Anna Kariênina

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira…”

Foi na Rússia de 1873 que um homem branco, casado, pai de muitos filhos, culto, religioso e com título de conde, começou a escrever sobre famílias felizes e infelizes. Queria contar uma história que, aos olhos da sociedade, pudesse servir de reflexão. A princípio, a ideia seria contrapor esses dois “tipos” de famílias e a novela se chamaria Dois casamentos. Porém, um dos personagens parece ter tomado vida própria e tomou o protagonismo para si. Essa criatura é Anna Kariênina e o criador, Liév Nikoláievich Tolstói.

Essa é minha primeira incursão nesse ramo da literatura mundial e clássica. Primeiramente li a edição em português da Cosac Naify com tradução e apresentação de Rubens Figueiredo. Depois foi a vez da edição em espanhol da Alba Editorial com tradução, introdução e notas de Víctor Gallego Ballestero. Essa releitura foi acompanhada no Diplomado de Leitura Crítica da Universidad Adolfo Ibañez, em Santiago, no Chile, pelo escritor chileno Pablo Simonetti. Por último, também tive acesso ao livro Lições de literatura russa do escritor russo Vladimir Nabokov. Portanto, essas foram as fontes e influências que me ajudaram nesse projeto.

Capa Anna Karénina

Imagem da Capa: Yelizaveta Aleksándrovna, princesa Bariátinskaia – 1858

Liév Tolstói é um dos expoentes da chamada Era de Ouro da Literatura Russa que despontou no Século XIX. Segundo Nabokov, Tolstói é o maior prosador russo de sua época. Nasceu em 9 de setembro de 1828 em uma cidade chamada Iásnaia Poliana, ao sul de Moscou, em uma família de origem aristocrática. Começou a cursar Direito e Línguas Orientais mas não chegou a concluir. Transitou entre os dois grandes centros na época, Moscou e São Petersburgo. Começou a publicar seus escritos, porém, irrequieto, decidiu viajar pela Europa onde conheceu ninguém menos que Victor Hugo, autor de Os miseráveis. Em seguida, retornou à Rússia. Em 1862, casou-se com Sônia (Sophia) Behrs com quem teve 13 filhos. Entre 1863 e 1869, escreveu e publicou Guerra e Paz. Nesse momento, já havia conquistado reconhecimento mas Nabokov também ressalta que “era um homem robusto com uma alma irrequieta que, ao longo de toda a vida, ficou dividido entre seu temperamento sensual e sua consciência supersensível”.

L.N.Tolstoy_Prokudin-Gorsky

Última foto colorida de Tólstoi em sua propriedade em 1908.

Fonte: Wikipedia. Autor: Sergei Prokudin-Gorskii

Rubens Figueiredo conta que a inspiração para Anna Kariênina atropelou outros projetos do autor. Uma trágica história real fez Tolstói decidir escrever sobre um tema muito sensível e descortinar uma realidade que a hipocrisia não deixava transparecer. A trama foi escrita entre 1873 e 1877 para ser publicada em capítulos em uma revista periódica chamada Mensageiro Russo. No entanto, Tolstói e o editor da revista se desentenderam por causa do posicionamento do autor a respeito da guerra entre russos, sérvios e turcos. O editor simplesmente ignorou a parte que lhe desagradava e resumiu o final da história do seu jeito. Tolstói se revoltou e resolveu publicar todos os capítulos por conta própria o que deu origem à edição única.

Yasnaya_Polyana atual

Foto atual da casa de Tolstói em Iasnáia Poliana onde escreveu a maior parte da novela.

A primeira forma de publicação explica a estrutura da novela em 8 partes, sendo a última a que causou o desentendimento. Cada parte é formada por pequenos capítulos que alternam os núcleos da novela e que estão em sequência cronológica, à exceção dos casos em que a narrativa volta para contar uma mesma cena sob a perspectiva de um ou outro personagem. Essa técnica mostra que o narrador é onisciente no sentido de conhecer as emoções distintas a cada um e isso também se demonstra através do fluxo de consciência que, segundo Nabokov, o russo teria sido um precursor.

A novela possui 801 páginas na tradução para o português e 1002 na edição em espanhol. A princípio pode parecer uma grande diferença mas acredito que mais se deva à diagramação. Creio também que, na medida do possível, é muito interessante ler uma obra na sua versão original mas, no caso do russo, isso é um pouco complicado… Então, o recomendável é buscar ler a tradução do original, ou seja, diretamente do russo para o português ou espanhol que foi o caso das duas traduções escolhidas. A menção à tradução direta na edição da Cosac consta do texto da contracapa e a edição espanhola ganhou os prêmios Tradução em Literatura Russa em 2012, na Espanha, e Internacional Read Russia 2012 de melhor tradução de um clássico do Século XIX.

