Lugares distantes

“Quando eu tinha por volta de sete anos, meu pai me falou sobre o holocausto.” 

A leitura de Lugares distantes: como viajar pode mudar o mundo, do americano Andrew Solomon, começa instigando. O autor, quando criança, quis saber o que era o holocausto. O pai lhe explicou que foi um genocídio de judeus, mas o menino não entendeu porque eles, simplesmente, não puderam fugir. Isso o angustiou de tal maneira que o fez tomar uma decisão.

“Naquele instante, decidi que sempre teria algum lugar aonde ir. Nunca me sentiria desemparado, dependente ou confiante. Nunca iria supor que todo continuaria indo bem porque sempre estivera bem. Minha ideia de segurança absoluta em casa desmoronou ali, naquele momento.”

Um pouco maior, Solomon teve oportunidade de fazer várias viagens em família e menciona mais a mãe como guia do que o pai, que viajava mais a negócios. Entendo que a maneira como conheceu outros lugares realmente o preparou para novos desafios e ele partiu para fazer graduação na Inglaterra o que, por fim, lhe abriu as portas para a cidadania inglesa .

“Ele não tinha interesse especial em conhecer lugares novos, porém, em minha mãe o turismo trazia à tona o que ela tinha de melhor. Antes viajar a qualquer lugar que fosse, ela nos informava sobre eles. Líamos livros a respeito dos lugares, aprendíamos algo de sua história, descobríamos o que íamos comer e que paisagens veríamos.”

Já adulto, o ato de viajar se tornou uma busca, o que o fez distinguir o turista do viajante. Este último, mais que conhecer o convencional, quer integrar-se, conhecer a cultura, a história, a sociedade de um lugar. E este é o sentido do livro: através dos ensaios escritos para registrar suas viagens, Solomon transmite as experiências vividas em países como URSS, Rússia, China, África do Sul, Estados Unidos, Taiwan, Turquia, Zâmbia, Camboja, Mongólia, Groelândia, Afeganistão, Japão, Ilhas Salomão, Ruanda, Líbia, China, Antártica, Indonésia, Brasil, Gana, Romênia, Mianmar, Áustrália.

Os ensaios que Solomon escreveu não são convencionais justamente porque a ideia que ele tem de viajar é diferente. Para poder passar essa experiência, ele faz uma pequena introdução sobre o momento e o objetivo da viagem assim como uma contextualização no final. No desenvolvimento, trabalha as impressões dele, mas também tem algo de jornalismo porque inclui dados, fontes, relatos e, obviamente, situações vividas por ele. Não espere que Solomon descreva um ponto turístico tradicional.

Acredito que essa questão tenha a ver com sua formação em psicologia e também seja pela sua atuação como ativista de Direitos Humanos. Andrew Solomon atua como professor, conferencista e seu olhar e escrita estão intimamente ligados às áreas de política, cultura e artes. Suas vivências nos livros também mostram como as diferentes sociedades lidam com a temática LGBT.

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Andrew Solomon por Annie Leibowitz (Fonte: página oficial do autor)

Minha leitura foi acompanhada de muita busca de dados para poder me aproximar das menções aos fatos históricos de cada lugar e assim entender melhor o contexto. Não li os capítulos na ordem e sim escolhi para onde gostaria de “viajar” no momento da leitura.

Ao invés de contar o que achei curioso sobre alguns dos lugares visitados, escolhi comentar o capítulo sobre o Brasil pois queria muito saber como seria esta sua impressão e como ele contaria isso. Solomon foi ao Rio de Janeiro em 2010, previamente à Copa do Mundo e Jogos Olímpicos realizados, respectivamente, em 2014 e 2016. Infelizmente, ele capturou um momento que, a meu ver, como carioca, estava distorcido nas mídias, jornalísticas e sociais. Mesmo assim, muito atento a questão da desigualdade social, um tema que efetivamente chama atenção no Rio de Janeiro, seja do habitante, do turista ou do jornalista, o autor a coloca como pano de fundo de seu ensaio. Menciona as favelas e o asfalto, a violência, o tráfico de drogas, a atuação do poder público, a política das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Tudo isso tendo também os eventos internacionais como forças atuantes de uma possível mudança estrutural, urbanística, social e econômica do entorno. O nome do capítulo é Rio, cidade da esperança.

 “As favelas do Rio estão espalhadas por toda a cidade, como pedacinhos de chocolate em um cookie.”

“Sem dúvida, a população carioca de pele mais clara leva uma vida melhor.”

Retomando a linha do tempo, depois que os eventos ocorreram, o livro foi lançado nos Estados Unidos em 2017 e no Brasil em 2018. Nesse ínterim, as apurações de investigações e punições que envolvem superfaturamentos de obras, além de outros crimes, resultaram na pena de quase 100 anos de prisão do governador do período de 2007 a 2014. O Rio de Janeiro é, atualmente, um estado financeiramente quebrado, com dívidas que recorrentemente impedem pagamento de salários a seus funcionários públicos, com uma grande e tradicional universidade estadual abandonada e hospitais sucateados.

