Garotas mortas

“A manhã de 16 de novembro de 1986 estava clara, sem uma única nuvem, em Villa Elisa, a cidadezinha onde nasci e me criei, no centro-leste da província de Entre Ríos.”

É no interior da Argentina que a narrativa começa. De maneira pacata. Quase bucólica. Trata-se da memória da própria autora caracterizando o meio em que nasceu e viveu sua adolescência. Porém, uma notícia de rádio quebra a tranquilidade. Uma garota é encontrada morta dentro de casa. A partir daí, Selva Almada começou a perceber que o mundo não era tão seguro quanto parecia.

“Durante mais de vinte anos, Andrea esteve por perto. Voltava de quando em quando com a notícia de outra mulher morta.”

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Selva Almada – Foto de divulgação Editora Todavia

Definitivamente, essa não é uma leitura confortável. Garotas mortas é uma denúncia. Muito se tem falado sobre micromachismos como no caso em que mulheres são desrespeitadas ou, de alguma forma, consideradas em condições de inferioridade. No entanto, ao contar a história de Andrea, María Luisa e Sarita, Selva Almada reforça o que já sabemos. Machismo mata. E não dá para tocar neste assunto de forma agradável. Assim como também não dá para evitá-lo. Então, a autora faz isso de forma didática. O que não quer dizer que não seja doloroso.

Conheci a obra através de um coletivo de leituras chamado Leia Mulheres que preza por incentivar a literatura escrita por mulheres. O formato possui vários núcleos pelo Brasil e divulga mensalmente os livros que serão lidos e as datas dos encontros através dos respectivos perfis no Instagram do clube e das mediadoras. Por sorte, o encontro de julho foi marcado para a data que eu estaria no Rio e tive apenas alguns dias para ler e poder participar.

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Comecei sem saber nada sobre o livro. Porém, considerando o título e a capa, imaginava que não navegaria em águas calmas… De qualquer forma, confiei na escolha do clube e na editora do livro, a Todavia, cuja linha editorial eu tenho gostado muito.

Tive que correr com a leitura nas madrugadas, fiquei triste, angustiada, tive pesadelo. Me arrependo? Claro que não porque acho que me senti um pouco como a autora. Próxima, de luto. E, ao falar e escrever sobre elas, também sinto que transformo este luto em luta.

Mas a verdade é que a escrita da autora não agradou a todxs no grupo. Foi muito interessante ouvir pontos de vista e expectativas diferentes. Uma das questões seria que a autora mesclou um pouco a história de cada menina e isso, em alguns momentos, confundiu. Confesso que eu voltei várias vezes para conferir informações e fixar cada história, mas isso não me incomodou. Então, para que ninguém deixe de ler a obra desta autora que veio a FLIP 2018 e debateu com Djamila Ribeiro na mesa “Amada vida”, eu vou tentar facilitar esse entendimento inicial.

Os fatos ocorreram na década de 80 quando a Argentina vivia o fim de uma ditadura militar e o início de um processo de redemocratização. A primeira garota morta, María Luisa Quevedo, trabalhava como empregada doméstica e vivia em Presidencia Roque Sáenz Pena, na província de Chaco, quando foi assassinada aos quinze anos em dezembro de 1983. Na ocasião, Selva Almada tinha dez anos, vivia com a família em Villa Elisa, na província de Entre Ríos, e não tomou conhecimento do crime.

“Vinte e cinco anos do crime de María Luisa Quevedo. Uma garota de quinze anos assassinada em 8 de dezembro de 1983, na cidade de Presidencia Roque Sáenz Peña. María Luisa passara alguns dias desaparecida, até que seu corpo violentado e estrangulado apareceu num terreno baldio nos arredores da cidade. Ninguém foi processado por esse assassinato.”

A segunda garota morta, Andrea Dane, era estudante de psicologia e vivia em San José, na província de Entre Ríos, quando foi assassinada aos 19 anos em novembro de 1986. Selva tinha treze anos e escutou a notícia pelo rádio.

“A garota se chamava Andrea Danne, tinha dezenove anos, era loira, bonita, de olhos claros, estava namorando e fazendo um curso de psicologia. Tinha sido assassinada com uma punhalada no coração.”

