A primeira história do mundo

“Estamos na cena do crime.”

Existem muitas maneiras de se contar uma história. O método mais tradicional é o objetivo e o interlocutor não precisa fazer muito esforço. Mas nada se compara à narrativa que se propõe literária. É o que o escritor carioca Alberto Mussa faz em A primeira história do mundo ao conceber um romance policial no contexto da fundação da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

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Alberto Mussa por Paula Johas

Pela historiografia, sabemos que este acontecimento é datado como 1de março de 1565 e localizado em uma estreita passagem de terra entre os Morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Sabemos também que o fundador da cidade, Estácio de Sá, foi nomeado Governador-Geral da Capitania, mas morreu dois anos depois após ser atingido por uma flecha na Batalha de Uruçumirim. O território, ainda sem fronteiras definidas, era alvo de disputa entre franceses aliados com tamoios e portugueses aliados com temiminós.

“Não sei se o leitor concebe esta floresta antiga, a selva tropical atlântica do Rio de Janeiro, no século 16. Um passeio pela que remanesce hoje pode dar, no entanto, uma noção. O que mais impressiona, naturalmente, é a majestade das árvores lenhosas, pesadas, de troncos grossos e altíssimas copas, alcançando facilmente vinte braças do chão: jequitibás, jacarandás, maçarandubas, ipês, canelas e cedros.”

O fato novo é um crime ocorrido em 14 de junho de 1567: o assassinato do serralheiro Francisco da Costa, cujo registro foi encontrado na obra Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro, de Elysio Belchior. Ao reconstituí-lo, Mussa reconstitui também o espaço e sua ocupação através de outra perspectiva, a partir não só do manancial histórico mas também dos mitos. Assim surge uma nova versão que nos impele a rever o período e, principalmente, nos envolve na investigação desse crime.

Com relação ao período histórico, a perspectiva nos remete a um passado bastante verossímil. O autor não economiza na explicação da geografia, dando referências de localização que orientam na construção de paralelos com a atualidade. Além disso, acrescenta informações que estimulam o exercício da imaginação. A existência da Casa de Pedra, construção situada na região da Carioca, é um exemplo.

“Carioca é também o lugar da Casa da Pedra, marco delimitador do território da cidade. Prédio meio fantástico, meio lendário, foi a primeira construção do gênero erguida na costa brasileira; e não nos resta dela, hoje um único vestígio.”

Também ocorre uma contextualização com relação aos eventos e às personalidades históricas. Nesse sentido, temos menção aos tupis, habitantes originários destas terras, aos navegadores portugueses que as avistaram ainda em 1502 e aos franceses que fundaram a França Antártica em 1555 assim como toda a sorte de disputas que daí se desenrolaram no sentido de reivindicar a ocupação territorial.

A respeito do crime, nos deparamos com o microcosmo de um povoado, recém formado, de quatrocentos habitantes brancos e mamelucos, cravado numa terra originalmente ocupada pelos tupis, adeptos da antropofagia. Francisco era casado com Jerônima Rodrigues. Era uma época em que se arranjavam casamentos para atingir o devido povoamento e garantir a ocupação. Mussa apresenta nada menos que dez investigados de matar o serralheiro, as hipóteses relacionadas e o processo investigativo na época. Todos giram em torno de um possível crime passional ainda que imperasse uma violenta disputa de território.

“Se considerarmos que a cidade ainda mal passava dos quatrocentos moradores (sem contar os índios dos aldeamentos), a morte do serralheiro envolveu cerca de 15% da população, sendo 2% os acusados do crime.”

A linha que costura a história e a investigação surge do imaginário. E é assim que Mussa extrapola a realidade. Do mito do surgimento da humanidade no lugar que se denominou Carioca, da lenda da Casa de Pedra que guardaria um mapa para as minas de ouro, da comunidade de mulheres guerreiras até a relação com A divina comédia de Dante Alighieri e os nove círculos do inferno.

“Contavam os temiminós, como contaram os tamoios, uma história do princípio, do tempo em que os bichos falavam e tinham forma humana. Viviam ali, na Carioca, dois irmãos – Tamanduá e Urubu – que compartilhavam a mesma mulher, Preguiça.”

Para não ficar somente nas referências da história, da tradição oral e de Dante, pode-se comentar outras duas inspirações literárias que se destacam. Pelo lado policial, tem-se Agatha Christie. Pelo lado antropológico, Eduardo Viveiros de Castro. Ambos a reforçar os recursos utilizados na elaboração da obra.

Sendo assim, a narrativa organizada alterna entre fatos, descrições dos ambientes e personagens, a linha investigativa e a associação com o conjunto de lendas e mitos em uma escrita que aproxima o leitor e o instiga a também construir uma tese. Não se trata de uma leitura romantizada. Ainda que personalidades sejam traçadas e até personagens míticos sejam apresentados, não há na obra um tom heroico ou a imposição de um lugar que hoje é, ao mesmo tempo, uma marca e símbolo de vários estereótipos. Tudo é muito natural e humano.

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A primeira história do mundo tem raízes bem plantadas na pesquisa, mas é, sobretudo, literatura. A linha tênue é exatamente o que faz o leitor se surpreender e se encantar com a temática. Trata-se de uma narrativa para entender não somente a fundação de uma cidade, como se pode pensar, mas também a infinita combinação de valores culturais e históricos que resultam na formação de uma comunidade. E é justamente na diversidade destas interpretações que cabe o fascínio por uma cidade como o Rio de Janeiro.

Mas esta é só uma parte do projeto de Alberto Mussa de pensar a história do Rio. A primeira história do mundo faz parte de um compêndio de cinco obras, uma para cada século, abordando ficção policial, baseada em referências histórico-sociais de sua respectiva época e nos mitos que as embalam.

A literatura me parece, cada vez mais, uma das maneira mais lúdicas de revisitar a história, entender a sociedade e refletir. O Rio de Janeiro e seus cartões postais ainda são vendidos em uma imagem turística que se distancia da realidade. É possível imaginar, dado o mote policial destas obras, as mazelas sociais que Mussa abordaria se pensasse no século XXI. Seria possível uma transformação de tal maneira que lhe faltassem os registros criminais para escrever? Aposto minhas fichas na educação, na cultura e, obviamente, na literatura.


Escrevo este post a exatos três dias do incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Ainda sob impacto desta tragédia que nos dilacera, gostaria de poder abraçar o museu como no ato em que cariocas se mobilizaram poucas horas depois do ocorrido. Gostaria ainda de me solidarizar com aqueles que trabalhavam pelo museu e por amor à ciência e à cultura. Que este sentimento possa unir e conscientizar a população da cidade em prol do futuro.

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Fonte: Página oficial do Museu Nacional

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Título: A primeira história do mundo

Autor: Alberto Mussa

Gênero: Romance histórico

Ano: 2014

Editora: Record

ISBN: 978-85-01-03175-4

Páginas: 192

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