A noite da espera

“Inverno e silêncio. Nenhuma carta do Brasil.”

Quando o ano de 2017 estava chegando ao fim, eu já tinha em mente um projeto de leitura para 2018. Pensei em como a literatura poderia me ajudar a compreender o Brasil, nossa história e diversidade cultural. Assim escolhi começar por A noite da espera do Milton Hatoum. A obra, recém-lançada pela Companhia das Letras, me fez ter certeza de que essa ideia pode ser bem interessante.

No entanto, ampliar horizontes através da literatura requer um método diferente do convencional. As informações não são estruturadas como em um texto didático. Ao contrário: o que se tem é um contexto, referências dispersas, que o próprio leitor tem que se dar ao trabalho de organizar. É essa a experiência a que me proponho.

A noite da espera é a história de um período da vida do personagem Martim, contada por ele mesmo, mas de uma maneira peculiar. Algo parecido com abrir um baú onde estão guardadas anotações e correspondências. Estas memórias não estão necessariamente em ordem. O livro começa em 1978, em Paris, e depois volta no tempo, especificamente até 1968, para contar como ele foi parar ali.

Martim vivia em São Paulo, porém, os pais se separam e ele vai morar com o pai, o engenheiro Rodolfo, em Brasília. Ele sente muito a separação da mãe, Lina, e o romance todo é permeado pela expectativa de reencontrá-la e por sua inserção nesse novo ambiente, aos 16 anos. Quem já leu Dois irmãos (2000), outro romance do autor, poderá lembrar da relação familiar conflituosa entre a mãe Zana, o pai Halim e os filhos gêmeos Yaqub e Omar. (clique aqui para ler a resenha)

Enfim, desse pequeno mote já se pode imaginar o quanto se pode explorar o momento político, histórico, social e cultural do período. A construção e a dinâmica urbana de Brasília, a ditadura militar, a repressão e a violência, os movimentos de resistência e militância (principalmente entre os jovens no ensino médio e nas universidades), o exílio.

“Tudo confunde, nada lembra lugar algum. O céu é mais baixo e luminoso, e as pessoas sumiram da cidade.”

A princípio, Martim não está exatamente preocupado ou não tem dimensão do que acontece. No entanto, as circunstâncias são inexoráveis. Seja no Centro de Ensino Médio, no grupo de teatro, na redação da Revista Tribo, na Universidade de Brasília (UnB) ou na livraria onde trabalha, ele convive com pessoas que tem essa consciência, que discordam do rumo que o país toma com os militares no poder, sentem a repressão na pele e protestam pela liberdade de expressão e contra o governo.

“Quando a polícia não invadia o campus, tudo parecia quieto na Asa Norte; no meu quarto escrevi dezenas de cartas para minha mãe e fiz anotações em cadernos, numerados de um a sete.”

De aluno a professor de português em Paris, passando pelo curso de arquitetura na UnB, Martim amadurece e expressa uma dor diferente: aquela característica de quem, mais uma vez, perde o lugar.

“Um expatriado pode esquecer seu país em vários momentos do dia e da noite, ou até por um longo período. Mas o pensamento de um exilado quase nunca abandona seu lugar de origem. E não apenas por sentir saudade, mas antes por saber que o caminho tortuoso e penoso do exílio é, às vezes, um caminho sem volta.”

É muito interessante ver como o autor constrói a narrativa e a história. Por um lado, acessar as memórias de Martim nos faz ter empatia por ele. Por outro, os acontecimentos se mesclam ao drama familiar de uma forma incidental, considerando-se que ainda não se tinha a dimensão da gravidade dos fatos.

Esses acontecimentos são trazido à tona como se os personagens ainda não tivessem noção do todo, ou seja, do quanto tudo isso influenciaria o decorrer da história. O leitor vai encontrar, por exemplo, passagens como a que Martim queria ir ao cinema e a amiga o questiona se ele não tinha conhecimento de um estudante que havia sido morto no Rio de Janeiro. Esse estudante é o secundarista Edson Luís de Lima e Souto, morto em 28 de março de 1968 por policiais militares, em protesto no centro do Rio. Essa e outras manifestações contribuíram para a publicação do Ato Constitucional de número 5 (AI-5) pelo governo, no final de 1968, o mais violento de todos os atos impostos pelo regime militar.

