Canção de ninar

“O bebê está morto.”

O título é suave: Canção de ninar. A capa remete à ideia de uma babá de uniforme e tem um blurb (espécie de marca) indicando-o como best-seller internacional e vencedor do renomado prêmio francês de literatura, o Goncourt. O livro é editado pelo selo de ficção literária Tusquets da Editora Planeta. E foi indicado pelo meu professor Cassiano Machado no MBA em Book Publisher da Casa Educação. Ou seja, todos os ingredientes necessários para diversificar minhas leituras e acertar na escolha.

Aí o livro começa.“O bebê está morto.” Uma cena de crime. Uma tragédia. Um desenlace. Eu pensei: “Pronto. Comecei o livro pelo final. O e-book está com defeito. O que está acontecendo?” Chequei a posição, voltei para a capa. Era isso mesmo. A autora franco-marroquina Leïla Slimani não está para brincadeiras.

Embora a sinopse já avise ao leitor que a história choca desde o início, prefiro deixar esse suspense para que cada um tenha sua percepção e que a leitura possa provocar reflexões específicas à vivência ou à identidade de cada leitor. Penso que outros aspectos podem ser comentados com o intuito de despertar o interesse pela obra sem tirar o efeito surpresa.

A autora Leïla Slimani nasceu em 1981 em Rabat, capital do Marrocos. Desde os 17 anos vive na França, onde estudou literatura no Lycée Fénelon5 e jornalismo no Instituto de Ciências Políticas de Paris, o renomado Sciences Po. A princípio, pode-se pensar que o universo dela é diferente do nosso. Tanto pela sua origem, um país monárquico e de maioria muçulmana, quanto pela sua vivência na França. Porém, quando lemos Canção de ninar, é possível imaginá-lo acontecer no Brasil ou no Chile, onde vivo atualmente. Me explico.

Leïla Slimani (Thibaut Chapotot)
Leïla Slimani em 2017 por Thibaut Chapotot (Fonte: Wikipedia)

 

A primeira questão que a obra aborda relaciona-se ao dilema da mulher moderna quando resolve ser mãe e precisa conciliar maternidade e vida profissional. Desta, surge atrelado o fato de que este é mais um dilema da mulher do que do homem porque, a princípio, este último não se questiona e continua sua vida como antes.

No caso dela, esta decisão vem acompanhada de culpa, remorso, preocupação, preconceito, acúmulo de tarefas, cobrança para ser perfeita e, até mesmo, do questionamento de que se paga para trabalhar.

Porém, tomada a decisão, apresenta-se o problema de como delegar os cuidados dos filhos. Me parecia que a opção de contratar uma babá e a sutileza da relação entre esta profissional e a família seriam heranças da cultura colonizadora. Ledo engano. Pisa-se no mesmo terreno onde se confundem as condições de trabalho.

Para completar este caldeirão, agrega-se a temática social e a individual. Por um lado, Leïla Slimani expõe as diferenças sociais em várias situações. A começar no convívio dos empregadores com a colaboradora e ampliando-se a outras relações e grupos, principalmente os que vivem com poucos recursos e os migrantes. Por outro, a construção dos personagens delineia dramas psicológicos graves e fatais, afetados profundamente pelas variáveis sociais.

Por coincidência (ou não), interrompi a leitura de uma outra obra para ler Canção de ninar. Também em francês e a denunciar a miséria e a desigualdade social, porém, no século XIX. Esta obra é o clássico universal Os miseráveis de Victor Hugo, lançada em 1832. No prefácio, este autor alerta que livros que denunciam a exploração, a fome e a ignorância são necessários enquanto persistirem seus sintomas.

Victor_Hugo
Victor Hugo em 1875, aos 73 anos, por Comte Stanisław (Fonte: Wikipedia)

Enfim, não quis tampouco citar os nomes dos personagens. Esta é uma história muito comovente; uma ficção, inspirada em fatos reais, que choca e desgasta. Trata-se de uma leitura que fisga, mas que também angustia profundamente. Uma narrativa que se apresenta com detalhes doloridos e sombrios porque o leitor já sabe o que vai acontecer. É como estar onisciente e tomar conhecimento dos detalhes para um julgamento.

Chega-se ao final sem forças porque o destino já está posto. E, ainda que se condene a ré, há de se pensar, como coloca a própria autora em entrevista, na relação entre a miséria e a violência.

“Não se deve ignorar  que a miséria provoca violência e loucura.”

Leïla Slimani

Esperando ansiosamente os novos lançamentos de Leïla Slimani no Brasil e sua visita para a Flip 2018. Vamos ver o que ela tem a nos dizer.

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Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso.


 

Links de consulta

Artigo El País por Álex Vicente (12/03/2018)

Flip 2018

 


 

Título em Português: Canção de ninar

Título Original: Chanson douce

Autor: Leïla Slimani

Gênero: Romance contemporâneo

Ano: 2018

Editora: Tusquets (Planeta de Livros)

ISBN: 978-85-422-1203-7

Páginas: 192

Tradução: Sandra M. Stroparo

Preparação: Mariana Delffini

Revisão: Ana Lima Cecilio e Maitê Zickular

Projeto gráfico: Jussara Fino

Capa: adaptação do projeto gráfico original da Compañía

Imagem de capa: Marie Carr/Arcangel

Link para o livro na Editora Planeta

4 comentários em “Canção de ninar

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