A terceira garota morta, Sarita Mundín, era prostituta e vivia em Villa Nueva, na província de Córdoba, quando desapareceu aos 20 anos em março de 1988. Selva tinha 15 anos.

“Pouco depois, também tive notícia de Sarita Mundín, uma moça de vinte anos, desaparecida em 12 de março de 1988, cujos restos apareceram em 29 de dezembro desse ano, às margens do rio Ctalamochita, na cidade de Villa Nueva, província de Córdoba. Mais um caso não resolvido.”

Selva não conhecia estas garotas mas houve uma identificação e assim, através deste e de outros casos de violência e de absurdo, Selva não se omitiu. Assim, descobriu que o assassinato de mulheres pelo simples fato de serem mulheres tinha nome: feminicídio. Descobriu que, antes de serem mortas, estas mulheres são perseguidas, agredidas, violentadas, torturadas. Descobriu também que, na grande maioria das vezes, os crimes terminam impunes. Descobriu que cada uma delas teve um familiar que resguardava a dignidade que lhe restava. Descobriu tantas coisas que teve que escrever este livro e, de alguma forma, reconstruir todas as histórias.

“Eu não sabia que uma mulher podia ser morta pelo simples fato de ser mulher, mas tinha escutado histórias que, com o tempo, fui ligando umas às outras. Casos que não terminavam com a morte da mulher, mas em que ela era objeto de misoginia, do abuso, do desprezo.”

E é assim que a escrita acontece, indo e vindo de uma menina para outra. Embora elas não tenham se conhecido, suas histórias se entrelaçam e estão intimamente relacionadas com a memória e a consciência de Selva. Existe realmente uma proximidade cultural e física entre as cidades que cada uma vivia, uma realidade social em comum.

Garotas Mortas foi publicado em 2014 e é impossível não fazer referência com 2666 do escritor chileno Roberto Bolaño (veja a resenha aqui). Nesta ficção, Bolaño escreve 352 páginas, correspondente a uma das cinco partes do livro, sobre os feminicídios ocorridos na fictícia cidade de Santa Teresa mas que se baseia na realidade de assassinatos de mulheres na real Ciudad Juarez.

Chicas Muertas nasceu na Argentina em 2014. Um ano depois, neste mesmo país, nasceu o movimento feminista nomeado “Ni una a menos” para denunciar o feminicídio e protestar contra casos como os de Andrea, María Luisa e Sarita.

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Segundo a Oficina de la mujer (Corte Suprema de Justicia de la Nación), a cada 32 horas uma mulher é vítima de feminicídio na Argentina. Já o Dossiê Violência contra Mulheres, informa que uma mulher é assassinada a cada onze minutos no Brasil.

Por essas razões, a memória de Selva Almada é povoada por estas mulheres. Elas voltam para contar através de investigações, de lembranças, de objetos e até mesmo através de cartomantes.

Unknown

Acredito que a Literatura cumpre seu papel ao trazer à tona histórias como estas que, não sendo jornalísticas, produzem outro tipo de sensação nas nossas emoções e repercutem nas nossas vivências. Passa a fazer sentido este termo tão diferente chamado sororidade que nos aproxima uma das outras e o desejo de que nos queremos vivas.

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 “Estamos no verão e faz calor, quase tanto quanto naquela manhã de 16 de novembro de 1986, quando, de certo modo, este livro começou a ser escrito, quando a garota morta atravessou meu caminho. Agora estou com quarenta anos e, diferentemente dela e dos milhares de mulheres assassinadas em nosso país de lá para cá, continuo viva. Apenas uma questão de sorte.”

Para se informar mais sobre o assunto no Brasil, recomendo o Dossiê Feminicídio elaborado pelo Instituto Patrícia Galvão.

Para fazer um teste sobre micromachismos, vale uma lida na lista preparada pelo El País Brasil.


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso.


Título em Português: Garotas mortas

Título Original: Chicas muertas

Autor: Selva Almada

Gênero: Não ficção

Ano: 2014 (Argentina), 2018 (Brasil)

Editora: Todavia

ISBN: 978-85-93828-74-4

Páginas: 128

Tradução: Sérgio Molina

Capa: Julia Masagão

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