A gorda

“Quarenta quilos é muito peso.”

Assim a narradora começa sua história: revelando a quantidade de quilos que perdeu quando se submeteu a uma cirurgia de redução do estômago. Seu nome é Maria Luísa, porém, a autora moçambicana Isabela Figueiredo adverte que “todas as personagens, geografias e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade”. Me permito apresentar ambas considerando esta pequena insinuação.

Isabela Figueiredo
Isabela Figueiredo – Foto Divulgação Flip 2018

Luísa e Isabela nasceram no início dos anos 60 em Lourenço Marques, atual Maputo, capital de Moçambique, ainda colônia de Portugal na época. Quando o país se tornou independente, ambas foram enviadas à antiga metrópole pelos pais portugueses com o intuito de estudar e serem resguardadas da instabilidade política e econômica do momento. As duas estudaram letras, literatura e filosofia e se tornaram professoras.

“Sou professora de filosofia numa escola problemática, onde se defende que o pensamento não interessa, apenas a ação e os resultados.”

Na ficção, Luísa tem a escrita como uma espécie de salvação pessoal. Na vida real, Isabela escreveu o romance A gorda, lançado em Portugal no ano de 2016 e ganhador, em 2017, do Prêmio Literário Urbano Tavares Rodrigues, destinado a reconhecer obras de língua portuguesa escritas por professores.

Maria Luísa existe na memória de Isabela e, se também existe de alguma outra forma, só a autora poderá contar. Ela estará na Flip 2018 e, se eu pudesse estar lá, com certeza essa seria minha pergunta. Afinal, o romance carrega algo da biografia da autora? Creio que a resposta seria positiva e, ao mesmo tempo, ela poderia nos explicar melhor o processo da escrita quando ocorre esta sutil e subjetiva interferência das lembranças que são tão peculiares a cada pessoa.

A gorda me converteu um pouco de leitora à terapeuta. A sensação, em um dado momento da história, é de grande cumplicidade. Não somente pela familiaridade (não é difícil conhecer a alguém como Luísa), mas também pelo fato de que a forma como Isabela estrutura seu romance é muito similar a recortes de lembranças, o que me lembrou a experiência da terapia.

“Ainda penso como gorda. Sempre serei uma gorda.”

Por razões óbvias (o título), é de se supor que a grande questão da vida de Luísa é sua relação com o peso e a comida; a relação da pessoa com seu corpo, sua mente e seu espírito, sua sexualidade. É isso que ela demonstra desde o começo do romance. Porém, não é só isso. Existem duas outras temáticas essencialmente fortes: a relação emocional com os pais e a relação afetiva com o namorado David. E relacionados a esta temáticas, muitos sentimentos vêm a rebote como amor, culpa, solidão, perda, auto-confiança, força e superação.

“A prima Fá vai-me dizendo, “para de comer, Luísa, que só engordas”. E eu paro, para logo recomeçar, às escondidas. A marmelada consola a fome que me assola. Poderia dormir num colchão de marmelada, enfiar-me num poço dela até a vida melhorar e valer a pena acordarem-me da fome insaciável.”

Para apresentar todas estas questões, Isabela Figueiredo constrói uma estrutura muito envolvente. No entanto, antes disso, as epígrafes já causam impacto. Com um trecho de Frankenstein, de Mary Shelley, apresenta-se a solidão. Com La ditadura del presente, de Javier Cercas, supõe-se uma mescla entre passado e presente. E finalmente com A vida sem princípios, de Henry David Thoreau, insinua-se a memória. Como se isso não bastasse, a autora faz também uma epígrafe sonora e presenteia o leitor com a trilha sonora da vida de Luísa. Ou da sua.

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Os capítulos são organizados de uma forma diferente. Cada um tem o nome de um ambiente do apartamento da família. Assim a introdução é a Porta de entrada e em seguida tem-se o Quarto de solteira, a Sala de estar, o Quarto dos papás, a Cozinha, a Sala de jantar, a Casa de banho e o Hall. Isso porque, a meu ver, o espaço familiar exerce muita força nesta reconstituição da memória.

