Utopia

De optimo reip. Statu, deque noua insula utopia, libellus uere aureus, nec minus salutares quam festiuus, clarissimi disertissimique uiri thomae mori inclytae ciuitatis londinensis ciuis et uicecomitis. Apud inclytam basileam. Mense novembri. M.D.XVIII

La mejor forma de comunidad política y la nueva isla de Utopía. Librito de oro, no menos saludable que festivo, compuesto por el muy ilustre e ingenioso Tomás Moro, ciudadano y sheriff de la muy noble ciudad de Londres

Sobre a melhor forma com que se constitui uma república, e sobre a desconhecida ilha de Utopia

Esses são os títulos completos de Utopia que, a depender da primeira publicação, conhecida como a edição de Lovaina, completou 500 anos em 2016. O primeiro, no original em latim. O segundo, em espanhol. O terceiro, em português. Começo com os três para dar ideia do quanto é impressionante acessar uma obra como essa, escrita enquanto se começava a explorar as rotas para o Novo Mundo, onde estamos hoje. E, meio século depois, temos a oportunidade de conhecer o pensamento daquela época através de uma ficção repleta de história.

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Thomas More, Libellus vere aureus … de optimo reip. statu, deq(ue) noua Insula Utopia, Leuven, Dirk Martens, 1516. Brussel, Koninklijke Bibliotheek van België.

Mas, afinal, Utopia, o lugar, existe? Rafael Hitlodeo afirma que sim. Ele acompanhou Américo Vespúcio em uma das quatro viagens que o explorador fez e seus registros impressionaram o cartógrafo alemão Martin Waldseemüller que elaborou o primeiro mapa com a América.

E como essa informação chegou até nós? Lá pelos idos de 1516, Hitlodeo foi apresentado ao ilustríssimo Thomas More por um amigo em comum, chamado Pieter Gillis. A conversa que eles tiveram alternou entre as aventuras do rapaz ao longo dos 5 anos em que viveu nessa ilha e a situação da Inglaterra na época.

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Retrato de Thomas More – Autor: Hans Holbein (1527)

Alguns outros lugares também são importantes para situar o leitor geograficamente. Enquanto More era inglês, Hitlodeo era português. Porém, a história também passa pelo Reino de Castela e Aragão cujas incursões marítimas não demoraram a acompanhar Portugal; por Roterdã, na Holanda; pela Antuérpia, na região de Flandres, na Bélgica; por Basileia, na Suíça; por Florença, na Itália. Essas cidades formavam um corredor que permitia a circulação de mercadorias e também de ideias.

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A ilha, segundo Hitlodeo, está mais ou menos situada na rota de navegação para a América, embora também exista a possibilidade de que fique no caminho das Índias. Afinal, os navegadores alegavam que o destino de suas expedições era o Oriente. Há uma certa controvérsia a respeito da localização.

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Sua capital é Amaurota. Os utopianos vivem harmoniosamente divididos em 54 cidades de iguais costumes, instituições e leis. Seus habitantes compartilham a terra e se sentem mais agricultores que proprietários. Também se revezam entre o campo e a cidade, aprendem ofícios e produzem o que precisam como, por exemplo, roupas e artefatos. A família é o seu menor núcleo de organização mas se agrupam para realizar tarefas e para escolher representantes no que lembra ser uma estrutura tríplice de poder (magistrado, senado, príncipe).

Além de todas essas questões de ordem prática, Hitlodeo também descreveu com minúcias as crenças e os valores deste povo. A felicidade é encontrada praticando virtudes, conjugando religião e filosofia. Acreditam que a alma é imortal e que serão compensados por sua boas ações. Existe um senso comum de que todos têm que trabalhar e agir pelo bem comum e não pelo individual.

Mas alguém pode dizer que isso é uma… Como é o termo mesmo? Enfim, Utopia poderia não existir? Claro que não! Tem um mapa. Um alfabeto. Um código de leis. São tantos detalhes, tudo tão concreto…

Eis a experiência de leitura de Utopia, a obra. De fato, uma distorção dentro da realidade mas tão bem delineada que você chega a acreditar que é verdade. Sua publicação, na época, atingiu o status do que chamamos hoje de best-seller. A primeira edição, mesmo com falhas, causou furor. Fazendo uma brincadeira, algo comparável com a força que hoje tem um Dan Brown, que escreve estabelecendo uma linha tão tênue entre a ficção e a realidade que o leitor já não sabe onde termina uma e começa a outra; se o professor Robert Langdon está realmente desvendando o segredo do Graal e da descendência de Cristo na Terra (O Código Da Vinci). Assim é com Rafael Hitlodeo e sua ilha perfeita.

Para entender o impacto, é preciso contextualizar. O grande feito é de seu autor, Sir Thomas More (1478-1535) e existem quatro questões cruciais para situar o momento da concepção do clássico. A primeira questão é o renascimento e, como se sabe, tem a ver com o ressurgimento das artes na sua mais ampla concepção considerando o homem, a natureza e a ciência no centro dos acontecimentos. A segunda vem a galope: o humanismo e a reafirmação da razão na maneira de ver o mundo. A terceira não poderia deixar de também estar relacionada: a reforma da Igreja Católica que passava por um momento de crise em função de todos esses movimentos. A quarta, e não menos importante, era a exploração das novas rotas que levaram ao Novo Mundo.

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Carte du monde Universalis – Autor: Martin Waldseemüller (1507)

More nasceu nesse burburinho. Aos 14 anos, foi estudar na Universidade de Oxford mas depois concluiu Direito em Lincoln’s Inn. Viveu um tempo na Cartuxa de Londres, uma ordem religiosa que não chegou a ser contestada mas que muito influenciou na concepção de More sobre seu ideal de vida. Embora não tenha seguido o sacerdócio, ele se converteu em um humanista cristão, ou seja, ainda que defendesse o homem no centro da razão, ele era crente e fiel à interpretação da moral cristã.

Era dedicado à família, atingiu os mais altos graus de hierarquia da sociedade como intelectual e homem público. No entanto, bateu de frente com o rei, Henrique VIII, que governou a Inglaterra por quase 40 anos e ansiava tanto por um herdeiro homem que sumariamente se decretou chefe da Igreja Católica para poder legalizar seu divórcio e regularizar a situação dos herdeiros com Ana Bolena, sua amante que depois ele mesmo mandou decapitar. Mas é essa é outra história.

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Thomas More e sua família – Autor: Hans Holbein (1592)

Enfim, em 1518, foi publicada a versão final da obra considerando todos os ajustes idealizados por More e por seu grande amigo, o também humanista Erasmo de Roterdã. Escrita originalmente na língua dos intelectuais, o latim, atingiu finalmente sua versão, digamos, de luxo. Ficou conhecida como a edição de Basileia.

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Erasmo de Roterdã – Autor: Hans Holbein (1530)

O conteúdo de Utopia está organizado em 3 partes. Primeiramente, a obra tem uma introdução que é composta pelas cartas que a apresentam, uma espécie de prefácio. Nela se encontra um registro claro do quanto estava sendo reconhecida e recomendada.

Em seguida, encontra-se o Livro I, em que More narra o encontro com Rafael Hitlodeo e a conversa entre eles sobre os aspectos críticos da sociedade inglesa como pano de fundo para gestar e justificar os anseios do autor por uma sociedade ideal.

Finalmente, o Livro II e que, na verdade, foi escrito antes do Livro I, com base no testemunho de Rafael Hitlodeo durante os 5 anos em que ele acompanhou a vida dos utopianos.

Utopia parece real e, ao mesmo tempo, impossível. O termo, do grego, seria algo como o não lugar ou o lugar que não existe, denuncia a fantasia e a ironia. Porém, há uma dualidade e não tem como não lembrar de um trecho de uma entrevista ao escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) ao programa de televisão Singulars da Catalunha. Ele cita um episódio em que estava em uma palestra em uma universidade com seu amigo argentino, o diretor de cinema Fernando Birri (1925) e que coube a este responder a um dos estudantes que queria saber para que serve a utopia. Segundo Galeano, Birri respondeu magistralmente que “… a utopia está no horizonte. Eu sei muito bem que nunca a alcançarei. Se caminho dez passos, ela se distancia dez passos. Quanto mais a busco, menos a encontro porque ela se distancia a medida que eu me aproximo…”. Em suma, Galeano conclui que “… a utopia serve para isso: para caminhar.”

