O sol na cabeça

“Acordei tava ligado o maçarico!”

Antes de conhecer a história de Geovani Martins, O sol na cabeça passou pelo feed do Instagram do Refúgio Ameno várias vezes. Uma capa cor de sol, bem viva e graficamente perfeita. Em algum momento vi a imagem de Geovani, li alguns comentários e imaginei que tinha uma temática social forte. Ótimo. Estamos precisando disso.

Mas foi em uma aula do MBA em Book Publishing que conheci melhor a história do livro e do autor. O sol na cabeça é a primeira obra publicada deste jovem escritor, criado entre Bangu, Rocinha e Vidigal. Embora tenha estudado somente até o 8oano do Ensino Fundamental, ele lia muito e começou a frequentar oficinas literárias. Assim, foi parar na Festa Literária das Periferias (FLUP) e, em seguida, em 2017, na Feira Literária de Parati (FLIP). E foi nesse momento que Geovani foi descoberto pelo editor da Companhia das Letras.

Geovani Martins_Zo Guimaraes:Folhapress
Geovani Martins por Zo Guimarães (Folhapress)

 

Quem estuda o mercado editorial sabe. Ele é quase como futebol, uma loteria.  Se já é difícil para um candidato a escritor, com graduação e oficina de escrita nas costas, galgar as trilhas da publicação, imagina para alguém com poucos recursos, baixo nível de escolaridade, poucos contatos e que vive à margem do processo?

Não podemos dizer que Geovani tinha um daimon, um gênio inspirador ou qualquer outra coisa semelhante. Ele simplesmente tinha uma vivência e legitimidade para falar sobre ela. E isso, num momento em que, mais do que nunca, a sociedade está dividida seja na política, na religião, na ideologia, nas opiniões de uma forma geral. Geovani escreve contos sobre como é viver na favela e nos faz, como leitores, contrastar essa vivência com o asfalto.

Essa foi a conjuntura que propiciou o momento certo para o nascimento de O sol na cabeça que é um livro com 13 contos. O primeiro, Rolézim, nos remete a pensar naquela primeira praia da temporada de verão.

Para você, leitor, como é esta sua primeira praia? Você dorme a noite anterior no ar condicionado? Toma café? Vai de carro? Leva dinheiro? Vai com amigos? Você tem algum vício? Você convive bem com espaços democráticos? Você desconfia de alguém quando está na praia? Tem medo de arrastão? E como você volta para sua casa? Alguém te aborda se você estiver sem camisa, suado, tiver cabelo grande? Alguém te aborda para saber quanto de dinheiro você tem?

Eu diria que, se de uma forma geral, o seu dia de praia é normal, é possível que Rolézim te mostre outra perspectiva.

Bom, e o que é o livro? Como já mencionado, ele é composto de contos, alguns com narração em primeira pessoa e outros, em terceira. A escrita é fluida, ou seja, se apresenta naturalmente com uma questão central permeada de outras periféricas que complementa o cenário muito bem delineado. Como todo conto que se preza, no ápice da história, convida o leitor a imaginar.

Outra característica é a linguagem. O léxico da obra é vibrante e real. Confesso que nem todas as palavras eu deduzi. Algumas realmente foram novas para mim e despertaram minha curiosidade. Mas estavam ali, cumprindo seu papel de mostrar a comunicação real e de compor trechos marcantes.

Na minha opinião, praticamente todos os contos foram importantes na construção do todo da obra. Rolézim chegou a ser comparado a uma canção, As caravanas, pelo próprio compositor, Chico Buarque.

(Veja aqui o vídeo oficial de “As Caravanas”, faixa de “Caravanas”, novo álbum de Chico Buarque. Participação de Rafael Mike.)

Espiral é angustiante na provocação entre o menino que resolve assumir a postura ameaçadora ao perceber que incutia medo em uma senhora. Medo esse, comum a todos que veem no outro da favela um estereótipo do marginal.

“Nunca esquecerei da minha primeira perseguição. Tudo começou do jeito que eu mais detestava: quando eu, de tão distraído, me assustava com o susto da pessoa e, quando via, era eu o motivo, a ameaça.”