Uma prova que ilustra a maestria de Tolstói na arte de tecer palavras e fazer literatura é o emblemático começo da novela que é reconhecido em qualquer idioma…

“Todas las família felices se parecen; las desdichadas lo son cada una a su modo.”

E uma curiosidade citada por Nabokov e que só um original pode transmitir, acontece no parágrafo seguinte ao começo da novela. Ocorre que casa, no sentido de lar, em russo, é “dom” e esta palavra é repetida por 8 vezes neste trecho: como um sino que anuncia o tema da família. O escritor Pablo Simonetti nos fez ver que a utilização desse recurso, em idiomas como o português e o espanhol não faz sentido porque é justamente o que se busca evitar e assim foi feito porque não teria efeito repetir a palavra casa e não remeter ao som do sino. De qualquer forma, esse é um bonito exemplo das possibilidades literárias e das inúmeras imagens criadas por Tólstói.

Antes de entrar na temática, é preciso ressaltar que Anna Kariênina é dessas obras tão conhecidas que se lê sabendo o final. No entanto, optei por passar minhas impressões sem mencionar os desenlaces. A primeira razão é justamente porque a história já é amplamente divulgada e a segunda, e principal, é porque a ideia é passar minha experiência individual e algumas análises acessadas preservando os “segredinhos” que todo mundo parece saber mesmo sem ter lido. Ou seja, vou fazer como a sociedade retratada na obra: fingir que não sei que todo mundo sabe e explicar como introdução o que não me permita cair em spoiler.

A primeira coisa que se deve levar em consideração é o contexto. A história se passa no Império Russo do Século XIX mais precisamente em um núcleo socialmente privilegiado. São pessoas com títulos de nobreza, frequentando círculos, ostentando padrões, julgando uns aos outros e, obviamente, fazendo alianças. Tolstói escreve sobre os casamentos que, muitas das vezes, eram arranjados de acordo com os interesses familiares. Embora tudo isso tenha acontecido em um lugar tão distante e em um tempo que já parece tão remoto, não soa como novidade. Porém, a questão crucial aqui e que ainda está muito arraigada aos dias de hoje, é a cultura machista da sociedade.

A escritora espanhola Rosa Montero, no seu livro A louca da casa (ver resenha aqui), toca nesse ponto abertamente: “Mais de um bom autor se perdeu por causa de sua ânsia doutrinária; mas às vezes acontece, em certos casos especiais, de o próprio talento salvar o escritor da cegueira de seus preconceitos. Como aconteceu, por exemplo, com Tolstói, que era um homem extremamente retrógrado e machista. Ele se dispõe a escrever Anna Karenina como um exemplo moral de como a modernidade destruía a sociedade tradicional russa; pretendia explicar que o progresso era tão imoral e dissolvente que as mulheres até cometiam adultério! O romance partiu desse preconceito arcaico, mas depois o poderoso dom narrativo de Tolstói, seu daimon, seus brownies, tiraram-no do encerro de sua ideologia e o fizeram se render à verdade das mentiras literárias. Por isso, seu romance acabou mostrando o contrário do que pretendia: a hipocrisia social, a vitimação de Ana, a injustiça do sexismo.”

Dado o contexto, é possível apresentar sua protagonista. Anna Arcádievna casou-se com Aleksiei Aleksándrovitch Kariênin, funcionário do governo, 20 anos mais velho que ela, graças a uma, digamos, articulação de uma tia. Se tornou Anna Kariênina e passou a gozar do respeito de estar casada com alguém de posição social elevada. Além disso, eles têm um filho Serioja que é a razão da vida de Anna. Esse é o primeiro casamento ao qual se referia Tolstói quando deu à novela um título provisório. E é o casamento infeliz porque Anna trai Kariênin com Aleksiei Kirílovitch Vrónski, um militar de cavalaria. Ela o conhece por acaso em uma viagem de São Petersburgo, onde vive, a Moscou quando vai ao encontro do irmão para tentar ajudá-lo em um conflito familiar. Adivinhem qual conflito?…

Dária Aleksándrovna (Dolly) descobre que o marido, Stiepan Arcáditch Oblónski (Stiva), a traiu com a preceptora dos filhos e Anna é convocada para apaziguar os ânimos já que ela tem toda a confiança e o respeito de Dolly que está desesperada enquanto Stiva está confiante. A ironia de Tolstói é colocar essa cena de abertura, em que Anna é tão condescendente com a traição do irmão assim como é tão convincente de que Dolly deva perdoá-lo, e criar essa situação em que ela cruza o destino com Vrónski para cair em uma paixão em que nem ela, nem a sociedade que ela representa, a perdoará. Tolstói constrói Anna de maneira que ela sirva de mau exemplo. Mas as nuances de sua personalidade e de seu caráter, tentando ir de encontro ao que ela mesma era uma legítima representante, são tão bem delineadas que Anna é, de uma certa maneira, considerada uma heroína. Do seu tempo.

