Capitães da Areia

“Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem.”

A imagem de uma criança dormindo é quase uma tradução poética da proteção a que ela tem direito. E é a partir desse imaginário que a literatura nos conduz à inversão deste ideal: a realidade do desamparo na infância e na adolescência.

Capitães da Areia é um romance de denúncia social situado em Salvador, na Bahia da década de 30. Foi publicado em setembro de 1937, dois meses antes do início do período conhecido como Estado Novo, implementado por Getúlio Vargas e que perseguiu apoiadores do comunismo como era o caso do seu autor, o escritor Jorge Amado. Na edição de 2008, consta reportagem do Jornal do Estado da Bahia de dezembro de 1937 informando sobre a queima de 808 exemplares. Porém, como é possível observar, livros queimados despertam interesse e a obra, traduzida para mais de quinze idiomas, virou filme, teatro, série televisiva, espetáculo de dança e quadrinhos, no Brasil e no exterior.

É minha primeira leitura de Jorge Amado, conhecido também pelas inúmeras adaptações de suas obras para a televisão. Mas eu já tinha lido mesmo Anarquistas, graças a Deus, escrito por sua esposa Zélia Gattai. Jorge Amado despertou minha curiosidade durante a leitura de Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves. Nesta obra, a autora nos apresenta a Bahia do século XIX e já não pude mais me conter. Decidi ler Capitães da Areia e me adiantar um pouco no tempo.

zelia e jorge
Zélia Gattai e Jorge Amado Fonte: acervo de fotografias da Fundação Jorge Amado

O romance retrata um grupo de meninos de rua que vivem juntos em uma casa abandonada perto do mar e praticam furtos pela cidade, daí a alcunha. As notícias sobre as ocorrências desses delitos e as trocas de correspondências entre autoridades e envolvidos, publicadas no jornal na cidade, são o ponto de partida para situar o leitor em um momento de ampla repercussão dos casos. De um lado, os que acusam. De outro, os que defendem.

Como na realidade atual, a discussão resume a superficialidade do tema a um julgamento incisivo. Entretanto, a humanização dos personagens amplia a perspectiva. A partir do desenvolvimento da narrativa, é dado ao leitor conhecer a história de cada um dos meninos e suas condições de vida. Não que isso torne a leitura mais fácil, porém, permite que se transite por ambos os lados desta realidade.

“Vestidos de farrapos, sujos, semiesfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas.”

A história de Pedro Bala é uma das que pode ilustrar essa dupla perspectiva. Por um ponto de vista, ele pode ser tido como um dos meninos mais “perigosos do bando”. Sob outra ótica, pode ser um líder que estabelece a fidelidade e a união do grupo. Já o Professor pode ser visto como o idealizador dos golpes ou como o único menino que aprende a ler e conta história para os outros dormirem, além de possuir talento para o desenho. Sem Pernas é portador de uma deficiência física, se aproveita dela para aplicar golpes nas casas de família em que se infiltra, mas quase se deixa levar pelo envolvimento afetivo que estabelece. Gato é o projeto de malandro sedutor que não resiste aos encantos da mulher mais velha que se submete aos cafetões das redondezas. Pirulito é o único deles que, além dos golpes, ouve os apelos da igreja. Estes são apenas alguns dos Capitães que formam um personagem coletivo.

“Se fizera homem antes dos dez anos para lutar pela mais miserável das vidas: a vida de criança abandonada.”

A vida deles está sempre marcada por algum tipo de vivência alterada pela violência ou pela miséria, fome, doença. Não tendo família, lhes faltou também o Estado e a sociedade a lhes garantir o básico: saúde, alimentação, educação. Mas souberam, de alguma forma, através deste convívio precário, socializar entre eles e prezar uma liberdade conquistada diariamente às custas de suas próprias regras.

Para além dos Capitães, Jorge Amado também usa da representação em outros personagens. O Estado ausente está nas figuras policiais e na autoridade do Reformatório que perpetua a marginalização. O poder está em personagens com elevada posição social e econômica como classe dominante. A religião está no padre José Pedro e na mãe de santo Don’Aninha, únicos provedores de afeto em uma sociedade indiferente. E a família se faz representar na figura de Dora, a menina que invade o espaço marcadamente masculino para exercer o papel feminino de mãe, irmã e esposa.

“Para os menores é como uma mãezinha, igual a uma mãezinha. Cuida deles. Para os mais velhos é como uma irmã que diz as palavras boas e brinca inocentemente com eles e com eles passa os perigos da vida aventurosa que levam. Mas nenhum sabe que para Pedro Bala ela é a noiva.”

Como toda obra do seu tempo, Capitães da Areia também precisa ser contextualizada e possui alguns estereótipos. Como é característico em outros livros do autor, o erotismo está muito presente e é retratado principalmente no papel do homem másculo e da mulher sensual como Tieta ou Gabriela. Já a mulher maternal é mais pacata e vista como santa, o que acontece com Dora, ainda que ela resista a este papel limitador e faça esforço para mostrar que sua condição feminina não a restringe.

Todas estas representações, mais de oitenta anos depois da publicação, podem ser transpostas para a atualidade. A discussão da redução da maioridade penal é uma delas porque, o que a obra faz, em vários pontos, é mostrar ao leitor, através da ficção, a linha tênue entre o comportamento dos meninos e uma possível infância perdida. Em outro momento, a ida de Pedro Bala para o reformatório remonta à tortura e ao trabalho compulsório como meios de punição por seu suposto desajuste à sociedade.

-Tu não vê que a vida da gente é cheia de pecado?… Todo dia…

-A culpa não é da gente… – esclareceu Dora. – A gente não tem ninguém.

Ainda assim, ao mesmo tempo que a ficção expõe o fatalismo de destinos trágicos, também aponta que a brutalidade pode ser revertida em possibilidades que resgatam a essência humana. Aponta ainda o resgate através do afeto e da empatia, fazendo refletir que não há soluções fáceis, porém, nenhuma delas prescinde ao combate da miséria através da preservação de direitos fundamentais e da dignidade humana. De todos os destinos possíveis, Jorge Amado, através de seus personagens, indica caminhos para travar este combate.

“Não se vive inutilmente uma infância entre os Capitães da Areia.”


Gostou da resenha e quer ler o livro? Você pode acessá-lo clicando na imagem abaixo. Comprando pela Amazon, você me ajuda a manter a página e não paga a mais por isso.

Título: Capitães da areia

Autor: Jorge Amado

Gênero: Ficção brasileira

Ano: 1937

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-359-1169-5

Edição: 2008

Páginas: 283

Link para a página da Fundação Jorge Amado

3 comentários em “Capitães da Areia

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: