A arte de ler

“Lê-se muito pouco, dizia Voltaire, e, entre os que desejam se instruir, a maioria lê muito mal.”

Voltaire viveu no século XVIII. Émile Faguet, escritor e crítico literário, viveu no século XX e citou o pensador iluminista em A arte de ler. Em pleno século XXI, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2015, aponta que, segundo sua amostra, 56% dos entrevistados declararam ler ao menos um livro, inteiro ou em partes, nos últimos três meses em que foram consultados. Poderíamos afirmar que a primeira sentença de Voltaire continua valendo?

Segundo os dados da pesquisa, se considerarmos livros de literatura, apenas 9% afirmaram ler contos, romances ou poesia por vontade própria. Ou ainda 15% lê este mesmo tipo de texto por obrigação. Obviamente que esses dados isolados não nos autoriza a afirmar a segunda sentença. Mas os consideremos com alguma preocupação. Nesse sentido, Émile Faguet continua sendo atual.

A ideia de conceber a leitura como arte, a princípio, pressupõe um distanciamento. No entanto, já na introdução, Faguet apresenta sua proposta de uma forma muito simples perguntando ao leitor o motivo pelo qual se lê. E ainda que ele seja um crítico e que consideremos que, como profissional, está em outro nível de compreensão das obras, Faguet conversa muito fácil com o interlocutor.

“Quer aprender a ler como se aprende a tocar violino, ou seja, para saber tocar e desfrutar do máximo de prazer possível ao tocar?”

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Crédito: Ben White – Crédito: Unsplash

E como ele faz isso? O escritor sabe que leitura é um aprendizado. Então, ele não só nos reforça as lições que todo e qualquer processo demanda, mas também orienta por tipos de leitura, como os livros de ideias, de sentimentos, as peças de teatro, os poetas, os escritores obscuros e até os maus autores.

“Para aprender a ler é preciso ler bem devagar, e em seguida é preciso ler bem devagar e, sempre, até o último livro que terá a honra de ser lido por você, será preciso ler bem devagar.”

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Crédito: Gift Habeshaw – Fonte: Unsplash

Para além destas questões que poderiam ser obstáculo à leitura, por um instante cheguei a pensar que Faguet fosse nosso contemporâneo. Ao começar a ler o capítulo em que se reconhecem os inimigos da leitura, me imaginei pensando o que ele diria se fosse conhecedor do nosso tempo e se deparasse com as séries via streaming, com as redes sociais ou com aplicativos de mensagens instantâneas. Mesmo assim, somos surpreendidos por uma tese inusitada do que seria verdadeiramente estes opositores.

Obviamente que Faguet, querendo ou não, é alguém com vasto repertório, que exemplifica seus argumentos fazendo referências que nem sempre estão ao alcance dos mais bem dispostos leitores. Retomando a questão de Voltaire, há de se reconhecer o quanto é difícil adquirir um hábito, desenvolver técnicas e nunca direi sofisticar, mas desafiar-se com a literatura.

De qualquer forma, é bastante motivador enxergar que assim como a própria literatura, a leitura pode ser uma arte a requerer de nós dedicação, persistência, criatividade e reflexão.

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Crédito: John Michael Thomson -Fonte: Unsplash

 


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Título em Português: A arte de ler

Título Original: L’art de lire

Autor: Émile Faguet

Gênero: Não ficção / Ensaio

Ano: 1912

Editora: Casa da Palavra

ISBN: 978-85-7734-112-2

Edição: 2009

Páginas: 143

Tradução: Adriana Lisboa

Capa: Mariana Newlands

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