela sai. Que anda suja porque não tem dinheiro pra comprar sabão. Apesar do seu esforço e de sua coragem, falta o mínimo necessário para viver com dignidade.

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“16 de julho – Levantei. Obedeci a Vera Eunice. Fui buscar agua. Fiz o café. Avisei as crianças que não tinha pão. Que tomassem café simples e comesse carne com farinha. Eu estava indisposta, resolvi benzer-me. Abri a boca duas vezes, certifiquei-me que estava com mau-olhado. A indisposição desapareceu, sai e fui ao seu Manoel levar umas latas para vender. Tudo quanto eu encontro no lixo eu cato para vender…”

Carolina expõe uma realidade em que todas as dificuldades estão de alguma forma conectadas. A fome é uma das mais graves aflições porque está na base dessa pirâmide (fazendo uma pequena alusão à teoria da hierarquia de necessidades do psicólogo americano Abraham Maslow) mas sua vida também reflete um conjunto de outros problemas. É possível afirmar que a autora poderia ter tido mais oportunidades se não tivesse interrompido seus estudos, por exemplo. A questão da migração para centros urbanos em busca de alguma atividade remunerada mas que esbarra na falta de qualificação e o consequente estabelecimento em áreas sem estrutura é outro exemplo. A marginalização se soma ao contexto da ausência de políticas públicas básicas.

“… Lavei as roupas e o barracão. Agora vou ler e escrever. Vejo os jovens jogando bola. E eles correm pelo campo demostrando energia. Penso: se eles tomassem leite puro e comessem carne…”

Carolina não só é um exemplo dessas circunstâncias como também seu relato mostra a continuidade desse círculo vicioso ao contar que seus próprios filhos iam para a escola desnutridos. Além dela, seus vizinhos, muitos também migrantes, engrossavam as estatísticas do baixo nível de escolarização e qualificação e, consequentemente, não tinham oportunidades. A total falta de estrutura básica de saúde, moradia e trabalho é a porta de entrada à doença do alcoolismo e da violência.

“8 de agosto – Saí de casa as 8 horas. Parei na banca de jornais para ler as noticias principais. A Policia ainda não prendeu o Promessinha. O bandido insensato porque a sua idade não lhe permite conhecer as regras do bom viver. Promessinha é da favela da Vila Prudente. Ele comprova o que eu digo: que as favelas não formam carater. A favela é o quarto de despejo. E as autoridades ignoram que tem o quarto de despejo…”

Sua lucidez diante de todas essas questões é impressionante. Suas deduções são simples, porém, exatas e isso é surpreendente e, ao mesmo tempo, não deveria ser. Afinal, a autora demonstra que, independentemente do fato dela ter tido pouco acesso a estudo formal, sua vivência é mais importante e a torna mais apta a contar sua própria realidade.

Além dessa conjuntura, a perspectiva individual de Carolina contribui para agravar sua condição social. Como mulher, como negra e como mãe solteira, seu depoimento é mais contundente no sentido de mostrar o quanto mais era difícil enfrentar todas as dificuldades e o preconceito e, ao mesmo tempo, mais corajoso como denúncia e não aceitação diante de um status quo imposto.

“… Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondia-me:

-É pena você ser preta.

Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico…

…O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém.”

Carolina enfrentou os vizinhos, encarava os desconhecidos, questionava os políticos e desafia até hoje a intelectualidade resistente à sua escrita. Não se restringiu ao papel que o destino e a história reservou para ela. Acreditou em sua sensibilidade, intuição e em seu espírito. Independente de técnicas, formação, experiência, poder econômico. Foi uma alquimista das palavras. E as transformou em literatura. Prova disso são seus leitores e os estudos baseados em sua obra.

“… Tem pessoas aqui na favela que diz que eu quero ser muita coisa porque não bebo pinga. Eu sou sozinha. Tenho três filhos. Se eu viciar no álcool os meus filhos não irá respeitar-me. Escrevendo isto estou cometendo uma tolice. Eu não tenho que dar satisfações a ninguem. Para concluir, eu não bebo porque não gosto, e acabou-se. Eu prefiro empregar o meu dinheiro em livros do que no álcool. Se você achar que eu estou agindo acertadamente, peço-te para dizer:

– Muito bem, Carolina!”

A escritora morreu em 1977. Seus outros livros não tiveram a mesma repercussão. Depois do sucesso, continuou a ser marginalizada. Tinha personalidade forte e era previsível que continuasse a não ser aceita. Passados 40 anos da sua morte, a obra toma cada vez mais fôlego. Recentemente foi incluída na lista de leitura obrigatória para os vestibulares da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Unicamp. A Editora Ática lançou nova edição em 2014 com prefácio de Audálio Dantas e posfácio com depoimentos da própria autora, além de ilustrações de Vinicius Rossignol Felipe. É uma edição pensando no público juvenil mas que alcança a todos. Calorosos debates repercutem sobre sua importância literária.

Quarto de despejo é uma experiência forte, comovente e dolorosa. O leitor deve se preparar para ela. Ao fim, resta uma constatação, a de que o ser humano precisa alimentar seu corpo, sua mente e seu espírito. Igualmente.

Vivemos em uma sociedade em que as pessoas têm diferentes níveis de poder aquisitivo. Ainda que a desigualdade seja perceptível em cada esquina ou discutida nas redes sociais, muitas vezes, a miséria explícita não é conhecida na sua mais face mais dura. Por isso Carolina deve ser lida e discutida nas escolas assim como é estudada no meio acadêmico dentro e fora do Brasil. E, principalmente, mais Carolinas deveriam ser ouvidas pelos que almejam cargos públicos.

Que sua história seja constrangedora na medida certa em que nos inspire a ler e a buscar mais consciência e justiça social.


A realidade brasileira é conhecida. O que faz com que a comida não chegue à mesa não é a questão de produção de alimentos e sim questões históricas, políticas e econômicas que geram a famigerada desigualdade social. Só recentemente, em 2014, a Organização das Nações Unidas para a Fome e a Agricultura (FAO) reconheceu que o Brasil saiu do mapa mundial da fome, ainda que nesse mesmo período 3,4 milhões de brasileiros ainda passassem fome (nos anos 90 eram 25 milhões). Porém, segundo o IBGE, 7 milhões de brasileiros ainda estão considerados em casos de insegurança alimentar.

“7 de janeiro – Hoje eu fiz arroz e feijão e fritei ovos. Que alegria! Ao escrever isto vão pensar que no Brasil não há o que comer. Nós temos. Só que os preços nos impossibilita de adquirir…”


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


Título: QUARTO DE DESPEJO

Autor: CAROLINA MARIA DE JESUS

Gênero: Diário

Ano: 1960

Editora: Ática

Edição: 2014 – ISBN: 978-85-0817-127-9

Nr. Páginas: 197

Capa e ilustração: Vinicius Rossignol Felipe

Para ver o link do livro na página da Editora Ática, clique aqui.

6 comentários em “Quarto de despejo

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  1. Olá! Estou com este livro na estante para ler, sei que é forte e vou adiando a leitura. Sua resenha, como sempre, ficou inspiradora. Fiquei feliz em ver várias fotos do livro nas redes sociais, o que significa que está tornando-se muito conhecido. E pensar que ainda há quem duvide da autoria do livro. Abraço.

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