Feminismo em comum: para todas, todes e todos

“Feminismo é uma dessas palavras odiadas e amadas em intensidades diferentes.”

O ponto de partida de Feminismo em comum é perfeito. Já não bastassem todas as polarizações que se apresentam em nosso cotidiano atual, esta reforça o coro. Tenho a impressão que, até pouco tempo atrás, essas discussões se situavam no clichê “futebol, política e religião não se discutem”. Nada mais alienante. Ao mesmo tempo, deveríamos superar isso e incentivar o diálogo. Mas não. Se emitimos uma opinião que vai de encontro ao arcabouço social e questionamos uma simples piada, até então inofensiva, pronto. Está armado o palco dos gladiadores.

Antes do último natal, vi um post que desejava coragem às feministas para enfrentar e resistir as confraternizações que dizia “Amigas feministas, recuerden que es nuestro deber arruinar las cenas familiares con nuestras opiniones. Buena suerte camaradas.” Sabemos que são nestas reuniões que tradicionalmente acontecem conversas e piadas machistas. Daquelas sem pensar, sem querer, mas que reforçam o estigma.

Obviamente que ser a ovelha negra da família, sair do grupo do whatsapp no dia do nascimento de Jesus, no mínimo, deixará nossas mães chateadas… Mas lembremos que cada piada sem uma resposta didática e evangelizadora se eterniza por pelo menos mais alguns anos até que outra a rebata.

Mas vamos ao ponto. E espero sinceramente que essa resenha seja dirigida, como nos ensina a autora de Feminismo em comum, para todas, todes e todos.

Segundo a página oficial da autora, Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia. É também professora e publicou diversos livros relacionados (vou deixar abaixo a lista das obras, entrevistas, artigos e alguns cursos virtuais que já tive o prazer de fazer com ela).

Marcia Tiburi

Foto da autora no perfil do Facebook

Ela escreveu Feminismo em comum sob encomenda e em tempo recorde. Primeiramente  porque existe um interesse crescente na temática da igualdade de gênero por questões óbvias e posso citar alguns exemplos aqui como a violência doméstica; o abuso sexual e moral; o feminicídio; a opressão, a docilização e a submissão; a desigualdade salarial; a falta de oportunidades; a discriminação; a objetificação do corpo feminino; o sexismo e a misoginia; a falta de representatividade; a ausência de direito de decidir sobre o seu próprio corpo.

Não devo ter listado tudo e talvez esteja um pouco embaralhado. Não importa. Estou aprendendo. Márcia cita que “se Beauvoir tem razão e ninguém nasce mulher, mas se torna, é possível dizer também que ninguém nasce feminista, mas se torna.” É o que está acontecendo comigo. Pode-se dizer que essa obra é um enorme tilintar de fichas caindo, o que requer tempo para organizá-las. Até porque, Marcia também ressalta que o feminismo não é somente uma teoria, mas principalmente uma prática.

“Por isso, eu me tornei feminista. Só depois de perceber que a condição feminina não precisava ser a da subjugação é que eu me reconciliei com o signo “mulher”. Mesmo assim, hoje em dia, eu falo que sou mulher apenas em nome da luta feminista. Constantemente, digo que sou feminista e que isso vem antes de eu ser mulher. Em termos simples assumir “ser mulher” é, para mim, assumir um signo construído no patriarcado – que eu, com as feministas, posso também ressignificar.”

Em segundo lugar, existe um nítido interesse em entender melhor o que representa o feminismo como movimento e que tipo de luta ele mobiliza. Do ponto de vista da literatura, é crescente o interesse por debater este tema e também trazer à tona o que Márcia explica como lugar de fala e representatividade. A filosofia, a história, a própria literatura e outras áreas da ciência estão repletas de produções puramente elaboradas pela perspectiva masculina. E nós já entendemos que essa visão é enviesada porque ninguém pode tomar o lugar do outro para falar por ele. Então, desde os primórdios da sociedade, sob influência da filosofia, da religião, do Estado, da própria família, em nome da moral e dos bons costumes, marcou-se que o ser nascido sob o gênero masculino era superior à mulher. E esta se igualava aos escravos e aos animais em sua inferioridade. E desde aí formou-se e herdou-se o que hoje temos reconhecido como um sistema patriarcal, reforçado por todas estas mesmas instituições e podemos agregar a mídia como elemento relativamente novo.

Aí, você leitor vai dizer: Ah! Mas as coisas já mudaram… Transições acontecem gradativamente e aí entra esta teoria, este movimento que denominamos feminismo. Desde a época das sufragistas, das primeiras mulheres que reivindicaram direitos iguais no trabalho, no casamento e na educação, pode-se ter certeza que, se hoje consideramos certas condutas normais, é porque algumas mulheres foram vanguardistas em suas atuações e deram muito murro em ponta de faca, sacrificando suas vidas, para que você simplesmente ache normal ter seu direito ao voto, por exemplo.

