Mrs. Dalloway

“Mrs. Dalloway disse que ela mesma ia comprar as flores.”

Não se engane com esse começo despretensioso. Tampouco se deixe levar pela sinopse apresentando o romance de Virginia Woolf como o transcorrer de um dia na vida de uma distinta senhora da alta sociedade inglesa do começo do século XX. Nada é superficial neste romance. Mas, para captar sua intensidade, experimente lê-lo de uma só vez, fazendo um paralelo com as horas do dia de Mrs. Dalloway.

Comecei a ler Mrs. Dalloway em espanhol para o Diplomado em Leitura Crítica pela Universidad Adolfo Ibañez aqui em Santiago, no Chile. Porém, a leitura não fluiu. Fazendo uma analogia que lembra outra obra da autora, As ondas, me senti como em um mar agitado em que não se consegue passar da arrebentação. Como fazer? Lembrei de ter escutado comentários de que ler Virginia Woolf não era fácil, de que Mrs. Dalloway era incompreensível… Continuando com a analogia, prendi a respiração, mergulhei fundo e segui nadando até o outro lado. O resultado não foi exatamente um mar calmo, porém, encontrei um horizonte surpreendente.

Capa Mrs Dalloway

Voltando à vida prática, a primeira decisão foi trocar a edição em espanhol pela edição em português, o que ajudou. Mas, definitivamente, a questão não era o idioma. Mrs. Dalloway requer um treino da nossa capacidade de concentração e uma genuína vontade de absorver a literatura de uma forma diferente.

Segui então o conselho da professora Chantal Dussaillant, que conduziu a leitura crítica no curso: ler a obra de uma só vez. Assim a leitura finalmente fluiu e consegui me integrar ao fluxo de consciência e ao discurso indireto livre, técnicas usadas pela autora para compor a narrativa. Mas de onde vem tanta imaginação?

A inglesa Adeline Virginia Stephen nasceu em 1882. Pelo que pude conhecer da sua biografia, duas questões marcaram sua escrita. A primeira delas, o fato de ter sido educada em um meio literário, já que seu pai era editor e crítico. A outra é que ela sofreu várias perdas que lhe provocaram profundos traumas.

Virginia Woolf
Virginia Woolf – Autor: George Charles Beresford (1902)

Virginia se tornou Woolf quando casou com Leonard Woolf e ambos fundaram a Hogarth Press, em 1917. Nessa época, a literatura anglo-saxônica era influenciada pelo Modernismo que, como movimento literário, já tinha influenciado também a literatura latina de língua hispânica e era embrionária no Brasil. O referencial para os autores que viveram essa época não era mais uma narrativa estruturada. Ao contrário, o processo criativo deles era elaborado para desestruturar e oferecer algo novo. Por isso, é interessante saber que, antes de escrever Mrs. Dalloway, Virginia leu Ulisses do escritor irlandês James Joyce, cuja trama também se desenvolve em um único dia da vida de um personagem. E ambas as narrativas são baseadas no fluxo de consciência, termo cunhado pelo médico americano, especializado em psicologia, William James, no final do século XIX.

Além da editora, o casal Woolf também participava do Círculo de Bloomsbury, um grupo de intelectuais de distintas áreas que tinham a arte e a cultura como interesses em comum e que se reunia para discutir temas inovadores para a época, como o pacifismo, o feminismo e a sexualidade. Faziam parte do círculo nomes como o economista britânico John Maynard Keynes, a pintora pós-impressionista Vanessa Bell (irmã de Virginia) e seu marido, o crítico de arte Clive Bell, o escritor de ficção E. M. Foster, entre outros.

The bloomsbury

Ficaram conhecidos na época pelo episódio em que visitaram um navio da Marinha Real Britânica se fazendo passar por nobres etíopes e assim conseguiram chamar a atenção para o grupo, no caso conhecido como o Embuste de Dreadnought.

Dreadnought_hoax
Virginia Woolf é a primeira da esquerda para a direita

Além de escritora de romances, contos e teatro, Virginia Woolf também era revisora, tradutora, editora e ensaísta. Sua obra, que rompeu com os paradigmas do realismo e da tradição, lhe confere o reconhecimento como uma dos mais importantes escritores de língua inglesa. A autora também é estudada por conta das ideias desenvolvidas em seus ensaios, notadamente precursores no sentido de chamar atenção para a condição desigual das mulheres na sociedade.

Virginia_Woolf_1927
Virginia Woolf – Autor desconhecido (1927)

Mrs. Dalloway foi publicada em 1925 pela Hogarth Press e não foi uma unanimidade. Ao contrário, foi recebido com a mesma estranheza que a própria autora sentiu quando leu Ulisses. No prefácio da edição da Companhia das Letras, O fio tênue da ficção, o argentino Alan Pauls, escritor e professor de teoria literária, citou uma opinião da época que traduz essa circunstância.

