A cidade dos condenados

“Domingo, 13 horas. A penitenciária estadual estava repleta de visitas…”

Dizem que os tempos modernos afastam as pessoas. Há controvérsias. Há cerca de 30 anos fiz uma amizade dessas que são como um reencontro, mas depois perdemos contato. Recentemente, nossos caminhos se cruzaram novamente através da rede social e tive uma nova oportunidade de conviver com essa amiga. Em meio ao fogo cruzado da crise política, ela me apresentou a um grupo muito interessante para discutir saídas para a democracia.

Quando fui ao Brasil, nos reencontramos pessoalmente. E assim conheci seu pai, Avelino. Pra minha surpresa descobri que, além de sua trajetória profissional como Advogado e Professor, ele também escrevia e, antes de voltar para o Chile, fomos presenteados com seus livros. Porém, antes de contar minha experiência com a leitura de A cidade dos condenados, é necessário voltar mais um pouquinho no tempo.

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Nos anos 80, antes mesmo de conhecer minha amiga, Avelino Gomes Moreira Neto fazia sua própria história. Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, já com experiência na administração carcerária, assumiu o então DESIPE (Departamento do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro), atual Secretaria de Estado de Administração Penitenciária, no primeiro mandato de Leonel Brizola a frente do governo do Estado do Rio de Janeiro. Antes disso, já havia sido Diretor do Instituto Penal Vieira Ferreira Neto e da Penitenciária Lemos Brito, assim como Coordenador da Secretaria de Estado de Justiça. Acredito que A cidade dos condenados emergiu do conjunto de todas essas vivências profissionais. Isso fica claro na escolha das epígrafes de abertura da obra e no capítulo de introdução.

Avelino Gomes Moreira Neto

Foto: Facebook

Caminhante, não há caminho. O caminho se faz ao caminhar.

Pensamento espanhol

General, o homem é muito útil.

Sabe voar, sabe matar.

Tem, porém, um defeito:

Ele sabe pensar.

Bertold Brecht, Antologia poética, p.46

Não é novidade que vivemos em um mundo violento. Com certa frequência, a violência nos atinge e desejamos que pudéssemos viver em paz. No entanto, o ser humano, imperfeito por natureza mas principalmente como resultado de ações históricas, comete transgressões pelas quais é punido de acordo com o código de leis em que vivemos. Teoricamente, após a punição, o sistema deveria reintegrar o transgressor à sociedade. Na prática, sabemos que não funciona assim. No entanto, acredito que a ideia que se faz através do senso comum, formado pelas inúmeras notícias que se tem acesso quanto ao caos que é o sistema penitenciário, é uma borra da realidade. Por isso, mais do que nunca, é urgente e importante conhecer o que pessoas como Avelino tem para nos contar sob uma perspectiva única e da forma mais amena e lúdica que se pode conhecer esse sistema: a literatura.

A cidade dos condenados começa com uma rebelião em uma penitenciária estadual. Foi escrita em 2005, portanto, um pouco mais de 10 anos depois do Massacre do Carandiru, em São Paulo. Da mesma forma, termina em tragédia. Não que se possa comparar, mas essa situação é um elemento da realidade, entre outros, que o autor utiliza para desenvolver seu pensamento.

Sem dar nomes aos personagens, Avelino coloca, de um lado os agentes públicos e o que chama de técnicos. De outro, os presos. E introduz a ideia central da trama: o que aconteceria se os condenados fossem isolados não em uma prisão como conhecemos, um prédio ou um complexo, mas sim em algo maior, como uma cidade, em um local  desconhecido? O ponto em comum das duas situações é que, da mesma forma, os condenados estariam privados da convivência com a sociedade em geral, porém, na cidade, duas diferenças aparecem: a primeira é que esta seria administrada pelos condenados. A segunda é que suas famílias, esposas e filhos, poderiam optar por viver nela. Polêmico, não? A grande sacada é que, baseado no conhecimento técnico, em um senso de realidade e de humanidade incomuns, as consequências que decorrem dessa experiência, claramente demonstram uma preocupação recorrente do autor: repensar o sistema de maneira que fosse capaz de cumprir seu objetivo.

Para tornar a ideia factível, o autor pensou em várias pontos que o leitor, ao ler obra, se pergunta. Quem financiaria um projeto desses? Como seria administrado? Seria possível a integração da família se os seus membros não haviam cometido nenhum delito? De que forma a cidade se abasteceria? Como se desenvolveria o grupo? Seria pacífico ou violento? Haveria líderes? Como seria a relação de poder? Seria possível a implementação de um regime democrático? Haveria espaço para a educação, a cultura, as artes e a religião? E, finalmente, como ela traria de volta a esperança de uma sociedade justa? São inúmeras as reflexões.