Capa Lugares distantes inglês

As UPPs, tão comentadas no ensaio, fracassaram. Os índices de criminalidade estão em ascensão. Após o carnaval, com o aumento de ocorrências, em uma decisão controversa, o governo federal decretou intervenção federal na cidade, o que, segundo especialistas em segurança pública como a antropóloga e cientista política Jaqueline Muniz, “…é uma teatralidade operacional de alto custo e baixa eficácia”. Ou seja, não resolve o problema do tráfico de drogas nem o “poder paralelo” de milícias. Sob esta condição, em março de 2018, tivemos o assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes. Eleita em 2016 com 46 mil votos, nascida na Favela da Maré, socióloga e também ativista de Direitos Humanos, negra e lésbica, sua morte está sob investigação como suspeita de crime político.

“Resta a questão de até que ponto as UPPs protegem a classe superior e até onde realmente melhoram a vida nas favelas.”

Enfim, hoje, temos uma cidade bela por natureza, mas atônita. O legado dos eventos melhorou em alguma medida a questão da mobilidade urbana e infraestrutura, mas deixou obras por concluir. Existem instalações ociosas. A segurança não garante tranquilidade aos habitantes e não fomenta o turismo que revitalizou a zona portuária e aumentou a capacidade instalada. O meio ambiente ficou com muitas promessas. A cidade sofre com falta de recursos e não é maravilhosa para as pessoas que nela vivem. O Rio é um espaço de contrastes visíveis, mas com vocação para ser democrática, ainda que forças conservadoras ajam para restringir as manifestações culturais e sua ocupação. Contudo, se Solomon voltasse, ainda sentiria essa vocação em pequenos detalhes.

“No dia em que fui me encontrar com o prefeito, no prédio barroco da prefeitura, metade das pessoas que estavam ali usava sandálias de dedo. O Rio é uma cidade informal. No entanto, informalidade não significa desmazelo.”

“Não é somente o sol que aquece  nessa latitude; a amizade cresce depressa no Rio, e é comum você se ver conversando intimamente com pessoas que acabou de conhecer.”

Sendo assim, entre o momento da viagem de Solomon e a publicação do livro existe uma defasagem. O ensaio reflete um momento passado em que reinava um certo entusiasmo cego e ufanista. Vale, então, ao leitor de Lugares distantes, absorver as impressões sobre o Rio de Janeiro? O leitor de outra nacionalidade, ao ler sobre a Rússia ou sobre a China ou sobre Senegal, corre esse o risco de conhecer uma história deslocada?

A resposta é sim e não. Sim, no caso de uma leitura isolada. Não, se a leitura for acompanhada de pesquisas recentes e, principalmente, se houver oportunidade de viajar e aplicar o mesmo método de Solomon, que eu gostaria de chamar carinhosamente de “viagem com pesquisa complementar”.

O que levo dessa leitura, com absoluta certeza, é que viajar não é “consumir” um ponto turístico, o que me parece que o autor indica com clareza. O ato tem a ver com a ideia de que, ou o olhar do viajante está atento aos aspectos culturais, sociológicos e históricos ou a mala pode até voltar cheia de bugigangas, mas a bagagem mental voltará vazia. Ainda que façamos turismo para relaxar, o olhar atento sempre nos faz voltar diferentes.

“Comecei a viajar por curiosidade, mas cheguei a pensar que esse ato tem importância política e que incentivar os cidadãos de um país a viajar pode ser tão importante quanto incentivar a frequência à escola, a preservação ambiental e a economia nacional.”

O momento de uma viagem é um pouco como uma fotografia embaçada. A tentativa de focar, mesmo que não seja 100%, é válida e, com certeza, já nos modifica um pouco a alma. E pode, realmente, apontar possibilidades para aonde ir em casos extremos.

“Viajar é como um jogo de lentes corretivas que ajuda a pôr em foco a realidade borrada do planeta.”


TED talks com Andrew Solomon

Love, no matter what

How the worst moments in our lives make us who we are

TEDMED02


Página oficial do autor


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso.


Título Original: Far and Away: How Travel Can Change the World

Autor: Andrew Solomon

Gênero: Não ficção / Política e Ciências Sociais

Ano: 2017

Título em português: Lugares distantes

Editora: Companhia das Letras

Ano edição: 2018

ISBN: 978-85-3592-927-0

Páginas: 584

Capa e ilustração de capa: Elisa von Randow

Tradução: Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra

Preparação: Cláudia Cantarin

Revisão: Ana Maria Barbosa, Jane Pessoa e Huendel Viana

Para ver o link do livro na página da Companhia das Letras, clique aqui.

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