Na porta da entrada, por exemplo, Maria Luísa apresenta seus pais e explica um pouco o contexto da mudança da família. No quarto de solteira, fica mais evidente sua própria apresentação.

Os capítulos não são cronológicos. O romance começa em 2014, mas o tempo vai e volta. Em todos eles, se perpassa um pouco de sua infância, de sua adolescência e vida adulta. Quando o leitor pensa que um assunto foi encerrado, ele volta. E é por isso que me lembra o ritual terapêutico. Quando se mexe com memórias, isso faz todo sentido.

Antes que o leitor estranhe, vale comentar também que a Todavia, editora responsável pela publicação da obra no Brasil, optou por lançar a versão original da sua escrita, preservando seu “português de Portugal”. Então, é possível que a leitura provoque a curiosidade por esclarecimentos de algumas palavras ou expressões que normalmente não usamos na nossa forma de expressar a língua portuguesa no Brasil.

Capa A Gorda Portugal
Edição portuguesa

Um parênteses: recomendo ler a crônica Bilinguismo luso-brasileiro (parte 1 e 2), da escritora brasileira Ruth Manus, que vive em Portugal desde 2015, e conta de forma muito bem-humorada como é divertida essa experiência de tentar reconhecer nosso idioma em outras terras lusófonas. As duas partes estão no livro Um dia ainda vamos rir de tudo isso.

A questão da obesidade faz parte do ser de Maria Luísa. Mesmo depois da cirurgia. Com essa temática, a autora vai tocar em situações muito recorrentes como a ditadura do padrão estético, o bullying, as comparações, o amor próprio. Maria Luísa é uma personagem narradora extremamente lúcida e ciente de si. É inteligente e perspicaz, irônica em boa medida. No entanto, luta permanentemente para se libertar.

“De passagem escuto, “olha a baleia, a baleia azul”. Sou eu. Riem. Troçam. Não consigo perceber as frases completas. Recuso ouvir. Bloqueio a audição trespassada por esse nome adjetivado, que ecoa no meu cérebro, no percurso da sala de convívio feminina até à de aulas, e no caminho inverso.”

Para além da pessoa, o contexto do romance também merece destaque que está situado na contemporaneidade. Marcações como a independência de Moçambique em 1975, a eleição de Mário Soares e o acidente nuclear de Chernobil em 1986, a queda das torres gêmeas em 2001, a abdicação de Bento XVI e o vazamento de informações da NSA por Edward Snowden em 2013 são algumas das referências usadas para situar os acontecimentos da vida da própria família.

Este não é um romance óbvio. Nem leve. É provocante, inteligente e denso. Ao contrário do que se pode pensar, Maria Luísa tampouco é uma personagem de inspirar piedade. À medida que a história evolui, ela cresce pessoal e profissionalmente. Sempre de forma provocante e muito verdadeira.

“Quando era gorda evitava ver-me refletida, mas hoje miro-me, usufruindo a minha beleza madura. Por vezes considero que perdi muito tempo desgostando de mim, mas reformulo a ideia concluindo que o tempo perdido é tão verdadeiramente vivido na perdição como o que se pensa ter ganho na possessão. E volta o sossego.”

Acredito que A gorda seja um bom começo para conhecer a literatura desta escritora contemporânea. Agora, é esperar sua visita na Flip 2018 e aguardar o lançamento da sua obra Caderno de memória coloniais que parece trazer elementos importantes sobre a relação política entre Moçambique e Portugal através da própria vivência da autora com seu pai. Pra quem também foi colonizado, ainda que tenha se tornado independente há muito mais tempo, acredito que esta obra traga perspectivas em comum.


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso.


 

Título: A gorda

Autor: Isabela Figueiredo

Gênero: Ficção / Romance

Ano: 2018

Editora: Todavia

ISBN: 978-85-93828-43-0

Páginas: 208

Capa: Pedro Inoue

Revisão: Ana Alvares e Ana Tereza Clemente

Para ver a obra na página da editora, clique aqui.

2 comentários em “A gorda

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