Uma das questões mais interessantes, na minha opinião, diz respeito ao domínio e equilíbrio de forças entre os grupos. Da mesma forma que no mundo real se estabelece um poder paralelo nas prisões, essa situação também é vislumbrada no livro, principalmente na figura do personagem Professor que desponta com uma liderança muito parecida com a que deve se impor na realidade. Por outro lado, surge também Iolanda, suscitando um outro tipo de liderança, mais natural, por vir de uma pessoa que foi viver na cidade por vontade própria.

Dessa forma, com narração em 3a pessoa e estrutura encadeada entre o motim, o planejamento e o desenvolvimento da cidade chegando ao futuro, a ficção é uma espécie de experiência de degredo, aos moldes do que aconteceu no passado com os primeiros habitantes no lado português do Novo Mundo. Uma espécie de novo começo, porém, sem romantismo algum. Confesso que, em alguns momentos, na expectativa de que tudo desse certo, me surpreendi com os acontecimentos. Mas me dei conta de que a natureza humana é complexa demais e Avelino soube transmitir isso sem ilusão. Mas com esperança. E, nesses momentos, retornei às sábias epígrafes iniciais e também a algumas delas ao longo do livro.

O caos é uma ordem por decifrar.

Apud José Saramago, O homem duplicado, frontispício.

Epígrafe selecionada para o capítulo O encontro

A leitura de A cidade dos condenados me lembrou muito outra leitura recente, Utopia, do inglês Tomás Moro (leia o post sobre esta obra aqui). Assim como Avelino, Moro também era um homem das leis e também prestou serviços ao Estado. Sua obra, datada de 1516, também surgiu da idealização de um lugar e, consequentemente, de uma sociedade. Com muita propriedade, ele cunhou o vocábulo que daria nome à obra que, em grego, seria algo como o “não lugar”.

Então, tive um pouco da sensação de que ambos os textos nasceram de uma inquietude do que não se pode ou é muito difícil de mudar; de que não importaria o quanto Utopia ou a cidade de Avelino poderiam ou não ser circunscritas. Não se trataria necessariamente de discutir se o que foi imaginado seria verossímil ou não, seria implementável ou não. Acredito que a preocupação, em um primeiro momento, reside em um deslocamento do modelo existente para, em um segundo plano, repensar possibilidades fora desse contexto.

Como leitora, a vontade que tive foi de aprofundar o entendimento sobre esse imenso problema. Não se discute o fim da violência, tão almejado, sem conhecer a realidade do sistema carcerário, sem o entendimento mínimo do nosso código penal, sem centrar a conversa em direitos e garantias da nossa Constituição Federal e, principalmente, sem levar em conta as condições históricas que contribuem para a criminalização daqueles que são menos favorecidos social e economicamente. Imagino que a obra de Avelino poderia ser a base para uma boa mesa de discussão sobre tudo isso, que nada tem de utópico. É real e imprescindível.

Avelino dedicou a obra às netinhas e aos amigos. No entanto, acredito que sua dedicatória se estenda na medida da importância do tema. É uma leitura rica de ideias, uma história que flui pela inteligência e que não esgota reflexões; uma experiência que deve agradar aos estudiosos das áreas de Direito, Sociologia, Antropologia, Psicologia e afins. E também aos que creem na necessidade de se repensar o sistema e na igualdade de direitos como diretriz fundamental para o futuro de uma sociedade.


Meu caro Avelino, foi um enorme prazer conhecê-lo. Primeiramente, através das suas participações sempre tão pertinentes no nosso grupo de mensagens. Depois, pessoalmente, nas últimas férias no Rio, com sua família que é tão querida. Por último e muito especial, através da sua obra. De onde você estiver agora, saiba que agradeço por ter tocado minha alma com essa leitura e com todos os comentários que sua filha carinhosamente me fez conhecer sobre sua trajetória e personalidade. Que o seu pensamento, tão verdadeiramente humano, se perpetue nesse planeta. E como acredito em reencontros, que, um dia, possamos conversar sobre o assunto.

Avelino, presente!


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


Título: A CIDADE DOS CONDENADOS

Autor: AVELINO GOMES MOREIRA NETO

Gênero: Ficção

Ano: 2005

Editora: Maanaim Editora Ltda

ASIN: B01DCIR4DC

Nr. Páginas: 152

Capa: Márcia Campos

4 comentários em “A cidade dos condenados

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