O conto da aia

“Nós dormimos no que antes havia sido o ginásio esportivo.”

Preste atenção neste trecho: no que antes havia sidoO conto da aia é sobre as coisas que podem mudar se não tomamos partido.

Deve ser um pouco redundante comentar a sinopse desta obra, afinal, muito se tem falado sobre ela. Mas consideremos que partimos do zero. É possível que você já tenha visto coberturas jornalísticas de manifestações sobre os direitos das mulheres e tenha reparado que elas estivessem usando uma túnica vermelha e um chapéu branco que impede a visão periférica.

É possível também que você tenha visto a atriz Elisabeth Moss em trailers de divulgação de The Handmaid’s Tale. A produção foi vencedora do prêmio Emmy de melhor série dramática em 2017, tendo concorrido com Stranger Things e House of Cards. A atriz que interpreta a aia Offred (ou of Fred, percebe a nuance?) levou o prêmio de melhor atriz.

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A questão é que a série foi transmitida por um canal de streaming chamado Hulu, até então inacessível no Brasil e no Chile. Se não fosse por isso, acredito que a associação seria mais imediata. A produção é baseada no romance, escrito pela canadense Margaret Atwood e publicado em 1985. Ou seja, há mais de trinta anos. Porém, para além da reconhecida qualidade da série, não haveria tanta repercussão se não fosse tão impactante.

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E ainda é possível também que você tenha se deparado com pilhas de um livro de capa branca com a figura desta mulher de vermelho na capa. Acontece que, após o sucesso da série, a obra tomou novo fôlego e foi reeditada aqui no Brasil. Segundo o Publishnews, o livro voltou a constar das listas dos mais vendidos em vários países.

Capa O conto da aia
Edição atual
Capa O Conto da aia_edição antiga (1)
Edição antiga

Quando Atwood escreveu a obra, vivendo na Alemanha na época da Guerra Fria, talvez não pudesse prever o ciclo de vida deste livro. Em entrevistas, ela costuma citar que se baseou em fatos reais e na clássica obra distópica de George Orwell, 1984. Combinadas estas inspirações, a autora imaginou uma distopia. Ou seja, uma ficção contrária à utopia, onde se idealiza o lugar perfeito. No caso desta ficção, o topos, o lugar projetado, seria infeliz. Vamos recorrer ao exercício da autora?

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Margaret Atwood (2015) – Crédito: Larry D. Moore

Imagine que o meio ambiente está altamente contaminado e surgem epidemias que afetam a fertilidade das mulheres. Os EUA sofrem algo como, vejamos… um golpe. Um grupo extremamente conservador derruba a constituição e assume o poder,  instaurando um regime totalitário, fundamentalista e teocrático. É a República de Gilead.

“Foi depois da catástrofe, quando mataram a tiros o presidente e metralharam o congresso, e o exército declarou um estado de emergência. Na época, atribuíram a culpa aos fanáticos islâmicos… Foi então que suspenderam a Contituição. Disseram que seria temporário. Não houve sequer nenhum tumulto nas ruas. As pessoas ficavam em casa à noite, assistindo à televisão, em busca de alguma direção.”

Neste caos, coisas absurdas começam a acontecer. Acompanhe o raciocínio. Este novo regime é ultraconservador e, como já mencionado, teocrático. Isso significa que o Estado não é laico. As leis são estabelecidas de acordo com a interpretação literal do Velho Testamento e como existe um problema reprodutivo, a espécie está ameaçada de não se perpetuar. Sendo assim, o que se pode imaginar que acontece com as raras mulheres férteis? O que acontece com os homossexuais? O que acontece com os rebeldes? Direitos básicos são cerceados de maneira brutal.

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Gênesis, 30: 1-3 Epígrafe da obra

Para ser coerente e preservar o seu direito de não acessar spoilers, saltarei para comentar a narrativa. O próprio título, o trailer da série  e a sinopse oficial expõem o que vou explicar. As aias pertencem à uma das novas castas existentes dentro desta sociedade. São as mulheres férteis, escravizadas para a única e exclusiva missão de procriação das famílias cujas mulheres não podem ter filhos e cujos homens são os idealizadores deste sistema.

Estas mulheres são afastadas de suas famílias, perdem seus empregos, sua liberdade, seu nome, o direito sobre seus corpos. São torturadas e muitas vezes enlouquecem. São mantidas em cárcere e vigiadas. Não podem ler nem escrever. Não há mais jornais, revistas, livros, muito menos internet, obviamente. Não podem socializar. Vigiam umas às outras. E usam seus vestidos vermelhos para que sejam facilmente identificadas pelas tias, pelas martas, pelas econoesposas. Tudo o que podem fazer é cuidar da sua saúde para que estejam disponíveis em seus períodos férteis para manter relações sexuais com seus comandantes, deitadas sob as pernas das esposas deles para, enfim, conceberem o fruto, amamentar até que possam seguir para outra casa e começar tudo de novo.

– Bendito seja o fruto – diz ela para mim, a expressão de cumprimento considerada correta entre nós.

– Que possa o Senhor abrir – respondo, a resposta também correta.

A narrativa é o registro de uma aia que chega até nós, leitores. Como um documento histórico e sigiloso. É um testemunho chocante e, ao mesmo tempo, uma versão única. Característica que a literatura nos ensina que devemos identificar na narração em primeira pessoa. Porém, uma das coisas que mais me chama atenção é a consciência tardia da jovem mulher transformada em aia. É doloroso vê-la reconhecer que não se atentou aos sinais e não se engajou na luta que poderia ter evitado essa noite tão sombria, nome dado a alguns dos capítulos de seu conto. Mas… nunca é tarde, não é mesmo?

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Está curiosx para saber o que significa?

O que eu posso comentar a mais sobre este livro é que os tempos são inexoráveis e que ele deve ser lido. Que a mente de Margaret Atwood, hoje com quase 80 anos, é assombrosamente lúcida. Ela participa da produção da série, concede entrevistas, mantém sua página oficial, se pronuncia sobre inúmeras questões atuais relacionadas à igualdade dos direitos das mulheres.

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E por qual motivo precisamos ler sobre distopias? O escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de As veias abertas da América Latina, fazia uma referência às utopias, os tais mundos perfeitos. Dizia que elas só serviam para caminhar porque, quanto mais caminhássemos, mais nos afastaríamos delas. Imagino que as distopias se situem neste horizonte contrário. E que devemos lê-las para tomar consciência para que nunca, nem de perto, aconteçam.

Para ver o trailer da série, clique aqui.


 

Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso.


 

Título em Português: O conto da aia

Título Original: The handmaid’s tale

Autor: Margaret Atwood

Gênero: Ficção científica / distopia

Ano: 1985

Editora: Rocco

ISBN: 85-325-2066-9

Edição: 2017

Páginas: 368

Tradução: Ana Deiró

Capa: Laurindo Feliciano

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