“Talvez a plena beleza de escrever nunca se revele aos contemporâneos.”

Capa Mrs Dalloway_primeira edicao
Capa da primeira edição criada por Vanesa Bell

O fato é que ainda hoje é possível estranhar um narrador que transita pela consciência das personagens e, sem aviso prévio, as expõe como se fosse a própria personagem. Não se utilizam aspas, itálico, nada. A narrativa simplesmente parece mudar de terceira para primeira pessoa mas, o que pode parecer estranho no começo, ao decorrer da leitura, vira um desafio. E para isso, ajuda conhecer um pouco o contexto e as personagens.

“Ela se crispou ligeiramente no meio-fio, enquanto passava o furgão da Durtnall. Que encantadora essa mulher, pensou Scrope Purvis (que a conhecia como se conhece alguém que mora ao lado em Westminster); com um quê de pássaro, de gaio, verde-azulado, ligeiro, vivaz, embora tivesse mais de cinquenta e ficado grisalha depois da doença. Ali estava ela empoleirada, sem jamais notá-lo esperando para atravessar, muito aprumada.”

A história se passa em Londres em um dia de Junho de 1923, ou seja, um pouco depois da Primeira Guerra Mundial. Enquanto Clarissa Dalloway sai para comprar flores para a recepção que acontecerá na sua casa, Septimus Warren-Smith circula pela cidade para ir a uma consulta médica. Os dois não chegam a se encontrar mas estão conectados de uma maneira muito sutil.

Clarissa é casada com Richard Dalloway. Eles têm uma filha, Elizabeth, e moram em Westminster. Enquanto percorre seu trajeto, suas lembranças acorrem ao passado em Bourton e despertam nela possibilidades caso ela tivesse tomado decisões diferentes. A narrativa passa, ao menos para mim, que Clarissa está alheia ao contexto do pós-guerra e mais preocupada com seu próprio mundo e vida social.

“Não que se considerasse muito inteligente ou excepcional. Não conseguia imaginar como enfrentara a vida com aqueles fiapos de conhecimento incutidos pela Fräulein Daniels. Não sabia nada; nada de outras línguas, nada de história; e agora raramente lia, a não ser memórias, quando se deitava antes de dormir; todavia, para ela, tudo isso era absolutamente absorvente; tudo ao redor; os táxis que passavam; e nunca mais diria de Peter, nem de si mesma, sou isto ou sou aquilo.”

Se colocamos os personagens em torno de Clarissa, Septimus é seu contraponto. Ele é ex-combatente da Primeira Guerra e sofre dos traumas causados por essa experiência, o chamado shell shock. Casado com a italiana Lucrezia, Septimus está em tratamento e ela o acompanha. Ele é um personagem sensível e culto, que foi levado ao combate pela pressão das campanhas que movia o alistamento e a mobilização do homem a exercer seu papel viril na luta. Para ele, a guerra não havia acabado.

Hugh Whitbread é um velho amigo que Clarissa encontra no parque e que a faz lembrar do passado. Ele também estava no caminho para levar sua esposa, Evelyn Whitbread, a uma consulta médica, e confirma sua presença na festa da amiga.

Já Peter Walsh é o ex-namorado que Clarissa deixou quando optou por uma vida mais segura ao lado de Richard. Mas ela vislumbra o que poderia ter acontecido se tivesse continuado com ele, embora os dois fossem muito diferentes um do outro. Ainda que Richard fosse casado e vivesse na Índia, obviamente que a autora também vai colocá-lo no caminho e na festa de Clarissa para que esse conflito fique mais evidente.

E ainda tem Sally Seaton, sua melhor amiga, que na infância e juventude simbolizou a coragem e rebeldia que talvez Clarissa desejasse para si, mas que ambas não foram capazes de lidar no presente.

Ainda que Clarissa e Septimus não se cruzem, a cidade é onde tudo conflui. É quase uma personagem a mais. A autora situa a todos de alguma forma ocupando e disfrutando desse ambiente assim como dos símbolos que a representam e também refletem sua tradição e modernidade. Sejam as batidas do Big Ben marcando a hora, a presença do império, o espaço democrático dos parques como St. James’s Park e Regents Park, a singularidade de lugares como a Bond Street ou Picadilly. Com certeza, essa característica do romance faz com que o leitor invoque um tempo e um espaço imprescindíveis à compreensão da obra.

EPSON scanner image
Bond Street – Autor: Ben Brooksbank (1955)

“Nos olhos das pessoas, em seus passos gingados, cadenciados, arrastados; no alarido e no tumulto; nas carruagens, nos automóveis, nos ônibus, nos furgões, nos homens-sanduíche que avançavam oscilantes; nas bandas de música; nos realejos; no triunfo e no repique, e no estranho zumbido de um aeroplano no alto, era bem isso o que ela amava; a vida; Londres; esse momento de junho.”

E vale dar uma olhada no projeto Mrs. Dalloway Mapping Project que mostra o trajeto de Clarissa, Peter e Septimus pelas ruas de Londres com o objetivo de situar o leitor nas referências reais.

Mrs. Dalloway mapping project

Mas é a angústia o que une Clarissa e Septimus. No caso dela, é um sentimento quase velado e no dele, é exposto como uma ferida aberta através de sua condição psíquica. Ambos, de uma certa forma, foram levados a decisões que alteraram o rumo de suas vidas. Ambos compartilham pensamentos com relação ao sentido da vida. No entanto, ao fim e a cabo, a autora os faz literalmente seguir rumos diferentes. Ao menos, Clarissa consegue captar esse momento e ter uma revelação que só a leitura de Mrs. Dalloway faz compreender.

“Fazia alguma diferença então, perguntou-se, caminhando em direção a Bond Street, fazia diferença se ela inevitavelmente iria deixar de existir por completo; mesmo com sua ausência, tudo isto vai continuar; era algo para se lamentar, ou havia consolo em ver na morte o fim de tudo?”

Há quem aponte Mrs. Dalloway como uma “literatura feminina”. Seria um livro escrito por uma escritora, com uma protagonista, um livro só para mulheres? Diga-se de passagem que a princípio a obra se chamaria As horas e talvez a autora tenha decidido mudar para dar ênfase em um personagem típico e que realmente denotava uma condição da mulher numa sociedade patriarcal. Só por isso Mrs. Dalloway já merece ser lida também pelos homens. No contraponto, todas e todos os leitores deveriam também observar Elizabeth, a filha de Clarissa e Richard, que talvez inspire muito mais o ideal da autora, quanto ao que seria justo em termos de igualar condições sociais entre homens e mulheres do nosso século.

“E, como dizia o velho tio William, é pelos sapatos e pelas luvas que se reconhece uma dama … Luvas e sapatos; ela tinha paixão por luvas; mas sua própria filha, sua Elizabeth, pouco se importava com luvas ou sapatos.”

Definitivamente, não é o caso em que determinados assuntos sejam masculinos ou femininos. Acredito que na literatura, salvo questões puramente comerciais, não se deva esperar que um escritor escreva só para leitores ou que uma escritora escreva só para leitoras. Isso é absolutamente limitador. Acho que Virginia Woolf não pensaria assim. De fato, o que se pode verificar, é que ela se antecipou em discutir a igualdade de gênero quando defendia a emancipação feminina em ensaios como Um teto todo seu (1929).

“Tudo o que eu poderia fazer seria dar-lhes a minha opinião sob um ponto de vista mais singelo: uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção; e isso, como vocês verão, deixa sem solução o grande problema da verdadeira natureza da mulher e da verdadeira natureza da ficção.”

Essa foi minha primeira experiência com Virginia Woolf. De muitas, com certeza. Aprendi muito com a leitura, com as aulas, com a pesquisa e a resenha. Fiquei encantada com o filme As horas (Stephen Daldry, 2002) com Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman. Me emocionei com as várias referências culturais, sociais e históricas da obra e deixo aqui no finalzinho uma das mais sublimes. Trata-se de um trecho da obra Cymbeline (1611) de Shakespeare. Um doce para quem se aventurar na leitura e observar sua repetição e conexão. Feito isso, é certo que a obra também fará parte das suas preferidas.

“Não temas mais o sol ardente,

Nem do inverno a gélida fúria.”


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Título Original: MRS. DALLOWAY

Autor: VIRGINIA WOOLF

Gênero: Ficção / Literatura Contemporânea

Ano: 1925

Título em português: MRS. DALLOWAY

Grupo Companhia das Letras

Selo Penguin Companhia

Ano edição: 2017

ISBN: 978-85-828-5057-2 (edição física) 978-85-438-1063-8 (edição digital)

Nr. Páginas: 240

Tradução: Claudio Alves Marcondes

Prefácio: Alan Pauls

Capa: Claudia Espínola de Carvalho

Revisão: Jane Pessoa e Isabel Cury

Título em espanhol: LA SEÑORA DALLOWAY

Penguin Random House Grupo Editorial

Selo Debolsillo

Ano edição: 2012

ISBN: 978-84-9989-970-1

Nr. Páginas: 257

Tradução: Andrés Bosch

2 comentários em “Mrs. Dalloway

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  1. Eu adoro este livro! Também foi meu primeiro contato com Virginia Woolf. Não é fácil ler Woolf, mas Mrs. Dalloway é um livro que faz com que a leitura seja mais atenta, e faz você entrar mais na história (e na mente dos personagens).

    Curtido por 1 pessoa

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