Olhos d’água

“Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca.”

Assim começa o primeiro conto de Olhos d’água. Sua leitura é como um batismo na literatura de Conceição Evaristo. Em poucas linhas, estamos mergulhados na pergunta que angustia a personagem-narradora que não lembra a cor dos olhos de sua mãe. A repetição da dúvida faz crescer a expectativa e a narrativa se desenvolve com emoção. Ao terminar, é preciso tomar fôlego para continuar a leitura dos contos seguintes e, a cada um deles, nova imersão recomeça.

Olhos d’água é uma coletânea, publicada em 2014 pela Editora Pallas. Em 2015, ganhou o terceiro lugar na categoria contos e crônicas do Prêmio Jabuti. Foi a obra que escolhi para começar a ler a autora.

Conceição Evaristo, mulher, negra, de família pobre, nasceu em 1946 em uma favela de Belo Horizonte e não escapou à sina do trabalho como empregada doméstica. Porém, contrariando o destino que este conjunto de condições sociais costuma reservar, Evaristo concluiu o curso normal e ingressou na graduação de Letras da UFRJ.

Conceição Evaristo

A partir daí, além do ativismo como mulher negra, Conceição Evaristo também se tornou mestre em Literatura Brasileira pela PUC-RJ e doutora em Literatura Comparada pela UFF. Começou então a escrever traduzindo sua perspectiva em literatura. Nesse sentido, é interessante destacar que Evaristo costuma dizer “não nasci rodeada de livros, mas de palavras, além da literatura oral”, o que nos faz entender sua facilidade em nos transportar para suas histórias.

Tendo estas informações, fica mais claro entender também por que é importante conhecer esta obra. Olhos d’água é uma experiência de leitura que nos abre a possibilidade de reforçar a consciência sobre a realidade das pessoas que sofrem as consequências da grande desigualdade social que existe em nosso país e repensar sua origem.

“Lembro-me de que muitas vezes, quando a mãe cozinhava, da panela subia cheiro algum. Era como se cozinhasse, ali apenas o nosso desesperado desejo de alimento. As labaredas, sob a água solitária que fervia na panela cheia de fome, pareciam debochar do vazio do nosso estômago, ignorando nossas bocas infantis em que as línguas  brincavam a salivar sonho de comida.”

Olhos d’água

Para isso, Evaristo pratica o que ela mesma chama de escrevivência. Com exceção do primeiro conto, a narração acontece sempre em 3a pessoa.O protagonismo reside não somente em personagens mulheres mas também na maternidade, na negritude, na origem africana. Ainda em primeiro plano, atrelado a estas questões, surgem a pobreza, a favela, o abandono, a violência, a morte, expostas através da miséria, do sofrimento e da falta de oportunidade resultando em situações como prostituição, aborto, criminalidade, suicídio, trabalho infantil, migração, opressão.

“A morte incendeia a vida, como se essa estopa fosse. Molambos erigem fumaça no ar. Na lixeira, corpos são incinerados. A vida é capim, mato, lixo, é pele e cabelo. É e não é.”

A gente combinamos de não morrer

Ao tratar de tantas dimensões, Olhos d’água consegue demonstrar uma característica tão comentada atualmente que é a transversalidade, ou seja,  relaciona questões de gênero, raça e classe social, transformando-se em uma literatura absolutamente relevante para compreender o quanto cada uma delas interfere na experiência principalmente das mulheres, negras e pobres, assim como na de todos os descendentes de africanos no Brasil.

Ainda assim, a obra não se limita a expor estas mazelas. Ela retrocede às causas. Ao ler o último conto, Ayoluwa, a alegria do nosso povo, percebe-se a referência ao tráfico negreiro, iniciado no século XVI, quando quase 5 milhões de negros foram trazidos para o Brasil, convertidos em escravos para atender o sistema econômico. Até hoje, quase cinco séculos depois do início da escravidão e 130 anos após o seu fim, a herança desta desumanidade persiste, não somente através do preconceito racial mas também através da desigualdade social e marginalização dos negros e negras.

“À noite, quando reuníamos em volta de uma fogueira mais de cinzas do que de fogo, a combustão maior vinha de nossos lamentos. E em uma dessas noites de macambúzia fala, de um estado tal de banzo, como se a dor nunca mais fosse se apartar de nós, uma mulher, a mais jovem da desfalcada roda, trouxe uma boa fala. Bamidele, a esperança, anunciou que ia ter um filho.”

Ayoluwa, a alegria do nosso povo

A leitura, enfim, alcança quem se sente representado por seus personagens mas, tão importante quanto isso, é sua força para o desenvolvimento da consciência e da empatia de todos nós. É possível que nos deixe com os olhos da mesma cor da mãe da narradora do primeiro conto. É esse sentimento que nos faz mudar nossa própria perspectiva e perceber que a violência é um ciclo vicioso.

E a constatação é dolorosa porque Olhos d’água é uma realidade. Para provar isso, quatro dias após terminar a leitura, o conto Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos saltou das páginas. O menino Marcos Vinícius da Silva, morador do Complexo da Maré no Rio de Janeiro, perdeu a vida como a menina do conto, no meio de um tiroteio durante uma ação policial. Uma brutalidade que nos emudece

“Em meio ao tiroteio a menina ia. Balas, balas e balas desabrochavam como flores malditas, ervas daninhas suspensa no ar. Algumas fizeram círculos no corpo da menina. Daí um minuto tudo acabou.”

Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos

Mas como reagir e interromper esse ciclo vicioso? A consciência adquirida através da literatura nos faz entender o quanto é importante apoiar causas e políticas públicas que combatam o racismo e as desigualdades racial, social e de gênero. Da atitude, surge a esperança, como o nascimento de Ayoluwa.

“Nós não escrevemos para adormecer os da casa-grande, pelo contrário, para acordá-los dos seus sonos injustos.”

Conceição Evaristo

Conceição Evaristo dá o exemplo e continua subvertendo a ordem imposta. Após uma campanha nas redes sociais para que assuma a cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras, a escritora entregou, neste mês de junho de 2018,  uma carta à instituição oficializando sua candidatura. Ainda não sabemos o resultado deste pleito, mas sua representatividade na literatura importa para o futuro.

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Título: Olhos d’água

Autor: Conceição Evaristo

Gênero: Ficção / Contos

Ano: 2014

Editora: Pallas

ISBN: 978-85-347-0525-7

Páginas: 116

Capa: Aron Balmas

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