La dimensión desconocida

“Lo imagino caminando por una calle del centro.”

Centro da cidade de Santiago. Imagino o Palacio de La Moneda, os prédios antigos que o cercam e a Plaza de la Ciudadanía por onde normalmente passo quando visito o Centro Cultural La Moneda. Imagino também a bandeira chilena gigante que tremula em frente, a Bandera del Bicentenario, que foi erguida em comemoração aos 200 anos da independência do Chile em 2010. Imagino ainda pessoas atravessando os sinais da Alameda apressadamente, os turistas, muitos deles brasileiros, que tiram fotos no cartão postal e os carabineros que montam guarda protegendo a sede do governo.

Essa é a cena que organizo mentalmente quando começa La dimensión desconocida. E me permito usar a marcação que muito me impressionou ao longo da leitura, um exercício de escrita confrontando o real e o imaginário da época da ditadura chilena. Mas antes de explicar esta experiência, quero contar como este livro me escolheu.

Em novembro de 2017, participei da Jornada de Edición e Industria Literaria da 37Feira Internacional del Libro de Santiago (FILSA). Já vivia em Santiago, mas tinha acabado de fazer uma mudança na cidade. Sem espaço, me prometi participar de uma feira de livros sem comprar livros. Será que eu conseguiria?

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Participação Nona Fernández na FILSA (arquivo pessoal)

Então, me vejo no evento e começa um painel sobre internacionalização da literatura chilena com participação da escritora Nona Fernández em que ela é apresentada com o anúncio de que tinha acabado de ser agraciada com o Premio Sor Juana Inés de la Cruz por La dimensión desconocida, lançada em 2016. Este reconhecimento é feito somente à escritoras mulheres, autoras de obras em espanhol na América Latina e Caribe e Nona estaria indo receber a premiação algumas semanas depois na Feria Internacional del Libro de Guadalajara, no México, uma das mais importantes feiras do mercado editorial.

Nona Fernandez
Nona Fernandez (Foto divulgação)

Quebrei a promessa e comprei o livro. E estou escrevendo esta resenha sob a emoção de haver terminado sua leitura, em junho de 2018. Absolutamente impactada com esta que, para mim, foi uma das minhas melhores leituras dos últimos tempos.

Infelizmente, neste momento, ainda não existe uma tradução da obra para o português. Essa foi minha primeira leitura de Nona Fernández, mas já acho que ela merece representar, ao lado do também chileno Alejandro Zambra, já publicado no Brasil, a literatura contemporânea chilena.

La dimensión desconocida faz alusão ao nome de uma série de televisão muita famosa nos anos 80 sobre ficção científica, suspense e terror. No original chamava-se The Twilight Zone e ficou conhecida no Brasil como Além da Imaginação. A capa da edição em espanhol remete ao túnel do tempo que aparecia na abertura do programa. Só que o túnel imaginado pela autora não leva ao universo da fantasia, mas sim à realidade do que foi a ditadura chilena ocorrida a partir do golpe militar que depôs o presidente eleito Salvador Allende em setembro de 1973 e perdurou até março de 1990.

“Abramos esta puerta con la llave de la imaginación. Tras ella encontraremos una dimensión distinta. Están ustedes entrando a un secreto mundo de sueños e ideas. Están entrando en la dimensión desconocida.”

No dia 11 de setembro de 1973, quando Nona tinha dois anos de idade, o Palacio de la Moneda foi bombardeado e o presidente Allende saiu de lá sem vida, começando então um período sombrio na História do Chile sob o comando do ditador General Augusto Pinochet. A repressão foi exercida através da violação dos direitos humanos de mais de 40 mil pessoas que se opunham ao regime e foram detidas, torturadas, desaparecidas e executadas, conforme atestam os relatórios elaborados pela Comisión Nacional de Verdad y Reconciliación e Comisión Nacional de Prisión Política y Tortura.

A obra de Nona Fernández se situa mais especificamente a partir de 27 de agosto de 1984 quando um agente secreto das Forças Aéreas resolve procurar a redação da Revista Cauce e confessar seu testemunho e participação nas violentas ações de tortura pelo Estado. Na ocasião, a escritora era uma menina de treze anos e não poderia imaginar que, ao ver a manchete da confissão deste homem nas bancas de jornal, ao conviver com companheiras no Liceu onde estudava, ao assistir inocentemente a série de televisão, estaria elaborando todo um material de vida que trinta anos depois explicaria uma outra dimensão.

“No quiero que mis hijo sepan lo que fui, dice. Voya volver a mi trabajoy voy pagar el precio de que o que he hecho. No me importa que me maten.”

Para estabelecer esta ideia, a estrutura da obra é organizada em quatro partes: Zona de Ingresso, Zona de Contacto, Zona de Fantasmas e Zona de escape. A narrativa é objetiva, fazendo distinção clara entre os fatos, as memórias e a subjetividade da imaginação da autora. Como Nona também é roteirista, nota-se  que ela transforma este último elemento em uma prosa irresistível, ainda que se tratando de uma temática tão difícil.

E é o Museo de la Memoria y de los Derechos Humanos, um lugar que já visitei várias vezes e que voltei ao terminar a leitura, outro destes elementos que faz a ponte com o presente. Inaugurado em 2010 como um espaço para resgatar a verdade e o respeito aos direitos humanos, Nona o menciona criticamente, revelando como nada é tão simples quanto parece.

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Museo de la Memoria y de los Derechos Humanos

De qualquer forma, este museu, projetado por um escritório brasileiro, é onde se pode ver in loco muitos detalhes que compõe a narrativa. O emaranhado de situações que se descortinam na dimensão desconhecida estão lá. A Revista Cauce, as imagens familiares das pessoas que ela cita, as notícias sobre cada caso. Para mim, em especial, foi comovente reconhecer que um dos vídeos que assisti na minha primeira visita ao museu, mostrando a brava Maria Estela Ortiz sendo impedida pelos carabineros de homenagear o marido assassinado, tem relação com a obra.

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E com estas relações, acredito que as memórias se conectem e passem a fazer um sentido maior. Também tivemos no Brasil um golpe militar que estabeleceu 21 anos de ditadura e graves violações de direitos humanos no período de 1964 a 1985. As intersecções entre as ditaduras na América Latina não coincidem à toa. Assim, outras obras que já comentei aqui no blog como A resistência (Julián Fuks, 2015), Un comunista en calzoncillos (Claudia Piñero, 2013), Formas de volver a casa (Alejandro Zambra, 2011) e Ainda estou aqui (Marcelo Rubens Paiva, 2015) são alguns exemplos de como a ditadura afeta tanto aqueles que a viveram diretamente como as gerações seguintes.

La dimensión desconocida é um portal para zonas que preferíamos que não existissem, que fossem somente parte de uma imaginação de um mundo cruel hipotético. Infelizmente não é assim. Os fatos relatados por Nona foram revelados por um homem atormentado que, comparado ao monstro de Frankenstein na obra de Mary Shelley, admitiu e hoje vive no exílio para não sofrer retaliações. Seus relatos se converteram em memórias e estas em literatura. Para não esquecer e nunca mais acontecer.

“La empatía y la compasión son rasgos de lucidez, la posibilidad de ponerse en los sapatos del otro, se transmutar la piel y enmascararse con un rostro ajeno es un ejercicio de pura inteligência.”


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso.

Título Original: La dimensión desconocida

Autor: Nona Fernández

Gênero: Não Ficção / memórias

Ano: 2016

Editora: Literatura Random House

ISBN: 978-956-9766-27-5

Páginas: 233

Capa: Amalia Ruiz Jeria

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