A história do Periquito e do Macaco é um recorte da ocupação da UPP, sem preparo para lidar com a comunidade.

“Quando a UPP invadiu o morro, era foda pra comprar bagulho… Bagulho ficou doido, os polícia sufocando, invadindo casa, esculachando morador por qualquer bagulho.”

Em Estação Padre Miguel, entra a questão do crack e da escalada do consumo da droga e do controle do tráfico.

“Isso é porque o mundo tá drogado, irmão. Até parece que tu não sabe. Já te falei, vou falar de novo: uma semana sem drogas e o Rio de Janeiro para. Não tem médico, não tem motorista de ônibus, não tem advogado, não tem polícia, não tem gari, não tem nada. Vai ficar todo mundo surtado de abstinência. Cocaína, Rivotril, LSD, balinha, crack, maconha, Novalgina, não importa, mano. A droga é o combustível da cidade.

E há, ainda, outras temáticas. O mistério da vila, Sextou e Travessia também me fizeram refletir e estão entre os mais marcantes pra mim. Comecei a ler embalada pela curiosidade e terminei sentindo emoção, angústia, impotência, raiva, tristeza. Claro que situações que refletem diferenças sociais são observadas e discutidas todos os dias, mas a leitura de um cotidiano possível nos faz ver claramente como estas diferenças e outras questões políticas, históricas e sociais tornam este abismo mais cruel.

Colocado este panorama, as questões que se apresentam estão relacionadas à crítica da obra e ao marketing de seu lançamento. Se o livro é o sol, Giovani é o meteoro. Os direitos autorais foram vendidos para, pelo menos, 8 países. Já existe um romance previsto. A expectativa é grande. Teria o mercado sido agressivo no lançamento do escritor?

Fato é que é muito difícil acontecer um caso de um autor tão jovem centralizar tantas apostas. Antes disso, além do editor, Geovani foi lido por Luiz Schwarcz, o próprio fundador, sócio e editor da Companhia das Letras, pelos escritores Miltom Hatoum e  Marcelo Rubens Paiva, pelo cantor e compositor Chico Buarque. E teve muita aceitação.

 “Se Lima Barreto estivesse vivo, sem dúvida leria com emoção as narrativas deste livro tão necessário em tempos de intolerância, ódio e ignorância.”

Milton Hatoum

O mercado editorial é muito competitivo. Não é fácil chegar a uma lista de mais vendidos e muitos livros que a frequentam são resultado do marketing editorial ou do próprio autor. Nem sempre é sinônimo de qualidade literária. Mas, quando as ações de publicidade realmente promovem algo bom, diferente e cuja qualidade literária, editorial e gráfica se combinam, o sucesso é uma questão de tempo. A visibilidade é tão importante quanto a representatividade.

Acredito que O sol na cabeça seja um livro importante para ser discutido em grupos de leitura e em salas de aulas com jovens. Há muitas questões ali, como a injustiça e a desigualdade social, a ocupação militar nas favelas, o uso de drogas e sua descriminalização, o racismo e o preconceito, a violência.

Do meu ponto de vista, como leitora, comparando com o que tenho lido, esta é uma obra forte, da qual me aproprio porque me preocupam os problemas da minha cidade e acho que não pode haver uma cidade partida entre o asfalto e favela. Geovani Martins me lembrou Carolina Maria de Jesus. Talvez pela linguagem, ou pela origem, talvez porque muitas vezes não esperamos que, desta origem, venha a Literatura. E é justamente por isso que ambos me emocionam.

Geovani tem um desafio enorme pela frente. Como leitora, eu também aposto nele. E espero que O sol na cabeça possa ser de luz espalhando muita criatividade pela cidade maravilhosa. Literatura na veia.


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Título em Português: O sol na cabeça

Autor: Geovani Martins

Gênero: Ficção / Contos

Ano: 2018

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 9788535930528

Páginas: 120

Capa: Alceu Chiesorin Nunes

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