Ao mesmo tempo que tudo isso acontece (Simonetti aponta como sendo um recurso do autor para dar a sensação ao leitor de que a novela começa em movimento), Vrónski conquistava o coração da jovem Iekaterina Aleksándrovna Chersbátskaia. Mais conhecida como Kitty, ela é irmã de Dolly e espera ser pedida em casamento por ele no primeiro baile em que se apresentará. O que Kitty não espera é que acaba sendo pedida em casamento por outro, o atormentado e corretíssimo Kostantin Dmítrich Liévin, a quem recusa, esperando o pedido de Vrónski que, tão volúvel quanto Stiva, acaba dançando a mazurca, típica dança russa, com Anna e esquece que Kitty existe.

Está dada a liga da trama que faz o leitor esquecer que outro mundo exista durante 1000 páginas. Tolstói está presente como mentor e não há uma palavra sequer desperdiçada na tarefa de criar cada detalhe que compõe essa obra épica. Mas ele também está presente como personagem. Liev Tolstói se deixa refletir em Liévin, a começar pelo nome. É através desse personagem que o autor revelará qual o tipo de casamento que ele acredita ser o casamento feliz. Demonstrará não somente a forma como ele acredita que uma união deve estar baseada no amor e no encontro de almas, mas também suas ideias com relação à sociedade, religião, política, trabalho e a vida no campo. Liévin é sua própria consciência e, ao mesmo tempo, um protagonista paralelo a Anna, sem deixar de ser um antagonista.

Desta maneira, é possível entender o que Rosa Montero quis dizer com o fato do romance ter partido do preconceito. Através de Liévin, Tolstói desejou transmitir a moral que seu discernimento apontava entre o certo e o errado. Mas a base estava profundamente enviesada pelo pensamento de que ao homem era permitido escolher, opinar, estudar, ascender profissionalmente, tomar riscos. À mulher lhe cabia preparar-se para um casamento, ser escolhida, cuidar da família, conformar-se. O autêntico modelo de sociedade patriarcal.

Anna não pensava diferente. Ela agia de acordo com esse modelo mas, ao se apaixonar, foi autêntica na medida do possível. Por um lado, ela assumiu seu romance quando era muito mais fácil manter as aparências. Por outro lado, não aceitou o divórcio cuja condição era assumir também sua posição como adúltera o que geraria uma enorme discriminação social que impactaria não somente a sua vida mas a de seu filho também.

Liévin domina cada vez mais a atividade agrícola de sua fazenda, se aproxima dos mujiques, os camponeses que trabalham em suas terras, escreve um livro para defender ideias conservadoras com relação a forma ainda servil das relações de trabalho, discute o regime da propriedade de terra. Redescobre o amor, questiona a existência e a morte, aceita Deus, discute a posição dos russos na guerra com os turcos.

Anna é cada vez mais passional e Liévin, questionador. Ambos atormentados se deixam levar por pensamentos angustiantes. Por um lado, destrutivos. Por outro, construtivos. Os contrastes ou as dualidades vão ficando cada vez mais evidentes. Rubens Figueiredo os cita como sendo os dois casamentos, o adúltero e o legítimo; as duas capitais; o campo e a cidade; a alta sociedade e a vida dos mujiques; o intelectual e o homem prático. Mas também se pode considerar a luz e a escuridão, a primavera e o inverno, o frio e o calor. A chave do mistério é lembrar a perspectiva de seu criador. Tolstói é um mestre em mensagens subliminares e imagens que vão muito além da mera composição de um cenário. Uma hora é o som da roda do trem como um presságio, outra é o sentido do vento ou a tormenta que denotam o estado emocional de um personagem, outra é a égua montada por Vrónski que se parece com Anna. São inúmeras cenas importantes, sombrias ou leves, que formam o conjunto da obra de forma irretocável.

