Manual da faxineira

“Um índio velho e alto, de calça Levi’s desbotada e um belo cinto zuni.”

Os contos de Lucia Berlinpossuem uma ambientação diferente.Ela nasceu no Alasca, morou em várias outras cidades nos EUA, e também em Santiago, no Chile, onde vivo atualmente.

“O trem reduziu a velocidade nas imediações de El Paso. Eu não acordei o meu nené, Ben mas fui com ele no colo até a plataforma no fim do vagão para poder ver a paisagem lá fora. E fundição de minérios, madeira queimada  das fogueiras dos barracos de mexicanos às margens do Rio Grande. A Terra Santa.”

Sendo assim, algumas vezes, senti uma certa estranheza em relação à descrição dos espaços em que ela situa seus contos. Talvez essa sensação tenha ocorrido também porque as pequenas histórias reunidas em Manual da faxineiranão são exatamente o que se poderia classificar como uma leitura relaxante. No meu caso como leitora, gosto de contos quando tenho pouco tempo e sei que vou poder ler a narrativa completa sem interrupção. Porém, acho que o Manual demanda um pouco mais.

Os contos têm relação direta com a vida da autora. Por um lado, Lucia Berlin fez de tudo um pouco para sustentar os filhos. Trabalhou como faxineira, enfermeira, professora. Vários contos partem da narrativa de uma personagem mulher, mãe, solteira, trabalhando para sustentar filhos. Desse trabalho, resultam características de subalternidade, submissão, uma certa marginalidade. Mas também denotam sensibilidade e situações inusitadas. Como a da faxineira que limpava casas e arrumava os pertences de pessoas que haviam acabado de falecer em Luto.

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Imagem da página oficial da autora

Por outro lado, desde a infância ela conviveu com situações de separações, mudanças, conflitos. Como seu pai trabalhava na mineração e o Chile é um país em que esta é uma das principais atividades econômicas, ela morou por aqui na juventude e viveu no que pode ser descrito como “bolha” de Santiago, já que teria frequentado os espaços mais exclusivos e opulentos desta sociedade. Ainda assim, parece que levou algo de uma experiência política e desalienadora, como retrata no conto Boa e máao relatar o choque de realidade que passou quando conviveu com uma freira revolucionária.

“Não era difícil parecer completamente fútil, mas eu exagerei mesmo assim. Cabeleireiro, manicure, costureira. Almoço no Charles. Polo, rúgbi ou críquete, thés dansants, jantares, festas, até o dia raiar. Missa em El Bosque às sete da manhã de domingo, ainda com roupas da noite anterior. Depois country club para tomar café da manhã, jogar golfe ou nadar, ou talvez Algarrobo, para passar o dia na praia ou esquiando no inverno.”

Além disso, os contos giram em torno de temáticas difíceis como relações afetivas, solidão, morte, alcoolismo e drogas, aborto e suicídio. Vivências que ela mesma vivenciou de alguma forma, o que pode ser constatado nas notas sobre a autora, ao final do livro. Conta-se que Lucia Berlin superou a doença do alcoolismo e se tornou produtiva como escritora depois disso.

Sua escrita é bastante objetiva e isso se traduz, muitas vezes, em uma narrativa seca, ferina e constrangedora. A autora consegue passar, se é que isso é possível, uma emoção fria. Típico de quem já se acostumou a determinada situações e não se choca mais. Talvez uma neutralidade desenvolvida quando a autora trabalhava em hospitais. Acredito que esta seja uma das características mais marcantes de sua literatura.

“Trabalho em hospitais há anos e se tem uma coisa que eu aprendi é que quanto mais doentes os pacientes estão menos barulhos eles fazem. É por isso que ignoro o interfone dos pacientes.”

Pode-se comentar também sobre o título da obra, fiel ao original A Manual for Cleaning Women, nome de um conto, um dos que mais gostei juntamente com Mordidas de tigre, Caderno de notas do setor de emergência, Boa e má, Amigos e Luto. O conto-título pode ser lido primeiro como amostra. Se gostar, siga em frente.

Lucia teve um breve período de produção literária e sua obra foi reconhecida após sua morte em 2004. Manual da faxineira foi lançado nos Estados Unidos em 2015 pela editora Farrar, Straus e Giroux e em 2017 no Brasil pela Companhia das Letras, além do lançamento de mais de 20 edições em outros países. É possível observar este trabalho de publicação como um case editorial já que sua obra está sendo devidamente agenciada tanto nos EUA, como internacionalmente. A página oficial da autora pode ser acessada aqui.

Capa edição inglês
Edição americana

Por fim, ainda que minha experiência de leitura tenha sido, em alguns momentos, distante da realidade espacial de Lucia, é interessante conhecer sua vida através de seus contos e ver como ela a transforma em narrativa. Ao final, depois de todas estas reflexões, percebe-se que as matérias-primas para a literatura nos rodeia e estão guardadas em pensamentos esperando para serem compartilhadas através de palavras.


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Título Original: A Manual for Cleaning Women

Autor: Lucia Berlin

Gênero: Contos

Ano: 2015

Título em português: Manual da faxineira

Editora: Companhia das Letras

Ano edição: 2017

ISBN: 9788535928112

Páginas: 536

Tradução: Sonia Moreira

Capa: Tereza Bettinardi

Para ver o link do livro na página da Editora Companhia das Letras, clique aqui.

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