“Quando ela me deu um panfleto, consegui dizer que ia ver um filme no Cultura. “Filme? Ontem a polícia matou um estudante no Rio. Não é hora de ir pro cinema. Mais tarde o Geólogo vai fazer um comício perto da Escola Parque. O Nortista e o Fabius vão pra lá””

Da mesma forma, também se menciona o desaparecimento do engenheiro e ex-deputado cassado, Rubens Paiva, morto após ter sido torturado em 1971. (você pode ver aqui a resenha de Ainda estou aqui do Marcelo Rubens Paiva)

“Que jarros, Áurea? Alguém tem medo de jarro? Em janeiro um ex-deputado foi preso no Rio. Está desaparecido. Foi sequestrado por soldados da Aeronáutica. O ano começou mal e vai terminar… Por que nossos deputados não falam desse crime?”

Além de contextualizar, Milton Hatoum também recheia a trama de referências culturais, literárias e cinematográficas que contribuem para mostrar a formação dos personagens. Obras como a tragédia grega Prometeu Acorrentado (em torno de 450 a.C.), A educação sentimental (1869) e Madame Bovary (1857), filmes como Terra em transe (1967), produções de teatro como Um bonde chamado desejo (1947) são alguns destes exemplos.

Martim está muito ligado a essas referências. As bibliotecas e as livrarias estão sempre por perto. Talvez, por causa dessa relação com a literatura, ele escreva. E isso o aproxima do próprio autor que também viveu em Brasília mais ou menos na mesma época que o personagem. O criador parece emprestar um pouco da sua vivência para a criatura.

Por fim, A noite da espera é mais que um momento entre o entardecer e o nascer do sol. É um intervalo, mais longo, de angústia e expectativa por rever uma pessoa ou voltar a um lugar e, por isso, mexe um pouco com quem tem experiências parecidas. Outra possível interpretação é associar a noite com o período histórico. Nesse caso, acho que vamos ter que esperar os próximos dois volumes da trilogia que se chama O lugar mais sombrio para ver o que o autor nos prepara. Mas, de fato, essa noite ainda nos acompanha como sombra. A reflexão e a curiosidade acompanharão o leitor ao fim da leitura e até o próximo lançamento. Muita curiosa para saber como o autor nos apresentará as próximas décadas.

Para complementar a leitura, indico três links que valem a pena conferir.

O primeiro é um artigo do El País Brasil (Outubro/2017), de André de Oliveira, sobre o lançamento da obra.

O segundo é uma entrevista em vídeo com o Milton Hatoum para o Nexo Jornal (Outubro/2017), de Juliana Domingos de Lima e Ricardo Monteiro, também por ocasião do lançamento.

O terceiro é uma indicação para que conheçam o site História da Ditadura, uma excelente fonte de consulta sobre o regime militar preparada por historiadores em um sistema de colaboração.


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso 😉


Título: A NOITE DA ESPERA

Autor: MILTON HATOUM

Gênero: Ficção

Ano: 2017

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-5451-005-3 (e-book) / 978-85-3592-992-8

Número de páginas: 240

Capa: Alceu Chiesorin Nunes

Foto de capa: A noite da espera no 5, Guilherme Ginane, 2017, óleo sobre papel / Reprodução de Marcos Vilas Boas

Preparação: Márcia Copola

Revisão: Angela das Neves e Fernando Nuno

2 comentários em “A noite da espera

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    1. Que bom que gostou, Mariane! Eu também gosto muito do MH e, para quem curte literatura nacional, é muito importante conhecer a obra dele. Volta sempre por aqui e me diz o que achou. Um beijo pra vc 😉

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