E no bojo de todo esse interesse e curiosidade, surgem iniciativas de peso como as da Organizações das Nações Unidas (ONU), a nível global. Em 2010, a instituição criou a ONU Mulheres para priorizar esta questão e a do empoderamento feminino. Em seguida, em 2014, lançou o Movimento Eles por Elas de solidariedade com a meta nada modesta de conseguir adesão de um bilhão de homens, engajando e influenciando personalidades. Posteriormente, em 2015, a ONU estabeleceu, entre os países signatários, a igualdade de gênero como um dos objetivos de desenvolvimento sustentável a ser atingido até 2030. Isso tudo não tem uma motivação puramente baseada em justiça social. A questão é econômica também.

Na Literatura, o mercado editorial está antenado com a demanda. A obra da Marcia Tiburi foi lançada pela Rosa dos Tempos, o primeiro selo editorial brasileiro a focar neste nicho. O selo já exisitia e foi fundado em 1990 pela escritora Rose Marie Muraro e a atriz Ruth Escobar, porém, foi reativado agora. Assim, Marcia produziu este ensaio, quase intimista porque, além de conceitos, ela chegar a citar sua própria experiência para ilustrá-los. E é muito comum que nos reconheçamos nestas histórias.

Talvez você já tenha lido a autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e seu livro Sejamos todos feministas. Eu diria que é um excelente começo neste processo de reconhecimento. Mas, de fato, Marcia vai mais fundo. Feminismo em comum é para pessoas como eu você que estamos abertos a estudar e já nos reconhecemos como feministas pelo simples motivo de que entendemos conceitos básicos: feminismo não é o contrário de machismo, feminismo é o anseio por igualdade e liberdade de ser quem você quiser, é uma questão de direitos humanos, é um ato democrático.

No entanto, Marcia eleva o nível da conversa ao mostrar o senso de urgência, ao discutir o patriarcado e o capitalismo, ao apresentar as marcações culturais enraizadas que nunca nos deixaram perceber o quanto somos levados à comportamentos padrões, ao discuti-lo à luz da democracia e como política, ao mostrar a interseccionalidade entre gênero, raça, credo e classe social. Ela nos desafia a romper uma barreira e ir além do que possam rotular o movimento como modismo. Nos convida a um processo de desconstrução. E, de fato, isso não acontece sem luta e desconforto. Porém, há um enorme consolo. E essa talvez seja a parte mais nobre.

Marcia nos mostra que realmente não estamos sozinhas. Muitas de nós, consciente ou inconsciente, começaram este processo como já mencionei. Mulheres admiráveis que são conhecidas e eu vou citar algumas das que eu já estudei um pouco como a italiana Christine de Pizan (1363-1430), a francesa Olympe de Gouges (1748-1793), a inglesa Mary Wallstonecraft (1759-1797), a americana Soujourner Truth (1797-1883), a brasileira Nisia Floresta (1810-1885), a inglesa Virginia Woolf (1882-1941), a russa Rosa Luxemburgo (1871-1919), a brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973), a brasileira Anita Malfati (1889-1964), a mexicana Frida Kahlo (1907-1954), a francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), a brasileira Pagu (1910-1962), a americana Betty Friedan (1921-2006), a americana Angela Davis (1944) foram, definitivamente, precursoras. Mas nossas mães, avós, tias, irmãs, primas, mesmo sem saber, também podem ter contribuído de alguma forma.

“Nos tornamos feministas porque houve mulheres que foram duramente oprimidas, mas também porque no passado existiram lutadoras incomuns… Nosso feminismo não nasce em nós, foi herdado e transformado devido a um sistema de injustiças ao qual opomos a luta…O feminismo nos ajuda a ver que somos todas irmãs umas das outras e que essa posição horizontal está no âmago da vida das mulheres…”

E eis que surge o consolo em uma frase, título do 5ocapítulo: “O feminismo é o contrário da solidão.”

São 17 capítulos ao todo, em 126 páginas de ensaio. Eu diria que poucas, mas densas. Guarde ao seu lado e repense. Busque novas leituras. Reflita. Você vai entender porque o feminismo é o contrário da solidão.


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso.

 


 

Título: Feminismo em comum

Autor: Marcia Tiburi

Gênero: Ciências sociais

Ano: 2018

Editora: Rosa dos tempos

ISBN: 978-85-01-10010-8 (digital) / 978-85-01-11351-1 (impressa)

Páginas: 126

Para ver a obra na página do Grupo Editorial Record, clique aqui.


 

Clique aqui para conhecer a página oficial da autora e suas outras obras.

Artigos da autora na Revista Cult.

Curso online com a autora sobre Filosofia Feminista no Espaço Revista Cult.

Canal da Carol Miranda no YouTube com vídeos sobre:

Primeira onda do Feminismo

Segundo onda do Feminismo

O terceiro vídeo com a terceira onda ainda não foi disponibilizado quando da publicação deste post.

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