E, de fato, parece fazer sentido. Quinhentos anos depois, continuamos a caminhar. A obra de Moro cunhou o termo, inspirou correntes de pensamentos no campo da Filosofia, como os socialistas utópicos. O resultado da implementação de regimes que se inspiraram nessas ideias não alcançaram o modelo da ilha (a verdade é que More não explica como a os utopianos chegaram nele), mas ainda se nutre o desejo de uma sociedade mais justa e igual. Realmente, precisamos ter esse horizonte para continuar vivos. Talvez, More tenha imaginado que sua obra se tornaria clássica justamente por este anseio.

Do ponto de vista histórico, a leitura de Utopia realmente exige um aprofundamento nos inúmeros acontecimentos dessa época. Nesse sentido, como tive o prazer de lê-la no Diplomado de Leitura Crítica da Universidade Adolfo Ibañez com o professor e historiador Rodrigo Moreno, posso afirmar que foi fundamental estudá-la por essa perspectiva.

Do ponto de vista filosófico, tendo o humanismo cristão de More como ponto de partida, é possível perceber que o autor, mesmo dentro de suas crenças e valores morais, não negava a racionalidade e a importância do conhecimento científico.

Do ponto de vista político e social, a obra descreve um regime que se organiza em prol da coletividade e do bem-estar social. As leis, o trabalho, a família, tudo gira em torno desse objetivo comum, mais coletivo que individual. Existem diferenças sociais? Sim, existem. Existem conceitos ou práticas que não aceitamos mais na sociedade atual (por exemplo, a escravidão)? Existem. No entanto, mais uma vez, é necessário contextualizar os valores da época. Ao mesmo tempo, também foram colocadas ideias que era um avanço para a época, como igualdade de gênero.

De uma maneira geral, todos esses aspectos podem ser muito aprofundados e, por isso, embora a obra já esteja em domínio público, vale a pena buscar uma edição comentada e com tradução direta do latim para evitar distorções. Minha leitura foi em espanhol da edição da coleção de bolso da Alianza Editorial. Esta publicação conta com tradução, notas e introdução de Pedro Rodriguez Santidrián e o muito que aprendi se deve não somente à leitura mas principalmente ao trabalho do tradutor e ao professor Moreno.

Ainda é necessário lembrar a parte mais triste da história da obra e do seu autor. Thomas More morreu guilhotinado em 1537 por não ter cedido à pressões para assinar o Ato de Supremacia que declarava Henrique VIII chefe da Igreja Católica na Inglaterra e seria o caminho para regularizar seu divórcio e posterior casamento com Ana Bolena. Discussões à parte sobre o divórcio para a Igreja Católica, tema que persiste até os dias atuais, há de se considerar que o episódio era muito mais do que uma simples dissolução de casamento. Em 1935, Thomas More foi canonizado pela Igreja Católica.

“Morro como súdito do rei, porém, mais de Deus.”

Citação atribuída a Thomas More (p. 15)

Comecei este texto com uma brincadeira porque acho que transportar-se para o Século XVI, acreditar que Hitlodeo é mais que um personagem e que Utopia existiu faz parte do exercício de filosofia proposto pelo autor chegando assim a compreender que é mais que um lugar circunscrito. E, de fato, ajuda a caminhar mais dez passos.

Retomando o título, esse é realmente um livrinho de ouro, muito importante e divertido, que vale muito ler.


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Título Original: De optimo reip. Statu, deque noua insula utopia, libellus uere aureus, nec minus salutares quam festiuus, clarissimi disertissimique uiri thomae mori inclytae ciuitatis londinensis ciuis et uicecomitis. Apud inclytam basileam. Mense novembri. M.D.XVIII

Autor: Thomas More

Gênero: Ficção – Filosofia social e política

Ano: 1516

Título em espanhol:

Utopía

La mejor forma de comunidad política y la nueva isla de Utopía

Librito de oro, no menos saludable que festivo, compuesto por el muy ilustre e ingenioso Tomás Moro, ciudadano y sheriff de la muy noble ciudad de Londres

Editora: Alianza Editorial

Ano edição: 2012

Introdução, tradução e notas de Pedro Rodríguez Santidrián

ISBN: 978-84-206-0860-0

Nr. Páginas: 272

Coleção: El libro de bolsillo, Ciencias sociales

Para ver o link do livro na página da Editora Alianza Editorial, clique aqui.


Outros links interessantes:

“Feliz Utopia en Lovaina” – El País (09/12/2016)

“In search of Utopia” – Museun Leuven

“500 anos de Utopia” – Nexo Jornal (30/03/2017)

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