A qualidade literária, analisada por inúmeros especialistas, reconhecida pelos críticos, estudada pelos amantes da Literatura, convertida em nada menos que 6 produções cinematográficas, com certeza absoluta, dá o aval para que a novela seja entendida como uma obra clássica mas o fato é que, mesmo nos dias de hoje, guardadas as devidas proporções, a temática ainda é, de alguma forma, atual. A sociedade ainda é machista, as aparências ainda ditam as regras, a hipocrisia ainda reina.

Após publicar Anna Kariênina, Tolstói se converteu ao Cristianismo embora sua ideia de religião fosse radical. Dentro da sua concepção anarquista, desejava se desprender dos bens materiais. Essa conduta levou a uma disputa de seus direitos autorais entre a esposa Sônia Bhers e um seguidor de sua seita, Tchértkov. Por fim, foi excomungado pela Igreja Ortodoxa em 1901. Em 1910, fugiu de casa em busca de isolamento. Não chegou a lugar algum pois morreu, por uma dessas coincidências literárias (só se entenderá a obsessão se ler o livro), em uma estação de trem em 7 de novembro de 1910. Ficou seu legado, uma vasta obra e, mais do que isso, sua vida registrada em seus diários.

A leitura de Anna Kariênina pode ser feita sem pretensões. O mito da Literatura Russa não é um obstáculo. Tolstói escreveu uma novela para leitores de uma revista periódica. No entanto, eu diria que vale a leitura atenta, a releitura, o estudo, um projeto de leitura complementar na busca de aproveitar intensamente toda a riqueza de detalhes.

Não se assuste pelo tamanho ou pela dificuldade inicial de tentar memorizar os nomes próprios russos e seus respectivos apelidos tão complicados e variados. A imersão dá conta. A edição em português traz uma lista e um organograma com a relação de personagens que facilitam muito.

Afinal, seria ou não Anna Kariênina uma novela feminista? Na minha opinião, a resposta é sim, se guardadas as proporções: Anna foi revolucionária, lutou contra uma barreira descomunal de preconceito, inclusive dela mesma. Ou não seria feminista, pelo simples fato de ter sido escrita por um homem na sua condição social. Assim como Dom Casmurro, a grande obra machadiana, publicada em 1899 com a mesma temática, induz à condenação de Capitu pelo simples fato de que o narrador é o próprio marido, um advogado em causa própria dos seus tormentos e inseguranças. Se Anna ou se Capitu fossem reais, tivessem voz e contassem suas histórias, seriam as mesmas versões que nos chegaram? De todas as maneiras, a força literária faz com que essa temática seja posta e discutida. Isso já é extremamente válido.

E assim, fica a recomendação da leitura deste clássico, que remete à reflexão todo o tempo. Para quem se aventurar, sugiro, ao concluir, voltar à epígrafe e tentar captar a mensagem de Tolstói:

De mim virá a vingança, e também a recompensa.

Deuteronômio, 32: 35

Afinal, é Anna que se vinga de Vrónski ou a sociedade que se vinga de Anna? Que a reflexão, após 140 anos de existência da obra, sirva para atenuar qualquer sede de vingança na vida real. E que igualdade de gênero seja a temática das ficções e pauta da vida real.


Outras fontes de consultas:

Filmes:

País: EUA / Atriz: Greta Garbo (1935)

País: UK / Atriz: Vivian Leigh (1948)

País: União Soviética / Atriz: Tatiana Samóilova (1967)

País: EUA / Atriz: Jacqueline Bisset (1985)

País: EUA / Atriz: Sophie Marceau (1997)

País: UK / Atriz: Keira Knightley (2012) – Trailler da produção com Keira Knightley: aqui.

Ballet:

Montagem da Orquestra e do corpo de baile do Teatro Mariinky em São Petersburgo: aqui

Livros:

Lições de Literatura Russa – Vladimir Nabokov Três Estrelas

O Livro da Literatura – Globo Livros


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


 

Título Original: Анна Каренина

Autor: Liev Tolstói

Gênero: Ficção – Romance – Literatura Russa

Ano: 1877

Título em português: Anna Kariênina

Editora: Cosac Naify

Ano edição: 2013

ISBN: 978-85-7503-841-3

Nr. Páginas: 816

Tradução e apresentação: Rubens Figueiredo

Título em espanhol: Anna Karénina

Editora: Alba Editorial

Ano edição: 2013

ISBN: 978-84-8428-844-2

Nr. Páginas: 1008

Tradução, introdução e notas: Víctor Gallego Ballestero

Para ver o link do livro na página da Editora Alba Editorial, clique aqui.

2 comentários em “Anna Kariênina

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: