A elite do atraso

“A primeira coisa a se fazer quando se reflete sobre um objeto confuso e multifacetado como o mundo social é perceber as hierarquias de questões mais importantes a serem esclarecidas.”

Há muito tempo que eu queria começar a ler Jessé Souza. Desde a época em que ele foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), li, com certa curiosidade, alguma coisa dos seus mais de 100 artigos publicados. Nordestino, professor universitário e pesquisador no campo da sociologia em que se doutorou pela Universidade de Heidelberg na Alemanha, Jessé é autor de 27 livros.

Jessé Souza
Jessé Souza – Foto: divulgação

Com meu projeto de entender melhor o Brasil através a literatura (que já mencionei aqui no blog nas primeiras resenhas de 2018), tomei coragem e resolvi incluir A elite do atraso na minha lista. Digo tomei coragem porque já sabia que seria uma leitura mais densa, ao menos para mim. Mas entendo que, assim como a história, a sociologia também pertence a este rol de leituras obrigatórias para nossa formação.

O primeiro ponto foi confirmado. A elite do atraso é uma avalanche de informações e requer inúmeras paradas para pesquisa do leitor não familiarizado com termos mais técnicos. Mas nada que não seja contornável.

O segundo ponto não estava previsto. Eu tinha lido a sinopse e me interessado muito. A abordagem da questão da escravidão como crucial para nossa sociedade desigual e uma linha de raciocínio que levasse ao momento presente me chamaram atenção. Porém, deixei passar despercebido que haveria um questionamento ao pensamento intelectual que sempre nos pautou.

O prefácio do autor começa te fazendo se ajeitar na cadeira. Ele cita que “existem ideias velhas que nos legaram o tema da corrupção na política como nosso grande problema nacional”. Há um trecho que, ao meu ver, direciona toda a leitura que é o seguinte:

“Nossa corrupção real, a grande fraude que impossibilita o resgate do Brasil esquecido e humilhado, está em outro lugar e é construída por outras forças. São essas forças, tornadas invisíveis para melhor exercerem o poder real, que o livro pretende desvelar. Essa é a nossa elite do atraso.”

Ainda não li Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque de Holanda, mas, em seguida, Souza avisa que vai fazer uma análise crítica dessa obra assim como cita outros importantes intelectuais brasileiros como Raymundo Faoro (1925-2003), Fernando Henrique Cardoso (1931) e Roberto DaMatta (1936). Ele questiona a base da produção de pensamento no Brasil que nos faz, consciente ou inconscientemente, crer que somos o “homem cordial” (melhor povo cordial?) e que essa cordialidade nos permitiu, de alguma maneira, confundir o público e o privado neste conceito chamado “patrimonialismo” tão discutido na obra.

De fato, não se parte deste modelo específico. O que Jessé Souza propõe é repensar nossa sociedade tendo a escravidão e a disputa das classes como componentes irrevogáveis desta formação e, a partir desta estrutura, compreender o momento conjuntural pelo qual passamos. Ou seja, da escravidão à Lava Jato.

Os capítulos intitulados como “O racismo de nossos intelectuais: o brasileiro como vira-lata”, “A escravidão é nosso berço”, “As classes sociais do Brasil moderno” e “A corrupção real e a corrupção dos tolos” desenvolvem o pensamento do autor em uma espiral de aspectos históricos relacionados com os mais recentes fatos e instituições.

Para além dos acontecimentos, alguns destaques. Um deles é a provocação de que, neste turbilhão, não se percebe o que realmente paira sob a realidade brasileira em termos de interesses políticos e, obviamente, econômicos.

“Normalmente, todas as pessoas são influenciadas pelo paradigma na qual são criadas e ninguém, em condições normais, pensa além de seu tempo.”

Outro destaque diz respeito a como se deu a transformação da sociedade patriarcal e escravocrata do período colonial na estrutura que reconhecemos hoje. Houve de fato uma abolição ou até hoje replica-se um modelo?

“O excluído, majoritariamente negro e mestiço, é estigmatizado como perigoso e inferior e perseguido não mais pelo capitão do mato, mas, sim, pelas viaturas de polícia com licença para matar pobre e preto. Obviamente, não é a polícia a fonte da violência, mas as classes média e alta que apoiam esse tipo de política pública informal para higienizar as cidades e calar o medo do oprimido e do excluído que construiu com as próprias mãos. E essa continuação da escravidão com outros meios se utilizou e se utiliza da mesma perseguição e da mesma opressão cotidiana e selvagem para quebrar a resistência e a dignidade dos excluídos.”

Concluo lamentando que comecei a leitura de forma errada. Sim, eu pretendo ler Raízes do Brasil e, principalmente, Casa-grande & senzala, a despeito de toda a crítica, porque compreendo que não se pode criticar aquilo que não se conhece. Enfim, vou fazer isso para, em seguida ler mais de Jessé Souza.

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Pretendo também ler A tolice da inteligência brasileira (2015) e A radiografia do golpe (2016), ensaios anteriores de Souza, já no contexto do atual momento do país. E aí volto para A elite do atraso. Tenho certeza que tenho mais a aprender.


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Título: A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato

Autor: Jessé Souza

Gênero: não ficção / ciências sociais / história / história do Brasil

Ano: 2017

Editora: Leya

ISBN: 978-85-441-0537-5

Páginas: 240

Capa e projeto gráfico: Leandro Dittz

Preparação de originais: Maria Clara Antonio Jeronimo

Revisão: Bárbara Anaissi

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